Aqui deste lado do balcão

Publicado em 09/09/2018 por Carta Capital

Pixabay

"Bem sei que há ilhas ao Sul e grandes paixões cosmopolitas" (O Livro do desassossego, Fernando Pessoa)

Não sou nada. Sou um balconista e o meu trabalho coloca-me na posição de espectador do mundo. Posicionado estrategicamente atrás de um balcão, observo resignadamente a pequena parte que me cabe.

Diante de uma larga porta voltada pacatamente para a rua onde me permite olhar o mundo exterior como uma fotografia, um enquadramento fixo, a rua asfaltada e, de outro lado, uma clínica médica.

Aqui deste lado do balcão, eu vendo pão, biscoito e salgado. Do outro lado da rua, eles vendem exames de sangue e diagnósticos médicos. Entre esses dois pontos arbitrários da existência, movimentam-se automóveis, pedestres e cachorros, cada qual em sua lógica a obedecer a ordem do universo.

Para suavizar o peso das horas, fico a imaginar essa cena como se fosse uma espécie de teatro, cujos personagens encenam seus respectivos papéis para um homem como eu, condenado a contemplar os farelos de realidade que caem sobre a mesa da minha existência.

 Este quadro explica exatamente como passo a vida, pois a pintura que diariamente presencio retrata o entardecer, mas sem mostrar o por do sol. Fios de luz refletem no vidro espelhado da clínica, deixando subentender que existe um astro sobre o qual nosso planeta segue a girar neste cosmo vazio.

Infinitas possibilidades se apresentam diante de mim nesta porta-fotografia de entes vivos que se entrecruzam. Estranhamente percebo uma moça que carrega uma mala e passa apressadamente no sentido da esquerda para direita na minha perspectiva. Imóvel em meu lugar, plantado atrás das mercadorias, acompanho com os olhos a insignificante cena.

Cerca de vinte minutos depois, obedecendo a mesma direção da primeira, passa uma segunda moça a correr desesperadamente com os pés descalços. Fico agitado, intranquilo a imaginar a terceira cena. Esta não cabe na minha minúscula fotografia.

A lente do meu mundo não atinge a rodoviária que existe além do meu lado direito. Infinitas cenas povoam a minha mente. O ônibus foi mais rápido que o amor e levou ao longe para uma grande capital a primeira moça, sua mala e a história? Então, este seria o fim? As relações humanas não alcançariam a velocidade das grandes máquinas?

Prefiro outra cena, a segunda moça suportando as pedras, os possíveis cacos de vidro espalhado, o solo quente, desviando de obstáculos, consegue manter o seu ritmo de modo que impede a tarefa da empresa de transporte humano.

Manquitolando, com o suor a escorrer pela testa e ofegante, a nossa heroína adentra a plataforma de embarque e ao se deparar com seu alvo, permanece estática. Uma defronte da outra. Uma sem sapatos, a outra com uma mala. Um minuto de profundo silêncio, mas nesses 60 segundos todo o universo é resumidamente explicado.

Os movimentos agitados dos olhares se assemelham às danças dos corpos celeste no escuro vazio das galáxias. Um par de olhos busca desesperadamente o outro par. Nesse momento mais delicado da natureza, mais sensível que um desabrochar de uma flor no meio da avenida central, mais raro que um alinhamento entre planetas, as pupilas dilatam e retraem-se desordenadamente em busca de entendimento, aceitação, reconciliação.

Um olhar tenta se desviar para baixo de vergonha, em hesitação, o outro, aperta-se numa angústia diante de um possível destino que se configuraria em um caos. Subitamente, minha imaginação se dissipa ao perceber que minha porta-fotografia volta a enquadrar novamente as personagens. Da direita para esquerda, retorna a moça descalça, cabisbaixa a carregar a mala em suas costas. A outra moça, mais jovem e mais atraente, caminha a uns três passos atrás lentamente.

Em silêncio, alheias ao mundo e sem ser percebidas por ninguém a sua volta, retomam as suas vidas cotidianamente, ao meu lado esquerdo. Sinto neste momento o privilégio de estar situado entre a rodoviária do meu lado direito e a relação amorosa dessas duas moças do meu lado esquerdo.

Sou qualquer coisa situado entre estes dois pontos que pode contar essa história, entre as infinitas que passam todos os dias pela minha porta-fotografia.

Alguns dias depois, nossas heroínas entraram provisoriamente em meu mundo. Servi lanche natural e suco de laranja para a mais nova, refrigerante e coxinha para a mais velha. Neste momento não trocaram palavras ou olhares. Pagaram e, ao partir, paradas na porta, acenaram sincronicamente para o dono da clínica que acabara de sair para fumar. Este simpaticamente devolveu o aceno.

Em direção à esquerda, elas seguiram de volta para suas vidas tranquilamente enquanto o homem saboreava seu cigarro. Anunciando o entardecer, fios de luz refletiram no vidro espelhado, causando desconforto em meus olhos. Sinal de que o subserviente sol estava se pondo atrás da montanha conforme as ordens do universo vazio e sem, esperança enquanto o dono da clínica sorria. 

* "Sócio" desde 2017