Arquivo pessoal de Angela Davis é adquirido por biblioteca de Harvard

Publicado em 14/02/2018 por O Globo

SC - A escritora, professora e ativista Angela Davis - Divulgação

CAMBRIDGE, Massachusetts - O arquivo pessoal de documentos da ativista política e pioneira feminista negra Angela Davis foram adquiridos pela Biblioteca Schlesinger, do Instituto Radcliffe, da universidade de Harvard. O anúncio da aquisição foi feito nesta terça-feira e arquivistas agora trabalham no processamento da coleção, que estará disponível para pesquisa em 2020. Os documentos, datados desde a infância da escritora e professora até os estudos na universidade e de seu ativismo mais recente, incluem mais de 150 caixas de documentos, fotos, panfletos e outros materiais de arquivo.

Ao New York Times, Davis, que se aposentou da Universidade da Califórnia em 2008, disse que outras instituições já a haviam procurado nos últimos anos para tratar sobre seu arquivo pessoal. Mas ela preferiu a ideia de ter seu acervo guardado ao lado de documentos de amigos, como as poetas June Jordan e Pat Parker e a acadêmica do Direito Patricia Williams, assim como de registros de mulheres menos conhecidas, mas que participaram e fortaleceram diversos movimentos sociais, arquivados na mesma biblioteca.

"Como acadêmica e ativista, sempre trabalhei com os outros," disse Davis em entrevista ao jornal americano. "Eu tenho tanto respeito por muitas das mulheres que escolheram colocar seus documentos aqui".

Em um vídeo publicado no site do instituto Radcliffe, a curadora para raça e etnia da instituição se diz emocionada pela aquisição. Ela ressalta a importância histórica de Angela Davis, que marcou os anos 1970 com seu ativismo político e feminista.

"Adquirir a coleção de Angelas Davis é absolutamente extraordinário. São evidências de uma vida de luta, de que podemos superar obstáculos. E é também uma sensação de esperança para o futuro" afirmou Kenvi Phillips.

Ela acrescenta, no vídeo, que sua função como curadora implica em manter o diálogo sobre as experiências de mulheres nos Estados Unidos, e com as mais diversas perspectivas possíveis. Por isso, busca abordar as mais diversas etnias e grupos raciais para garantir que mais vozes e rostos sejam representados.

A aquisição foi considerada como "importantíssima em diversos níveis" pelos arquivistas, tanto pelo ponto de vista biográfico, por conta do peso da figura de Angela Davis na história política e do ativismo nos EUA, como pelos registros que a acadêmica fez ao longo de sua trajetória e que ajudam a dar um panorama histórico e político do século XX, assim como os rumos do feminismo.

A aquisição também contribui, afirma a diretora da biblioteca de Schlesinger, Jane Kamensky, para registrar o movimento Black Power, movimento de resistência e de valorização da cultura negra, "que começa a ter sua história contada incluindo a presença central de mulheres", o que antes era composto sobretudo pela atuação masculina.

"Se eu puder olhar em um futuro daqui a dez anos, espero ver uma estante lotada de livros que tenham saído a partir desta coleção", declarou Jane.

Arquivo pessoal de Angela Davis contêm 150 caixas com documentos, panfletos, registros; acervo estará disponível para pesquisa em 2020 - Reprodução

Adquirir os documentos de Davis também foi comemorado pela instituição sob a perspectiva de tornar "eterno" seu acervo, agora documentados e que não serão perdidos ou esquecidos com a passagem do tempo. "Não tem preço", afirmou Kenvi.

O processo que deu origem ao anúncio da aquisição nesta terça-feira começou em dezembro do ano passado, quando uma curadora e dois arquivistas colocaram 151 caixas em um caminhão em Oakland, na Califórnia, em direção à Cambridge, em Massachusetts.

Ecos do ativismo de Davis

A aquisição de Harvard, colocando o arquivo pessoal de Angela Davis em um patamar acadêmico, acontece em um contexto global em que cada vez mais jovens voltam a discutir e se engajar sobre feminismo, o feminismo negro, o acesso aos direitos e o racismo.

"Angela Davis está na intersecção do feminismo, radicalismo político americano e radicalismo político global," afirmou Jane Kamensky ao New York Times. "Tudo sobre desde o surgimento do feminismo negro a queda do comunismo está nesta coleção."

A Schlesinger, fundada en 1943, é um dos principais arquivos sobre a História de mulheres. Ali são arquivados documentos de pioneiras como Harriet Beecher Stowe, Charlotte Perkins Gilman, Betty Friedan e Julia Child, assim como de organizações como Boston Women's Health Book Collective. Em 2016, a biblioteca contratou sua primeira curadora para raça e etnia, Kenvi Phillips.