Tintas sociais tingem o terror nacional O Animal Cordial

Publicado em 12/10/2017 por Folha de S. Paulo Online

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No Brasil, o terror tem tintas sociais. Ao menos, é o que sugerem os filmes nacionais do gênero exibidos na edição deste ano do Festival do Rio.

Enquanto "As Boas Maneiras", de Juliana Rojas e Marco Dutra, situa sua trama de lobisomem numa São Paulo em que o rio Pinheiros é o que separa ricos e pobres, "O Animal Cordial", de Gabriela Amaral Almeida, despeja sangue num restaurante em que as distinções de classe também são bem claras.

Esse último filme foi exibido na noite da terça (10), no Rio. Ambos os longas concorrem ao Redentor, o prêmio máximo do festival.

"O Animal Cordial" começa no fim do expediente de um restaurante de classe média-alta em uma cidade não identificada do Sudeste. Murilo Benício faz Inácio, o proprietário, Luciana Paes interpreta a maître Clara, e Irandhir Santos é Djair, chef daquela cozinha algo estrelada.

A tensão social já está instalada. Inácio explora os empregados da cozinha a trabalhar até tarde, e o chef está em pé de guerra com o dono do restaurante. Os três clientes que ainda restam no local (o casal formado por Jiddu Pinheiro e Camila Morgado, e o solitário Amadeu, vivido por Ernani Moraes) também vociferam impropérios de classe.

A mesa vira quando o lugar é invadido por dois assaltantes (Humberto Carrão e Ariclenes Barroso), o que deixará as discrepâncias entre os personagens mais evidentes, trazendo à tona preconceitos de classe, origem e orientação sexual.

É também o estopim para o banho de sangue que se seguirá, remetendo aos chamados "gore movies", subgênero do horror marcado pela carnificina, como em "Holocausto Canibal" (1980) e nas obras de Tobe Hooper e John Carpenter.

Não à toa, a diretora apresentou seu filme na mostra carioca usando um vestido que estampava o rosto ensanguentado e transtornado de Sissy Spacek em "Carrie, a Estranha" (1976), clássico de Brian de Palma, adaptado da obra de Stephen King.

Baiana radicada em São Paulo, Gabriela Amaral Almeida tem em "O Animal Cordial" a sua estreia nos longas. Entusiasta do gênero do terror, tema sobre o qual recai boa parte de sua produção acadêmica, ela já incluía o sobrenatural em seus curtas-metragens, como em "Estátua!", sobre a relação entre uma babá (Maeve Jinkings) e uma garota excêntrica (Cecilia Toledo).

À Folha, em julho, a diretora contou da costura que faz entre o elemento insólito e o social. "Sou um sujeito político, com opinião sobre o mundo que me rodeia", afirmou. "E abordo o que me rodeia por meio do medo, que tem a ver com o tipo de arte que consumo."