A Amazônia, o Círio de Nazaré e a Conferência Ethos Belém

Publicado em 06/10/2017 por Redação GS Notícias

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A cantora Fafá de Belém em entrevista

O Círio de Nazaré é um evento que reúne em Belém cerca de 2 milhões de pessoas, um dos maiores eventos mariano do planeta e de manifestação da fé católica, declarado em 2013 como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco.

Por sua magnitude e importância, o Círio também é um evento político no sentido de que promove a solidariedade, afeto e compromisso entre a população.

Em recente entrevista coletiva à imprensa paraense, a cantora Fafá de Belém, que realiza atividades sociais durante o Círio de Nazaré, envolvendo doações, contribuições por voluntariado, apoio a instituições filantrópicas, numa atividade que denominou como “Varanda de Nazaré”, que está em sua sétima edição, levantou bandeiras sinalizando a importância da defesa do território: “A Amazônia somos nós, e nós queremos respeito”.

Dentro dessa “falta de respeito”, estão citados o decreto, posteriormente revogado por pressão popular, de extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associados – RENCA, a redução da unidade de conservação da Floresta Nacional do Jamanxim- cobiçada por madeireiros/pecuaristas, a quebra e retenção das verbas orçamentárias do Museu Paraense Emílio Goeldi (instituição científica com mais de 150 anos de atuação na Amazônia), do Instituto Evandro Chagas (com mais de 80 anos e que desenvolve  pesquisas biomédicas e prestação de serviços em saúde pública, reconhecido internacionalmente), somados ao constante aumento do desmatamento, milhares de focos de queimadas, mortes de ativistas ambientais, chacinas no campo de lideranças quilombolas, indígenas e jornalistas, o que mostra que o Pará, especificamente e, consequentemente, a Amazônia, está sob ataque de interesses econômicos mancomunados com diferentes esferas de poder.

Dentro do respeito requerido, a cantora citou ações de solidariedade que precisam ser reforçadas como o caso das meninas balseiras, do Rio Tajapuru no Município de Melgaço, pior IDH do Brasil (Ilha do Marajó) que se prostituem em troca de dinheiro, mantimentos e até combustível. Manifestações de artistas estão reforçando o coro dos indignados, como o ator Victor Fasano, a modelo Gisele Bündchen, a atriz Marina Ruy Barbosa, o apresentador Luciano Huck e outros, num movimento que chamaram 342 Amazônia.

Mas não é de agora que o Pará sofre com as mazelas dos grandes empreendimentos e do interesse econômico e, quanto mais se torna uma das últimas fronteiras de cobiça, dado que os empreendedores do apocalipse vêm “dragando o país” numa rota de destruição para o Norte, maiores os danos e as pactuações em Brasília para a abertura da exploração desenfreada das riquezas nacionais.

Existem investidores de boa-fé, pessoas ligadas a setores econômicos de interesse nas riquezas amazônicas, mas que pensam no tripé meio ambiente, lucro, qualidade de vida da população local, ou seja, negócios sustentáveis, não por serem necessariamente “bons”, mas porque práticas sustentáveis nos negócios agrega valor ao produto.

Existe o pensamento empresarial do conchavo, dos flertes a políticos, do aliciamento de lideranças e grileiros, e até mesmo do jaguncismo.

Existe o pensamento empresarial que harmoniza, que observa e respeita o modo de vida do povo, que analisa impactos, recupera o que está ruim e transforma em parceiro as instituições mais austeras ligadas à preservação e ao meio ambiente, pois veem nelas uma oportunidade de melhorar, não um problema a ser enfrentado.

Pensar de forma coerente, olhar o mundo e adaptar-se a boas práticas empresariais dá trabalho. Recentemente, em palestra acompanhada por esta redação, um executivo do agronegócio foi abordado no passado em que deveria, em suas áreas de cultura, fazer um levantamento de espécies da fauna, no que indagou: “Agora vamos ter que cuidar de aves também?”. Mas assim foi feito, o investimento resultou num levantamento de quase 500 espécies de aves, dentre elas, 6 ameaçadas de extinção; 60 espécies de mamíferos de médio e grande porte, 6 delas ameaçadas de extinção; 57 espécies de répteis; 46 espécies de anfíbios.

Esse cuidado, ou seja, a harmonia das espécies com a cultura agrária da empresa, garantiu prestígio internacional, melhorou produtividade e vendas, promoveu parcerias com instituições de reconhecimento internacional na área ambiental, ou seja, mais precisamente, cuidar do meio ambiente e das pessoas é negócio, um ótimo negócio num mundo cada vez mais preocupado com sua própria preservação e sobrevivência.

Em 31 de Outubro, acontece em Belém a Conferência Ethos 360º, primeira vez que o evento se instala na Amazônia e sai do eixo Rio/São Paulo.No palco dos debates estarão conhecimento, tendências globais, estratégia de negócios, sustentabilidade e responsabilidade social, com foco na Amazônia, que esperamos possam ser ocupados por empresas do bem, que sensibilizem os investidores na região em afastar de suas operações os malfeitores e contribuir na paz social que faz tanta falta ao Norte.