Brasil, prazer em conhecer

Publicado em 01/12/2017 por Valor Online

Contardo Calligaris, psicanalista italiano: "Este país, que é o paraíso para algumas crianças, também é conhecido pelas milhares de crianças abandonadas nas ruas"

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De figurante de filmes na Roma dos anos 60 a renomado psicanalista, escritor, dramaturgo e roteirista de TV nos dias de hoje, a trajetória do italiano Contardo Calligaris, 69 anos, é tão rica como parece. Além da Itália natal, morou na Suíça, França, Brasil, EUA e voltou a viver novamente em solo brasileiro desde 2005.

Ao Brasil, veio pela primeira vez em 1984 para dar palestras e, até 1989, quando fechou seu consultório em Paris para mudar-se definitivamente para cá, viajava até 13 vezes por ano para atender pacientes brasileiros e dar seminários para a comunidade psicanalítica do país. "Passava praticamente um mês por ano sentado na poltrona de um avião. Não me arrependo de ter vindo morar no Brasil em um momento em que todos me aconselhavam o contrário", diz. O impacto do primeiro contato de Calligaris com o Brasil e sua cultura - como a surpresa ao escutar de brasileiros a frase "este país não presta" ou a forma de glorificação dos filhos por seus pais - foi narrado no livro "Hello Brasil", lançado em 1991 e que está voltando às prateleiras pela Três Estrelas neste fim de ano revisado pelo autor, que acrescentou novos artigos à publicação original.

Em meio aos retoques finais no roteiro da quarta temporada da série "Psi", que narra as aventuras do psicanalista Carlos Antonini, transmitida pela HBO, o colunista da "Folha de S.Paulo" recebeu o Valor em sua cobertura nos Jardins, em São Paulo, para a entrevista seguir. Ele falou da reedição de seu livro, de assédio, da Lava-Jato e de seu próximo projeto: a publicação de sua tese de doutorado sobre burocracia, mas em uma versão que seja acessível para o grande público. "Acredito que a burocracia produz o pior em qualquer ser humano. Analiso como uma pessoa absolutamente comum na Alemanha nazista se tornou um praticante do extermínio. Como é possível que isso aconteça? É uma crítica da situação burocrática e como ela transforma o indivíduo comum."

Valor: Por que o senhor escreveu "Hello Brasil"?

Contardo Calligaris: É um livro que apenas poderia ser escrito naquele momento, pois narra a experiência do viajante que chega e quer saber o que acontece. Não conhecia quase nada do país, não falava português. É como um paciente novo. Se conhecêssemos toda a história dele, a construção de ideias e explicações, seria mais limitada. Ao desconhecer o Brasil, a possibilidade de estar mais aberto para fazer construções mais ousadas era maior, e essas construções costumam estar mais próximas da realidade do paciente do que aquelas feitas a partir de suas narrativas. Eu precisava aprender a falar um português decente para entender o que meus pacientes me diziam e ter uma cultura média escolar e de cultura pop para poder entender o que diziam. Foi um período de imersão, e minhas surpresas com o país estão traduzidas nos artigos. Os movimentos sociais criaram a possibilidade da luta por direitos que se estendem a coisas básicas, como não ser assediado (...) Isso é positivo

Valor: Os viajantes têm a tendência de registrar primeiro aquilo que é exótico. Foi o seu caso?

Calligaris: De certa forma, sim, porque você tende a registrar primeiro o que é diferente. Mas, embora alguns leitores da primeira edição tenham tido essa sensação - de que olhava o Brasil com olhar de europeu, o que, aliás, sou mesmo -, tentei evitar um olhar comparativo, do tipo "isso é errado porque é diferente do meu país". Grosso modo, os viajantes ou as pessoas que se interessaram por um país exótico ou o Brasil tiveram sempre duas posições. 

Valor: Quais?

Calligaris: A primeira é a de ver somente aquilo tudo o que falta para que os selvagens se tornem civilizados. E a outra é uma idealização maluca de como os selvagens são tudo o que poderíamos ter sido se fôssemos livres. Tentei não estar em nenhum dos dois lotes, até porque tinha exemplos disso nesses anos. Falo disso no livro e ironizo. Muitos analistas europeus e franceses vinham ao Brasil com espírito de conquistador - no sentido de criar filiais de movimentos aqui - e traziam várias espécies de interpretação do ser brasileiro. Nos anos 80 e 90, era comum encontrar assembleias de psicanalistas brasileiros escutando psicanalistas franceses que tinham acabado de descer do avião e não tinham ideia do que era o Brasil e vinham explicar aos brasileiros que eles eram destinados à psicose ou à perversão porque não reconheciam uma instância paterna, por exemplo, frase corriqueira naquela época. E o motivo era simples. Diziam: "Me reconheçam como instância paterna para que vocês fiquem bem". 

Valor: No livro, o senhor diz que o brasileiro é constituído por duas partes que se contrapõem. 

Calligaris: Sim. O livro é composto por duas ideias principais. A primeira é de que existem duas vozes que falam dentro do brasileiro, a voz do colono e a do colonizador. O colono veio para o Brasil em busca de cidadania, que não pode obter em seu país de origem. O colono não deixa seu país apenas em busca de riqueza, mas em busca de reconhecimento como cidadão, em busca de um nome que lhe foi negado em seu país natal. O colonizador vem para o Brasil para explorar até a última gota do que for possível tirar de riqueza dessa terra e depois voltar para sua origem ou para as contas da Suíça ou Miami. O brasileiro é formado por essas duas vozes.

Valor: Qual é a outra ideia?

Calligaris: A outra ideia principal do livro é de que o Brasil é assombrado pelo fantasma da escravidão. Não apenas nas relações de trabalho, como no horizonte das relações intersubjetivas. São muitos séculos de escravidão. Não foi um acidente, mas um modo de produção fundamental para o país. Mesmo hoje, escravizar o corpo do outro é uma coisa sempre presente e não é só nas relações de trabalho. Posso dar um exemplo na diferença entre os assaltantes e criminosos europeus e brasileiros. Na Europa, os criminosos que querem roubar seu carro ou apartamento esperam que você saia e deixe o carro sozinho. O criminoso brasileiro espera que você volte porque ele tem um prazer específico em enfiar uma arma na sua cara. O que importa é escravizar a vítima, fazê-la objeto de seu poder. São efeitos da escravidão como modelo de domínio, e isso faz parte do nosso DNA cultural. E isso atravessa a sociedade inteira. Temos o surgimento do racismo nessa disputa entre colono e colonizador. O escravo pode ser considerado um colono que é forçado a deixar seu país de origem. No Brasil, também eles chegam em busca de cidadania, de um novo pai, e tanto colonos, escravos e colonizadores acabam disputando a mesma coisa. Considerando que boa parte do racismo é criado pela proximidade da pessoa que seria odiada racialmente, podemos dizer que o maior racista é a classe subproletária branca que se sente ameaçada pela outra que disputaria um mesmo lugar na sociedade, ou seja, os outros colonos.

Valor: Por falar em escravizar o corpo do outro, por que estamos vivenciando neste momento tantas denúncias de assédio sexual e racismo, principalmente contra pessoas famosas?

Calligaris: Isso não é muito recente. Tudo começou com a denúncia contra os padres católicos de Boston, nos EUA. Dezenas de milhares de crianças abusadas por padres durante anos que vieram à tona por meio de reportagens do "Boston Globe" e depois virou filme, o "Spotlight". Essa história mostrou adultos com família, mulher e filhos tomando coragem e relatando abusos sofridos anos antes diante de um tribunal e numa cidade católica como Boston. É um sinal de mudança. A mudança de contexto não pode ser esquecida. Coisas que nos anos 70 e 80 pareciam permitidas, hoje não são mais. Não lamento que tenham mudado, pelo contrário. Nos anos 60, no cinema, o assédio sexual era permanente pelo agente, pelos assistentes de produção, pelo produtor, pelo diretor, por qualquer ator que tivesse importância maior do que a sua. Eu era figurante de cinema nos anos 60 em Roma e, em tese, qualquer um poderia transar comigo.

Valor: O senhor era assediado?

Calligaris: Muito. Pode ser que muita gente não goste do que vou falar: fugi muito de agentes, tanto de figuração quanto de atuação, literalmente correndo ao redor de uma mesa ou de uma cama para evitar alguém que não me interessava. Mas não transei com quem não me interessava. Passei por essa situação como muita gente passou, mas algumas atravessam situações como essa e até mais sérias se ferindo menos. Por achar isso cômico, devo ter escapado através de alguma artimanha psíquica. Mas isso deixa feridas abertas em muita gente. Naquela época não imaginava ser possível fazer o que estão fazendo para evitar ter que correr ao redor da mesa. Os contextos são diferentes. Não existe força política que seja portadora de um discurso de esperança, de um discurso político que seja novo

Valor: O que mudou?

Calligaris: Os grandes movimentos sociais dos anos 60, como o feminismo militante, movimentos contra o racismo e outros movimentos importantes, como o movimento gay. Esses movimentos criaram a possibilidade da luta por direitos que se estendem a coisas básicas e elementares como não ser assediado durante uma entrevista de emprego, não ser assediado no seu local de trabalho e não ser julgado a partir de quão apetitosa é sua b... Isso é positivo.

Valor: E a relação dos pais com seus filhos aqui no Brasil? Mudou nos anos que o senhor está no país?

Calligaris: Não, continua igual à que eu relatei na primeira edição. Fiquei surpreso em chegar ao Brasil e ver os pais tratando os filhos como reis, protegendo-os de maneira excessiva, criando uma infância idealizada. Aqui, não vemos nas crianças o que chamamos na França de "o gosto do esforço", ou os esforços necessários para atingir certos objetivos, principalmente pedagógicos. No Brasil, isso não tem valor. O que importa é usufruir de tudo, criando uma geração de jovens que querem tudo de forma imediata sem ter noção das dificuldades que precisam ser enfrentadas. É interessante notar que este país, que é o paraíso para algumas crianças, também é conhecido pelas milhares de crianças abandonadas nas ruas e pela impunidade do menor criminoso.

Valor: Por que reeditar o livro neste momento?

Calligaris: O Brasil é um dos países que mais produziram análises de fundo desde o século passado, algumas orientadas para política econômica, outras para história das ideias, todas de ótima qualidade. Não é frequente que um país seja interrogação a ser respondida para tanta gente, como Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Jr., por exemplo. Isso é rico e me sinto humilde diante dessas pessoas. Não tenho um propósito desses. Talvez o meu seja mais pessoal. É um livro de viajante cujo ponto de partida é meu estranhamento diante de experiências cotidianas. Não nasceu de uma inspiração acadêmica. Também queria atualizar o livro e responder a algumas críticas pertinentes, como as feitas pelos músicos José Miguel Wisnik e Caetano Veloso. Wisnik questionou o pouco espaço que dei para a música no livro. E é verdade. Mas a música sempre foi relevante para mim, sempre. Nos meus anos entre França e Brasil, ouvia muita MPB. Também adorava Kid Abelha. Mas a música italiana era muito relevante na minha infância, sempre recantadas por minha mãe. Isso tirou a vontade de falar sobre música. Talvez fosse o lugar em que eu cultivasse minha vontade de vir ao Brasil e não quisesse discriminar. Já Caetano...

Valor: Caetano chegou a escrever em "Verdade Tropical" o repúdio ao livro pelo senhor ter chamado a "antropofagia" de maionese....

Calligaris: Foi um mal-entendido. Tenho excelente relação com Caetano. O que estava criticando era a ideia de antropofagismo como sendo a definição de cultura propriamente nacional, a essa ideia de que o Brasil pode digerir qualquer coisa. Mas entendo que a tropicália usou o antropofagismo para tirar o país do gueto e desfolclorizar o Brasil, permitindo que os tropicalistas cantassem tanto o acarajé quanto a Coca-Cola. Por exemplo, na política, o próprio conceito de modernização conservadora de como a ideia democrática se misturou com o clientelismo mais ultrapassado e formou um bolo estomacal que acabou dando no que é o parlamento brasileiro é uma forma de antropofagismo. E não foi legal. No fundo, nada acaba sendo uma ruptura. Tudo se digere lentamente. É como a anaconda, que come um boi inteiro e depois fica parada 20 anos, digerindo. Não tem conflito, descontinuidade...

Valor: Qual é sua expectativa sobre a Operação Lava-Jato?

Calligaris: Todo mundo me pergunta se a Operação Mãos Limpas na Itália resolveu. Mudou muita coisa. Provocou a reestruturação completa dos partidos políticos. Alguns sumiram em função das denúncias de corrupção. Será que todos os políticos corruptos foram punidos? Certamente não. Será que não existe mais corrupção na Itália hoje? Certamente não, assim como a Máfia continua. Mas, mesmo assim, não é a mesma Itália. Está melhor. Depois das Mãos Limpas, [Silvio] Berlusconi subiu ao poder. Muita gente compara com o conservadorismo em ascensão no Brasil. Mas nunca foi uma ascensão conservadora do ponto de vista dos costumes como acontece no Brasil. Berlusconi era representante do neoliberalismo selvagem, mas a classe política resistiu e hoje existe um debate saudável na Itália que pode te deixar irritado, mas existe de verdade. Os políticos italianos circulam pela rua e não são vaiados e nem sofrem violência, mesmo quando são de oposição. Existe um dialogo político até na imprensa.

Valor: E no Brasil?

Calligaris: Aqui está mais difícil. Não existe força política que seja portadora de um discurso de esperança, não de esperança caudilhista babaca, mas de um discurso político que seja novo. Digo no livro que a Lava-Jato apenas vai mudar o país quando a classe política for formada apenas por colonos. Ainda não aconteceu. Vai demorar. Em história a gente precisa ter paciência. Acredito mais nas mudanças que são pequenas e cumulativas do que nas mudanças radicais. São as lições do século XX. Tudo o que foi radical, como o sonho comunista e socialista, acabou em catástrofe. Porém, deixaram as condições efetivas de trabalho melhores. Não dá para imaginar que ser hoje trabalhador na indústria metalúrgica seja a mesma coisa que cem anos trás. Há retrocessos, porém, como sindicatos corruptos e a contribuição sindical obrigatória.

Valor: O senhor conta que o jeitinho brasileiro o surpreendeu...

Calligaris: Entendi o jeitinho como reação à proximidade da exclusão social. Não tenho simpatia moral pelo jeitinho brasileiro, respeito as filas. Mas entendo que, quando você é invisível, qualquer coisa é válida para ganhar o mínimo de visibilidade. É uma tentativa de o sujeito ter sua dignidade básica. O jeitinho, na verdade, é um direito básico que é obtido apenas como se fosse privilégio. Não resolve nada porque a pessoa privilegiada acaba envolvida em um relação clientelar que está mais próxima das relações escravagistas do que das relações de trabalho.

Valor: O Brasil é um dos países com mais pessoas ativas nas redes sociais.

Calligaris: É verdade. Talvez porque essas pessoas busquem visibilidade. As redes sociais são interclassistas. Você coloca sua foto do fim de semana na represa Guarapiranga enquanto outros colocam a foto em Miami. No fundo, a diferença não é marcante. Os perfis do rico e do pobre estão lá, no mesmo local de afirmação de subjetividade, algo muito importante para o brasileiro. Essa forte virulência dos brasileiros nas redes pode ser explicada pela sensação de não estarem sendo ouvidos pelos governantes. A virulência tem a ver com o jeitinho brasileiro. A virulência vem principalmente de quem acredita que sua opinião não conta. Não é específica do Brasil, mas é menor em lugares como a Europa, onde existe o sentimento de maior participação nas decisões. A sensação que tenho é de uma luta ideológica. Quanto menos a pessoa se sentir cidadã, incluída na sociedade, mais ela vai ser virulenta nas redes sociais.

Valor: O Brasil presta ou não presta?

Calligaris: Estranhava os amigos brasileiros me dizendo "o Brasil não presta" quando estava me mudando para cá no fim dos anos 80. Mas lembro que passamos por três presidentes que foram democraticamente eleitos e que foram governos democráticos. Nenhum desses três ex-presidentes [Calligares se refere a Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff] conseguiu iniciar a liberação do país das garras de um poder político antigo e enraizado. Mas, nos anos 90, comprar uma linha telefônica era investimento difícil e caro. Muita gente comprava para alugar para quem não conseguia comprar. Hoje todo mundo tem smartphones. Muita coisa foi positiva também. Mas a batalha está longe do fim. Preciso dizer como se diz amorosamente para uma mulher: "Ah... Você não presta...".