O risco do peso morto

Publicado em 09/11/2017 por Valor Online

Nove anos depois da grande crise financeira, a economia mundial começa, enfim, a mostrar vitalidade. O Fundo Monetário Internacional projeta aceleração do crescimento na 2ª metade de 2017, estendendo-se em 2018 para 3,7% ao ano. É uma aceleração sincronizada, incluindo a Zona do Euro, o Japão, a Ásia emergente (China especialmente), a Europa do Leste. Os EUA e o Reino Unido não aceleram, mas sustentam o ritmo atual. Os países do grupo Brics, pela primeira vez em três anos, crescem simultaneamente. A expansão abarca 75% do PIB global. O resto, composto por economias exportadoras de commodities, notadamente as petroleiras, ainda patina. Nesse contexto uma bolha de otimismo exuberante inflou os mercados de ativos e as bolsas de valores, subestimando os riscos. Não se atenta que a retomada é conjuntural e vulnerável a retrocessos. O crescimento vem sendo puxado pelo consumo e pela animação moderada do crédito. Os investimentos continuam retraídos devido aos níveis relativamente elevados de ociosidade industrial, como é o caso nos EUA, na Zona do Euro (com exceção da Alemanha) e no Japão. Se o BC não criar estímulos ao crédito nossos bancos poderão ser um peso morto para a recuperação sustentada É digno de nota o êxito do Fed, o banco central dos EUA, em subir cautelosamente o juro de curto prazo, saindo de zero para 1,15% ao ano, sem desestabilizar a estrutura a termo das taxas de juros. As taxas longas continuam bem comportadas, girando em torno de 2,3% ao ano para os títulos do Tesouro de 10 anos e ao redor de 2,8% para os títulos de 30 anos, suavizando muito a volatilidade. A substituição da presidente do Fed, Janet Yellen, por Jerome Powell, um moderado que participou da era Bernanke, deixou os mercados tranquilos. Mas não faltam razões para cautela. Saberão os bancos centrais da Europa e do Japão achar o momento certo para reverter a política de alta liquidez sem abalar os mercados? Conseguirá a China manter seu ritmo de crescimento? Tensões geopolíticas sérias (como entre Arábia Saudita e Irã) poderão ser controladas? Mesmo que a resposta a tais interrogações seja positiva, resta uma dúvida sobre o papel do sistema bancário. Os bancos foram o epicentro da grande crise de 2008-2009. Ganância e negligência em face do boom imobiliário de 2003-2006 e incríveis excessos de alavancagem em operações à margem dos balanços colocaram os grandes bancos à beira de falências generalizadas. Por conta disso, intervenções extraordinárias e onerosas se fizeram necessárias. No calor da crise foram estatizados bancos quebrados e criados fundos públicos para capitalizações e resgate de ativos podres. Depois, os bancos centrais, além de zerar os juros, passaram a comprar maciçamente títulos de dívida de emissão privada inundando os sistemas com liquidez. O desastre obrigou os bancos a adotar regimes de prudência e a reforçar suas bases de capital próprio, sob novas regulações nacionais e sob diretivas do Acordo Internacional de Basileia III. Machucados e constrangidos precisaram de vários anos para se recompor. Desde então, usufruíram de juros muito baixos ou negativos o que lhes facilitou a rolagem de dívidas. De outro lado, os juros de longo prazo, também baixos, reduziram a margem de rentabilidade na intermediação financeira. Para desalavancar cortaram a escala de operações, especialmente no exterior. Os bancos europeus, por exemplo, subtraíram US$ 9,4 trilhões em créditos a empresas e países, inclusive na própria Europa, entre 2007 e 2016. No relatório de julho aos líderes do G-20 o Comitê de Supervisão Bancária do Acordo de Basileia atesta que, em média, os grandes bancos cumpriram os requisitos de capitalização, liquidez e alavancagem. Estariam capacitados para expandir o crédito, especialmente de prazos longos, necessários à retomada do investimento? A resposta não é simples mas existem razões para supor a preferência pelo curtoprazismo. Basileia III é bastante severa em relação a desequilíbrios de prazos de maturação entre passivos e ativos bancários o que torna mais escasso e oneroso o crédito de longo prazo. Adicionalmente persistem brechas regulatórias para retornos de curto prazo com operações alavancadas em derivativos e mercados futuros de câmbio. Vide, a esse respeito, o alerta do BIS no texto de 17/09 passado, "FX swaps and forwards: missing global debt?". Em resumo, a banca internacional tende a ser um peso morto na recuperação da economia mundial. O financiamento de longo prazo dependerá dos mercados de capitais - que são pró-cíclicos e voláteis - e de bancos de desenvolvimento capacitados, onde existirem. E os bancos brasileiros? Nosso sistema bancário atravessou bem a crise global, graças à estrita supervisão do BC. Mas não pode evitar as regras de Basileia III e as que virão com a versão IV deste Acordo. Além disso, depois da firme expansão do crédito de 2005 a 2014, o sistema deparou-se com a severa recessão de 2015-2016, inviabilizando a alavancagem até então vigente no setor empresarial. Além disso, a alta da inadimplência agudizou a aversão ao risco, levando a queda do crédito às empresas. Em 2016, as concessões às PJ recuaram 10,5% em termos nominais (ou -17,4% em termos reais). Em 2017, embora suavizada, a queda continua: espera-se retração nominal de 0,8% (ou queda real de 3,8%). Em suma, se o BC não criar estímulos ao crédito, sobretudo de suporte ao investimento, nossos bancos também poderão ser um peso morto para a recuperação sustentada da economia. Luciano Coutinho, consultor e professor convidado do IE/Unicamp escreve mensalmente às quintas-feiras.