Bahia Notícias / Saúde / Entrevista / Infectologista faz alerta sobre riscos em hábitos diários e sugere formas de prevenção

Publicado em 11/07/2018 por Bahia Notícias

Independente do local, todas as pessoas estão expostas diariamente a fontes de infecção. Hábitos simples como trabalhar no computador enquanto come ou se segurar no corrimão de uma escada e, em seguida, coçar o olho devem ser evitados como forma de cuidado. Em entrevista ao Bahia Notícias, a infectologista Ana Paula Alcântara afirmou que é importante que as pessoas tenham consciência de que hábitos diários podem veicular doenças. "O principal é manter medidas individuais de proteção e também com o próximo", ressaltou. A profissional explicou também alguns cuidados que devem ser tomados, como lavar sempre as mãos, a "etiqueta" ao tossir ou espirrar e fez alertas com relação ao compartilhamento de itens pessoais, como escova de dentes e maquiagem. 

 

Quais são as principais portas de entrada no nosso corpo para as infecções?

A pele, a boca e as vias respiratórias. Elas seriam as principais portas de entrada se a gente pensar no contágio pessoa a pessoa ou no contágio pessoa com o meio ambiente. Se a gente pensar nas doenças que são transmitidas através de vetores - a exemplo das arboviroses, como dengue, zika e chikungunya - a gente precisa do vetor penetrando na pele. Se a gente pensar nas doenças infecciosas intestinais, a boca é sempre um veículo. Já a via respiratória é a que tem maior prevalência na transmissão de doenças infecciosas. É possível pensar em infecções respiratórias virais e bacterianas. É também de máxima importância lembrar a veiculação pelas mãos, ou seja, as mãos levam a doença até o corpo, seja através da pele, da boca, do nariz, dos olhos, das mucosas... Outra forma também de se adquirir doenças infecciosas é através da atividade sexual.

 

Algum ambiente específico favorece a ocorrência de infecções?

Claro que a gente teria que caracterizar doença por doença, porque depende se é vírus, bactéria, micobactéria, fungo... De uma forma geral, os ambientes mais insalubres, com pouca luz, muita umidade, muita sujeira são mais propícios à transmissão de doenças infecciosas.

 

A senhora ressaltou a questão das mãos. Tem muita gente que usa álcool em gel para, teoricamente, deixar as mãos limpas. Até que ponto esse produto é eficaz para evitar a contaminação?

Ele é eficaz praticamente em todas as situações. O álcool em gel só deixa de ser eficaz se a mão estiver visivelmente suja. Uma mão que tem sujidade visível - a exemplo de terra, fezes, secreção - não pode ser higienizada com álcool. Uma mão que vai ao sanitário, seja para urinar ou defecar, e depois faz a higiene íntima não deve ser higienizada com álcool. Ela precisa de água e sabão. Toda vez que há sujidade visível, é preciso lavar com água e sabão. Na ausência de sujidade visível, a mão pode ser higienizada com álcool 70%. Hoje a literatura é até bem generosa nesse sentido e nos diz que muitas vezes o álcool 70% pode ser até mais eficiente do que água e sabão, a depender da qualidade do sabão e da água usada.

 

 

A senhora falou da questão do banheiro, que todos imaginam que seja um local propício à transmissão de infecções. Por isso, muita gente evita sentar em vaso sanitário e nunca entra descalço no banheiro. Quais são as reais chances de se pegar uma infecção nessas situações?

Em relação ao vaso sanitário, temos que lembrar das doenças de transmissão oral-fecal. Um exemplo comum é a hepatite A, que se transmite entre pessoas ou com alimentos contaminados. O vaso sanitário pode oferecer risco para infecções como hepatite A, salmonelose, infecções intestinais virais... Claro que ali é um reservatório de microrganismos, então todo cuidado é válido. Ele precisa estar higienizado adequadamente para que seja feito o uso. Já o chão é contaminado por natureza. A pele íntegra é uma excelente barreira. Pisar no chão com a pele íntegra sem unhas machucadas, arranhões, ferimentos, frieiras, pé de atleta não oferece um risco objetivo. Se tiver qualquer uma dessas portas de entrada, ou seja, a barreira maior foi quebrada, passa a ser um local de risco.

 

Enquanto há pessoas que se preocupam bastante com higiene, outras simplesmente não prestam atenção em hábitos diários. Por exemplo, em um ambiente de computadores compartilhados, as pessoas pegam no teclado e depois comem alguma coisa com a mão. O mesmo acontece em aviões, já que as pessoas se apoiam nas poltronas e usam as mãos para comer. Quais são as principais situações nas quais as pessoas não prestam atenção na possibilidade adquirir uma infecção?

Há muitas situações assim. Teclado de computador, como você trouxe, é um local muito sujo. Teoricamente, você não deveria levar a mão aos olhos, boca e nariz quando está digitando. Outras superfícies também muito contaminadas são corrimão de escada, carrinho de supermercado, volante de carro, maçaneta de porta. São áreas muito tocadas, então quanto mais ao alcance das mãos, mais serão fonte de infecção. É importante que as pessoas tenham consciência de que é sujo e pode veicular doença. O principal é manter medidas individuais de proteção e também com o próximo. Por exemplo, alguém que está gripado não deve levar a mão ao rosto na hora que tosse ou espirra, porque as gotículas ficam na mão, e a mão vai tocar nas superfícies. O indivíduo que está resfriado deve proteger o espirro com a chamada etiqueta da tosse, que é colocar o cotovelo na altura do nariz e espirrar no braço, nunca na mão. Também pode ser com um lenço higiênico descartável.

 

Na cozinha, são necessários sempre alguns cuidados para evitar contaminação. Quais alimentos devem ser lavados antes de se guardar e comer?

Todos os alimentos devem ser lavados antes de guardar e alguns devem ser lavados imediatamente antes de consumir. Alguns desses últimos são as frutas e legumes que comemos crus e com casca. É importante lavar com uma escovinha, porque só água não é capaz de tirar toda a sujidade. As hortaliças precisam ser lavadas e higienizadas com soluções antissépticas específicas. Se as pessoas tiverem algum tipo de comprometimento do estado imunológico, elas devem evitar alimentos que se comem cru, porque o cozimento de alguma forma é mais uma proteção.

 

Com relação aos utensílios usados, como tábua, esponja, panos de prato, qual deve ser o procedimento?

O ideal é que você tenha sempre superfícies que podem ser lavadas. Na cozinha, é importante evitar utensílios de madeira, porque eles não são laváveis adequadamente. Os materiais devem poder receber água, detergente e fricção de bucha. As buchas precisam ser trocadas. Não existe uma regra de quanto tempo, mas as boas práticas recomendam uma média de uma vez por semana. Escovas utilizadas em pia também devem ser trocadas ou individualizadas. É muito importante que os materiais de aço e ferro não tenham evidência de ferrugem, porque isso não deve ser utilizado na cozinha.

 

 

Qual é o perigo de se compartilhar itens pessoais, como escova de dentes e roupas íntimas?

Quando se diz itens pessoais já sugere que é individual, é apenas de uma pessoa. São itens que não devem ser compartilhados. Escova de dente, por exemplo, pode levar a cárie de uma pessoa para a outra ao ser compartilhada. Se você tem infecção por um vírus, como mononucleose, citomegalovírus, ou outros de transmissão pela saliva, a outra pessoa vai ser contaminada, seja por escova de dentes, beijo na boca, copo compartilhado, batom, garfo... Nada deve ser compartilhado. Um erro que vejo com muita frequência é adulto compartilhar alimento com criança. Não é adequado porque a criança tem uma flora própria, enquanto a flora do adulto é muito mais experiente, com bactérias mais resistentes, mais desenvolvidas, que terminam sendo levadas precocemente para a criança e trazendo doenças. É muito importante que itens de uso pessoal sejam apenas de uso pessoal. Se o indivíduo é portador de sífilis, chagas, HTLV, hepatite C, hepatite B, ele transmite através de seus utensílios cortantes, então é importante também não compartilhar barbeador, alicate e outros utensílios cortantes.

 

Além do que já falamos, como lavar as mãos, uso do álcool em gel, não compartilhar itens, o que deve ser feito para se prevenir e talvez evitar riscos?

Eu acho que a medida mais importante na prevenção de doença é realmente a higiene das mãos. É importante ter unhas curtas, porque abaixo das unhas se acumula muita sujidade. Saber lavar as mãos de forma adequada, porque não é simplesmente molhar. Vacinação, que é uma forma de prevenção segura e eficaz. Respeitar o calendário vacinal da criança, do adulto e do idoso. Claro que uma alimentação saudável e hábitos saudáveis de higiene são formas de criar barreiras. Evitar ambientes muito populosos, com multidões, porque é propício para disseminação de doenças, especialmente as respiratórias. No ambiente doméstico, se você não tem muito espaço físico porque a estrutura é pequena, procure que a luz do sol entre nos cômodos. Quando a luz do sol entra pelo menos por 30 minutos, já dá uma segurança de maior salubridade ao ambiente.

 

Quando há um surto de uma virose ou infecção, até que ponto é seguro não ir ao médico para evitar contato com outras pessoas infectadas?

Se você está doente, é necessário ir ao médico sempre. A gente não pode se automedicar, se autodiagnosticar e muito menos se subestimar, porque isso pode ser uma negligência. Talvez não seja necessário procurar uma emergência, porque elas estão relacionadas a momentos nos quais a vida está em risco. Em relação a doenças infecciosas, é importante que cada um conheça quais são os fatores de risco. Acho que é importante falarmos, por exemplo, da epidemia da Influenza, na qual a gente tem uma alta mortalidade. As pessoas com maior risco para a forma grave da doença precisam ter esse conhecimento, precisam saber que elas são prioridade para vacinar e que, se ela tiver sintomas parecidos, é prioridade ao procurar o médico. Enquanto o indivíduo que não tem fator de risco para adoecer de forma grave para Influenza, aquele que tem e conhece seu fator de risco - seja porque é asmático, obeso, diabético, porque tem uma doença pulmonar, cardíaca, porque é idoso ou criança muito jovem - e passa a ter febre alta, sintomas respiratórios, coriza, dor de cabeça, deve procurar o médico, porque o tratamento precoce pode livrar de uma situação médica ou até mesmo da morte.

 

A senhora gostaria de acrescentar alguma coisa, algum alerta talvez?

É importante lembrar das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) e lembrar à população, de uma forma geral, o quanto é importante a higiene, conhecer e reconhecer o próprio corpo. O aparecimento de qualquer lesão na genitália deve ser investigado junto ao médico. E é muito importante lembrar que o uso do preservativo é a barreira mais eficiente na prevenção do HIV, sífilis e uma série de outras doenças transmissíveis pelo sexo.