Com cofres mais cheios, clubes argentinos já incomodam brasileiros

Publicado em 14/02/2018 por O Globo

Tévez volta ao Boca Juniors após uma temporada na China - AFP

Carlos Tévez voltou de uma temporada na China para levar o Boca Juniors ao título da Copa Libertadores - o clube já tem seis e quer o sétimo. O atacante é a contratação mais reluzente do futebol argentino em 2018, mas não a única. O River Plate deixou um saco com ? 11,5 milhões no São Paulo para repatriar Lucas Pratto. O Racing foi até a Itália buscar o ex-são-paulino Centurión por ? 3 milhões. São reforços que o torcedor local se desacostumou a ver, mas que voltam a ser concretizados em meio a uma profunda remodelação no modo como os vizinhos fazem negócios no futebol.

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Alguns gatilhos dispararam a mudança. A eleição de Maurício Macri a presidente do país enterrou um pilar do sistema anterior. Ex-presidente do Boca, Macri acabou em outubro de 2016 com o Fútbol Para Todos, programa criado pela antecessora Cristina Kirchner, pelo qual o governo comprava direitos de TV do campeonato nacional por meio da AFA, a federação nacional, que repassava o dinheiro aos clubes. Cristina despejou alguns bilhões de pesos para que os jogos só fossem transmitidos pela TV estatal e, com isso, melhorar sua popularidade. Apesar disso, os times se afundaram em prejuízos e dívidas.

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Em paralelo, a AFA sucumbiu por corrupção. Luis Segura, então presidente da federação nacional, foi afastado do cargo em junho de 2016, acusado por autoridades de desviar parte dos recursos públicos que a entidade recebia. O governo argentino interveio nas eleições para presidente na AFA e, com isso, a Fifa interveio para assumir provisoriamente a administração. A crise política abriu brecha para que os principais times de futebol do país fundassem a Superliga, liga de clubes semelhante às europeias La Liga, Premier League e Bundesliga.

A Superliga tem duas finalidades principais: gerar recursos e controlar gastos. No primeiro aspecto, conseguiu avançar. Em nome dos clubes, a empresa vendeu os direitos de transmissão às emissoras privadas Fox Sports e Turner por valores superiores aos recebidos do governo. Também assinou contratos de patrocínio com a cervejaria Quilmes, a fabricante Adidas, entre outros acordos menores. Isso elevou as receitas dos clubes, o que explica em parte a volta dos clubes ao mercado. Quanto ao controle de gastos, a Superliga dá seus primeiros passos. No fim do ano passado, aprovou um regime de licenças pelo qual os clubes terão de compartilhar balanços financeiros e orçamentos para a temporada seguinte, de modo que a liga saiba quanto arrecadam, gastam e devem.

- Hoje só estamos controlando dívidas dos clubes com jogadores. A partir do próximo torneio, também vamos controlar dívidas com outros times da Superliga, AFA e fisco - afirma Mariano Elizondo, principal executivo da Superliga. - Quem desrespeitar as normas pode perder pontos.

O GLOBO compilou dados de balanços financeiros de quatro dos cinco grandes times argentinos: Boca, River, Racing e Independiente. O San Lorenzo não publicou seu documento. O salto nas finanças é evidente, especialmente no caso do River. O clube que beirou a falência em 2013, dobrou seu faturamento em cinco anos. Os déficits de 2013 e 2014 foram substituídos por superávit acumulado de 624 milhões de pesos nos três anos entre 2015 e 2017. A fórmula do crescimento também contou com o aquecimento do mercado de exportações.

- O Racing é um clube que se distingue por gerar muitos jogadores em suas divisões juvenis - explica Pablo Ruiz, gerente de marketing da equipe. - A receita obtida com vendas de atletas passou de 63,5 milhões de pesos em 2013 para 206 milhões de pesos em 2017. A entrada de dinheiro fez com que o time aumentasse seus investimentos, seja na compra de jogadores como Centurión, e nos salários pagos a eles. Mesmo com as despesas elevadas, o Racing acumulou meio bilhão de pesos em superávit nesses cinco anos.

A principal implicação para brasileiros é que, nessas de o futebol argentino sair do buraco, a competitividade na Libertadores aumenta. A disparidade já foi reduzida em casos pontuais. Em 2013, o São Paulo tinha quase três vezes mais faturamento do que o River. Em 2017, enquanto os paulistas arrecadaram cerca de R$ 450 milhões, os argentinos chegaram ao equivalente a R$ 400 milhões. Não à toa, o River tirou Pratto do São Paulo para que ele jogue a Libertadores, enquanto o time paulista assiste pela televisão. O River ainda é uma exceção. A maior parte dos times argentinos ainda tem menos poder econômico do que brasileiros. Mas o jogo mudou.