Realização recente afeta ações que mais subiram no ano

Publicado em 09/11/2017 por Valor Online

A tese de que o recuo mais recente da bolsa de valores brasileira representa uma realização de lucros encontra subsídio na análise setorial, já que são justamente os grupos de empresas que mais andaram no ano os que apresentaram as quedas mais relevantes desde que o Ibovespa começou a dar sinais de cansaço. No entanto, a magnitude da baixa não anula os ganhos que as empresas vinham colhendo no ano, demonstrando que, apesar dos investidores mostrarem mais cautela, ainda não existe uma reversão do cenário para ativos locais. Levantamento realizado pelo Valor a partir do valor de mercado de empresas dos setores bancário, de varejo e consumo, de commodities, elétrico e de construção civil mostra que o comportamento das empresas foi um pouco diferente entre si, mas aponta basicamente para uma conclusão: os investidores decidiram aproveitar a caminhada firme rumo a novos patamares para embolsar lucros - e agora aguardam novos sinais no exterior ou no ambiente doméstico para voltar ao ritmo anterior. As varejistas, importante aposta do mercado com a recuperação da atividade econômica via consumo, estão entre as principais perdas desde o início de outubro. Mas elas também figuram entre as maiores altas no ano: esse grupo teve crescimento de 35,31% no valor de mercado até agora. Nesse caso, o cálculo considera Lojas Americanas, Lojas Renner, Grupo Pão de Açúcar, Natura e Raia Drogasil. No setor bancário, a análise do valor de mercado conjunto de Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander mostra que houve crescimento de 19,56% no ano até ontem, mas, desde o fim de setembro, quando o "rali" da bolsa passou a ceder, a queda é de 1,11%. Com a recuperação da economia e um ambiente mais benigno para países emergentes, o mercado encontrou a chance de realizar lucros. Para Eduardo Cavalheiro, gestor da Rio Verde Investimentos, esses setores - bancos e varejistas - tiveram desempenho melhor e, por isso, na hora da saída, são os que acabam sentindo mais impacto. "Só dá para vender aquilo que gerou lucro", diz. Ele pondera, no entanto, que, no setor de consumo e varejo, vale dizer que ativos fora do Ibovespa vieram surpreendendo bastante, caso de Magazine Luiza, B2W e Arezzo, empresas que continuaram mostrando resiliência mesmo após o caso JBS, que abalou os mercados. "Depois do episódio com a JBS, as empresas tentaram recuperar terreno. Mas o investidor estrangeiro é movido por resultado com Brasil e decidiu sair para embolsar ganhos. E a maioria do fluxo, internamente, é de fundos multimercado, que ficaram sem alternativa com a queda de juros no Brasil, mas procuram evitar sempre as perdas da carteira", analisa. Desde 17 de maio, quando o escândalo de corrupção da JBS atingiu em cheio os negócios no Brasil, o valor de mercado dos bancos subiu 6,25%, enquanto as varejistas caíram 0,37%. Já o setor de commodities - Petrobras, Vale e as siderúrgicas - apenas desacelerou os ganhos. O valor de mercado desse grupo cresce 18,30% no ano, quase a mesma variação observada desde o evento JBS, de 17,56%. Do fim de setembro para cá, porém, o crescimento do valor de mercado ficou menor, de 7,93%. No caso das empresas de construção civil, com MRV e Cyrela dentro do Ibovespa, houve alta de 20,15% no ano até ontem. Bastante sensível do ponto de vista do investidor, o ganho foi devolvido desde maio, quando houve retração de 8,24%, e também do fim de setembro para cá, quando caiu 7,37%. Considerado um setor defensivo, o segmento elétrico mostrou alta de 2,55% no ano até ontem e queda de 1,13% de setembro para cá. Desde 17 de maio, porém, houve alta de 8,57% no valor de mercado de Eletrobras, CPFL Energia, Copel, Engie Brasil, EDP Energias do Brasil, Cemig e Equatorial. Para Cavalheiro, se permanecer o cenário externo ainda favorável para mercados emergentes, passado um primeiro receio quanto à troca na presidência do banco central americano e com esperado crescimento mundial, ainda há chances de ganhos com os ativos locais. No entanto, do lado interno, os investidores ainda dependem da agenda política e só vão voltar a elevar exposição se o risco valer, de fato, a pena. "A sinalização por ora é que o risco aumentou, então deixamos de contar com um fluxo comprador mais firme. Mas ainda há condições de retomar o otimismo, a depender dessas variáveis", afirma. "Nosso mercado ainda é de fluxo [estrangeiro e local] e não de estratégia de longo prazo, o que significa que, quando há fluxo, tem alta e com saídas, acaba caindo."