Trump e Xi anunciam acordos comerciais simbólicos

Publicado em 09/11/2017 por Valor Online

O casal Trump visita a Cidade Proibida ao lado do casal presidencial chinês Quando Lord Macartney chegou a Pequim em 1793 buscando uma solução para o grande déficit comercial do Reino Unido com a China, a resposta do imperador Qianlong foi peremptória: "Não atribuo valor a objetos estranhos ou engenhosos, e não necessito dos fabricantes de seu país". Incapaz de acabar com a preferência de seu povo pelo chá chinês, Londres recorreu ao comércio de drogas para zerar o déficit comercial. Alguns séculos mais tarde, outro líder ocidental, o presidente Donald Trump, chega a Pequim para vender seus produtos - não ópio, é claro, mas produtos agrícolas e de energia. Entre os executivos em sua entourage estão o CEO da exportadora de gás Cheniere e o diretor para a Ásia da gigante de grãos Archer Daniels Midland. O presidente chinês, Xi Jinping, deu ontem as boas vindas a Trump com pompa e uma série de acordos comerciais - no valor estimado de US$ 9 bilhões - concebidos para dar um tom positivo à visita do presidente bilionário. Horas antes do Air Force One pousar em Pequim, a China reportou um superávit comercial de quase US$ 27 bilhões com os EUA em outubro. A agenda de entretenimento para agradar Trump incluiu uma visita à Cidade Proibida, o antigo palácio imperial na praça Tiananmen, uma apresentação da Ópera de Pequim e um jantar privado. Infelizmente, a venda de mais carne e petróleo à China terá provavelmente pequeno impacto no déficit bilateral, que segundo Louis Kuijs, da Oxford Economics, crescerá para US$ 370 bilhões neste ano. Os EUA podem ser uma potência agrícola e energética, mas suas exportações para a China ainda são relativamente pequenas: os embarques de produtos animais e vegetais em todo o ano de 2016 totalizaram US$ 16 bilhões, por exemplo, de acordo com dados chineses. Se esse número fosse triplicado de uma hora para outra, isso reduziria em menos de 10% o déficit esperado para este ano. As exportações de energia dos EUA para a China certamente estão crescendo rápido - 4,8 milhões de toneladas de petróleo nos primeiros nove meses de 2017, contra menos de 100 mil em 2015. Mesmo assim, as exportações de petróleo e gás natural dos EUA somam apenas US$ 2 bilhões até agora em 2017 - uma gota num oceano maior de déficit comercial. O perigo, então, é que ambos os lados pactuem alguns avanços fáceis em energia e agricultura, ignorando questões maiores. O verdadeiro "filé" para os EUA na China é o setor de serviços. O presidente chinês mostrou alguma disposição para abri-lo a empresas estrangeiras, mas o diabo está nos detalhes. Ajudar as empresas americanas a conquistar participações controladoras em joint ventures, por exemplo, parece ótimo, mas o retorno sobre ativos no setor financeiro chinês é dos mais baixos entre todos os setores: apenas 2%, em média, para empresas de capital aberto em 2016. Uma política consistente de acesso ao setor de saúde - onde os retornos são maiores mas as regras sobre investimentos estrangeiros continuam mudando - poderia contribuir mais para impulsionar os investimentos e lucros dos EUA. A alternativa, naturalmente, é mais tensão comercial, que tende a contaminar a geopolítica. A história não é necessariamente encorajadora nesse aspecto: oxalá os atuais líderes do mundo chinês e ocidental possam fazer melhor.