Segundo mais antigo do Brasil, grupo de escoteiros de Botafogo comemora 100 anos em novembro

Publicado em 12/10/2017 por O Globo

Selfie. Alguns dos atuais integrantes do 2º GE São João Batista aproveitam o intervalo das atividades - Analice Paron / Analice Paron

RIO - Quem passa pela Rua Dona Mariana, em Botafogo, nas tardes de sábado, costuma estranhar a movimentação no pátio da Escola Municipal Joaquim Nabuco. É que nos fins de semana, durante o recesso das aulas, a escola cede seu espaço ao 2º Grupo de Escoteiros São João Batista da Lagoa para a realização de suas atividades. Os membros da agremiação - que completará 100 anos em novembro - se reúnem no local para treinamentos de escotismo, jogos e competições.

É neste clima que os participantes recebem os ensinamentos com foco no desenvolvimento físico, intelectual e moral. As atividades são variadas e vão desde montar acampamento e acender fogueira até a realização de operações de salvamento e primeiros socorros.

Quem explica é o atual diretor-presidente do grupo, Alberto Oliveira, que comparte as tarefas com o diretor técnico André Sales e o assistente Alexandre Pimenta. Segundo ele, o escotismo tem três princípios básicos que devem ser seguidos por todos os participantes: o dever para com Deus, para com os outros e para consigo próprio.

- O método se baseia essencialmente em pilares como aceitação da promessa (que fazem ao entrar no grupo) e da Lei Escoteira. Há também o sistema de patrulhas e de progresso (atividades específicas para cada idade e que rendem pontos aos participantes), aprender fazendo, contato com a natureza e método projeto (procedimentos que seguem para repassar os ensinamentos) - diz Oliveira, explicando que há sempre um adulto presente. - Com esses princípios, acreditamos que será possível construir um mundo melhor, em que se valorize a participação construtiva em sociedade.

Para se tornar escoteiro é preciso ter entre 6,5 e 21 anos. A partir daí, a atuação se dá como adulto voluntário, sem limite de idade. A estudante Geovana Rabelo tem 11 anos e há dois frequenta o grupo.

- Desde pequena gosto de ler gibis e sempre havia personagens escoteiros. Isso despertou minha curiosidade - explica a aluna do 6º ano do ensino fundamental 2.

Jovens escoteiras na Igreja São João Batista da Lagoa, em Botafogo, onde tudo começou - Analice Paron / Agência O Globo

Ela soube que o marido de uma das professoras era chefe dos escoteiros e pediu que sua mãe fosse à escola conversar com a docente. A jovem acredita que o escotismo fornece ensinamentos para a vida inteira.

- É divertido. Eu aprendo várias coisas que acabo usando no meu dia a dia, como a importância de trabalhar em equipe e de ajudar o próximo - diz Geovana.

Outra frequentadora assídua é Isabella Pinheiro. A estudante de Nutrição, de 19 anos, conta que ingressou no grupo aos 7 por influência do pai, Alberto Oliveira.

- Ele já era chefe, e meu irmão também frequentava. Acabei indo para o grupo, e gostei - explica Isabella.

Entre as coisas que aprendeu com as atividades escoteiras, a adolescente destaca a culinária. Hoje garante ser uma exímia cozinheira. Na faculdade, os amigos ficam curiosos e perguntam sobre as atividades. Aos poucos, a escoteira conseguiu carregar alguns para o movimento.

- Consegui trazer amigos da faculdade para o grupo, mas foram poucos. Ainda há muita resistência dos jovens - comenta ela.

Para comemorar seu centenário, o 2º GE São João Batista da Lagoa prepara uma intensa agenda para novembro. A programação inclui desde missa e sessão solene a coquetel e baile. A ideia, segundo Oliveira, é reunir o maior número possível de participantes e amigos do grupo para relembrar esses os 100 anos de história.

Diretor técnico do grupo, André Sales conta que a agremiação surgiu no dia 15 de novembro de 1917, quando o padre André Arcoverde, então titular da paróquia de São João Batista da Lagoa, em Botafogo, aceitou o convite de alguns paroquianos para, juntos, fundarem a Primeira Tropa de Escoteiros Católicos do Brasil (a primeira associação escoteira do país, batizada de Centro de Boys Scouts do Brasil, foi criada em 1910).

- Somos o segundo grupo mais antigo do Brasil. Perdemos apenas para o de Laranjeiras, que tem 101 anos. Hoje temos 70 integrantes, mas já chegamos a reunir 200 em nossa primeira sede, numa casa nos fundos da igreja de São João Batista da Lagoa, onde funcionou por cerca de 50 anos - comenta Sales.

A flor de lotus é um dos símbolos dos escoteiros e tem sua origem nas cartas náuticas, indicando o Norte - Analice Paron / Agência O Globo

Mais tarde, devido à construção de um estacionamento no local, o grupo foi obrigado a buscar um novo ponto para realizar suas atividades, passando por vários locais até se fixar, em 1990, na atual sede.

O movimento escoteiro foi fundado em 1907 pelo ex-general Robert Baden-Powell, na Inglaterra. No dia 1º de agosto daquele ano, ele levou 20 rapazes para a Ilha de Brownsea, no Canal da Mancha, para realizar o primeiro acampamento escoteiro do mundo. A ideia era transmitir técnicas aprendidas no âmbito militar que acreditava serem úteis no desenvolvimento dos jovens e, assim, criar um movimento educacional.

O escotismo vingou e se espalhou pelos cinco continentes. Estima-se que mais de 300 milhões de jovens já tenham passado pelo movimento.

A primeira notícia sobre escotismo chegou ao Brasil no dia 1º de dezembro de 1909 na revista "Ilustração Brasileira", editada pelo então tenente da Marinha Eduardo Henrique Weaver, que estava na Inglaterra acompanhado de um grupo de suboficiais para buscar os encouraçados Minas Gerais e São Paulo. As embarcações haviam sido encomendadas pelo governo brasileiro para montagem da sua famosa Esquadra Branca.

Sales conta que, no segundo ano de sua fundação, o 2º GE teve uma importante atuação no combate à epidemia de gripe espanhola no Rio.

- O apoio da paróquia de São João Batista da Lagoa foi imprescindível. A igreja havia sido transformada num hospital para o tratamento dos doentes. Os escoteiros iam de casa em casa prestando socorro, recolhendo os doentes e ajudando a enterrar os mortos - relata o diretor técnico.

Segundo Sales, a bravura do grupo rendeu um pedido do poeta Olavo Bilac à Liga de Defesa Nacional, para que o 2º GE fosse condecorado com uma medalha, mas a homenagem nunca aconteceu.

Em janeiro de 2011, o grupo se mobilizou para ajudar as vítimas das chuvas na Região Serrana do Rio. O episódio foi considerado a maior tragédia climática da história do país e deixou cerca de 500 mortos.

- É um trabalho de muita garra e amor. Nosso objetivo maior é o bem da humanidade e a ajuda ao próximo. Precisamos de adultos mais engajados com as causas humanitárias - diz Alberto Oliveira.

Existem hoje aproximadamente 80 mil escoteiros no Brasil, espalhados em 607 cidades e divididos em 1.265 grupos.

O lema Sempre Alerta significa estar atento a tudo o que acontece à sua volta e, ao mesmo tempo, pronto para agir e reagir. O tradicional gesto de continência dos escoteiros, com três dedos da mão em riste e os demais cruzados sobre a palma da mão, também tem seu significado. Os três dedos correspondem aos deveres para com Deus, com o próximo e consigo mesmo. Já o dedão sobre o dedinho identifica o lema "o maior protege o menor".

Uma escola para a vida inteira

O carioca Lúcio de Miranda Lima, hoje com 84 anos, é um dos mais antigos integrantes do 2º GE. Ele teve o primeiro contato com o escotismo aos 10 anos, quando ingressou no movimento, e permaneceu até os 15. Em 1971, retornou por causa do seu filho, que queria se tornar escoteiro. Como moravam em Botafogo, foram parar no grupo, onde Lima trabalhou como diretor técnico durante 37 anos e formou centenas de jovens. O afastamento definitivo se deu a partir de 2008, quando o advogado se ausentou por causa da saúde debilitada da mulher.

- Tive a honra de ter como mestre o oficial Gelmirez de Mello, um dos fundadores do escotismo no Brasil. Com ele, me tornei um ser humano melhor - declara Lima.

Ele explica que, embora os ensinamentos recebidos pelos escoteiros tenham foco em atividades "mateiras" (como descrevem as atividades escoteiras), eles podem normalmente ser usados na cidade.

- Um escoteiro sabe prestar os primeiros socorros em caso de acidente ou emergência. Sua formação o leva a realizar atos de gentileza, como ajudar uma senhora a atravessar a rua - afirma.

Mas nem tudo são flores. O advogado reclama das mudanças que alguns jovens escoteiros estão querendo implantar no movimento.

- O velho Baden-Powell pensou o movimento no início do século passado, dentro da realidade daquela época. É necessário adaptarmos algumas técnicas, mas alguns querem mexer na essência do movimento e isso é ruim - lamenta o ex-diretor.

Segundo ele, alguns jovens não querem desgrudar do celular e muitas vezes preferem que os passeios sejam pela cidade. Geovana Rabelo, porém, pensa diferente.

- Normalmente não tenho tempo para utilizar o celular no escotismo. Mas mesmo que tivesse, eu preferiria fazer as atividades porque é divertido. Além disso, elas são saudáveis e essenciais para o bom funcionamento do corpo - diz.

Alberto Oliveira explica que o desejo por mudanças pode ocorrer num grupo ou em outro, mas é isolado. Segundo ele, de um modo geral, as pessoas se tornam escoteiros por causa das atividades oferecidas.

O SIGNIFICADO DOS SÍMBOLOS:

Flor-de-lis

Símbolo do escotismo mundial, tem sua origem nas cartas náuticas, indicando o Norte

Chapéu e lenço

Usados à maneira do Velho Oeste americano, como fazia o general Baden-Powell

Aperto de mão

O escoteiro cumprimenta com a mão esquerda para mostrar que confia em seu adversário

Sinal escoteiro

Os dedos médio, indicador e anelar unidos simbolizam Deus, Pátria e o Próximo

Saudação escoteira

Realizada para cumprimentar autoridades ou durante a cerimônia de hasteamento da Bandeira Nacional.

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