Steven Soderbergh cria série interativa

Publicado em 10/11/2017 por Valor Online

Sharon Stone (com Paul Reubens) faz uma escritora que é assassinada, em "Mosaic" Um caso de assassinato reaberto em Utah, nos EUA, reacende investigações, trazendo novas pistas sobre a morte de uma mulher. Foi a chance de apresentar vários pontos de vista para um crime que seduziu Steven Soderbergh a assinar "Mosaic", primeira série de TV interativa do HBO, disponível na América do Norte em aplicativos iOS e Android e para desktop. "Deixo o espectador livre para navegar no universo que criei, sem que ele tome o meu lugar, o de contador da história", brinca Soderbergh. Por rejeitar o conceito dos jogos on-line, em que o usuário assume o papel de protagonista, criando a própria aventura, o diretor americano prefere comparar a experiência de "Mosaic" a de ler um livro, que ofereça a oportunidade de escolher a ordem dos capítulos e acompanhar o personagem de seu interesse. "Levando em conta todo o potencial dessa ferramenta, só demos o primeiro passo. No mundo das artes, seria o equivalente às pinturas nas paredes das cavernas", diz Soderbergh, durante a recém-encerrada 30ª edição do Festival Internacional de Cinema de Tóquio. O diretor de 54 anos foi escolhido para inaugurar a seção The World of..., criada para homenagear um expoente do cinema dos EUA. Desde que dirigiu "sexo, mentiras e videotape" (1989), vencedor da Palma de Ouro de Cannes e marco do cinema independente, Soderbergh nunca abandonou totalmente a experimentação, embora tenha feito concessões comerciais. São esses os casos de "Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento" (2000) e da trilogia iniciada com "Onze Homens e um Segredo" (2001). Por "Traffic: Ninguém Sai Limpo" (2000), conquistou o Oscar de melhor diretor. "Por passar a vida inteira pensando em formas de contar histórias, o que mais me intrigou em 'Mosaic' foi a ideia de narrativa ramificada, dando ao espectador a chance de escolher o ponto no qual ele quer se aprofundar", afirma Soderbergh, que desenvolveu o projeto em parceria com a empresa de tecnologia PodOp. "Juntos, conseguimos fazer do momento de decisão, em que o espectador seleciona o próximo passo, algo orgânico, como uma continuação da experiência, e não uma interrupção." Com Sharon Stone, Garrett Hedlund, Frederic Weller, Beau Bridges e Paul Reubens no elenco, "Mosaic" compreende sete horas de experiência interativa via aplicativo. O material servirá de "preview" para a série de seis episódios com première em janeiro no HBO, nos EUA - ainda sem estreia prevista no Brasil. A ideia é que o espectador compare a história que ele acompanhou no aplicativo com a oficial, contada de forma linear na TV. Na versão interativa, assim que o usuário baixa o aplicativo, ele assiste ao primeiro capítulo, sendo apresentado ao enredo. Trata-se de um assassinato que a polícia de Utah acreditava ter solucionado: o da escritora de livros infantis Olivia Lake (Sharon Stone). O caso passa a ser reexaminado, deixando o público explorar várias perspectivas sobre o crime, como se fosse um detetive em busca de pistas. Isso é possível graças a um mapa de navegação, com alternativas de desdobramento da história. A cada trecho escolhido, mais opções são abertas. "Pelos testes que fizemos, chegamos à conclusão de que o espectador faz as escolhas de acordo com o personagem que mais o atrai." O conteúdo disponível no aplicativo traz perfis dos personagens, recortes de jornais, gravações em áudio e cenas com informações-chave sobre o assassinato. Duas linhas narrativas estão à disposição, sendo possível pular de uma à outra. Uma corresponde ao tempo presente e outra é desenrolada quatro anos antes, na época do crime. "Experiências narrativas interativas não são necessariamente uma novidade", diz Soderbergh, citando os videogames "Quantum Break" e "Late Shift" e a recente iniciativa da Netflix. Desde junho, o serviço de streaming apresenta desenhos interativos, em que as crianças escolhem o destino dos personagens. "Mas avançamos ao apresentar uma proposta mais adulta. Aqui a forma de engajamento do espectador é muito mais elegante, graças aos recursos atuais do streaming e ao design visual que criamos." "Mosaic" não permite diferentes finais para a história. O desfecho é um só, embora o espectador tenha a chance de escolher o caminho até chegar lá. "Ainda assim, estamos dando um passo adiante na forma como consumimos audiovisual. A maneira como vemos televisão já mudou consideravelmente com os serviços de streaming." "Mosaic" consumiu três anos de trabalho de Soderbergh, em parceria com Casey Silver e Ed Solomon. Foi por conta desse projeto e de outras séries que o diretor declarou a intenção de se aposentar do cinema, em 2013. A ideia era concentrar suas energias na TV, "no exercício de novas linguagens". Mas foi um alarme falso, já que rodou neste ano o longa "Logan Lucky - Roubo em Família", que passou pelas telas no Brasil. "Independentemente do veículo onde atua, o diretor tem o melhor trabalho do mundo. O que conduzo é uma espécie de jogo de realidade virtual definitivo, lidando com pessoas, dinheiro, prazo e condições climáticas." É no set que Soderbergh testa as suas "forças e fraquezas". "O projeto sabe se estou dando o meu melhor. Se eu não estiver, ele mesmo me derruba", afirma, rindo. E como Soderbergh lida com os fracassos? Ao longo da carreira, de quase 40 títulos, alguns deles foram rejeitados, como "Kafka" (1991), "Gray's Anatomy" (1997), "Bubble" (2005) e "Confissões de uma Garota de Programa" (2009). "Tive a sorte de ser criado em uma casa onde o sucesso era medido pelo caráter e pela paixão de cada um. Nunca precisei de aprovação externa. Nem do ponto de vista financeiro, nem da crítica. Aprendi com os meus pais, meus primeiros mentores, a valorizar o processo e o trabalho mais do que o resultado", diz o cineasta, filho de Peter Andrew Soderbergh, ex-educador e administrador da universidade de Louisiana, e de Mary Ann, ex-consultora de programa de rádio. "Quando acabo um trabalho, encaro o que vem depois como algo abstrato. Só assim sigo o meu impulso, que é sempre o de contar histórias."