Copa do desencanto

Publicado em 14/06/2018 por O Globo

14/06/2018 4:30

É gravíssima a crise. Às vésperas da Copa, o Datafolha informou que o interesse pelo torneio é o menor desde 1994, quando a seleção brasileira foi tetracampeã, após jejum de quase duas décadas e meia. Segundo o instituto de pesquisas, 53% dos compatriotas estão desligados do Mundial; só 18% estão vivamente empolgados. Nós, que éramos tão felizes, desencantamo-nos. Pudera. Quem tem 7 a 1 no currículo tem medo; quem Tem(er) Michel no Planalto desconfia. Na economia, o torneio é esperança de venda de televisores, camisas, tinta, enfeites, comida e bebida; leva movimento às ruas, bares, restaurantes. Se o humor dos brasileiros não virar, fracassará um dos impulsos esperados para empurrar o PIB 2018.

Sou da geração que viu e torceu e chorou baldes pela seleção de 1982. Adolescente, revoltei-me com o futebol, ópio do povo, em 1986. Não dei atenção a 1990. Redescobri o verde-amarelo na Copa seguinte, a do tetra. Jovem repórter, assisti à final Brasil e Itália na casa do Bebeto, com Denise a embalar o recém-nascido Matheus. Nos pênaltis, entrei na roda de fé, mãos dadas com familiares do camisa 7 e colegas jornalistas. Em 1998, passei meses tentando descobrir o que aconteceu com Ronaldo. Alguém sabe?

Na Copa de 2002, de Japão e Coreia do Sul, acordava de madrugada e assistia aos jogos de pijama. Isabela, minha filha, então com 6 anos, começou a se afeiçoar pelo Mundial ali. Uma noite, seleção classificada para final, indagou: “Se o Brasil ganhar, o que acontece?”. Eu fiquei sem saber como dar conta de uma pergunta tão simples quanto profunda: “De verdade, não acontece nada. Mas a gente fica feliz, porque é bom ganhar”. No domingo do jogo derradeiro, convidamos amigos para um café da manhã. Enfeitamo-nos e a casa. No fim da partida, Brasil penta, a pequena me abraçou. Eu senti o coraçãozinho batendo forte e vi uma lágrima escorrer dos olhinhos. Era aquilo que acontecia.

Pouco me lembro de 2006. #teveCopa? Em 2010, fiquei na África do Sul até o Brasil perder para a Holanda nas quartas de final. Muitos sul-africanos torciam duplamente pela seleção canarinho: além da fama de melhor futebol do mundo, derrotaria o time do colonizador (eram de origem holandesa os africâneres). Assisti ao jogo num orfanato para crianças e adolescentes soropositivos. Saí aos prantos; a reportagem nunca saiu. Em 2014, decoramos a casa e a filha reuniu amigos para o primeiro jogo. Fui a Teresópolis acompanhar um dia de treino, circulei pela festiva Babel carioca, estive no Maracanã para quatro partidas, entre elas, a final. Fiquei perplexa e furiosa com o 7 a 1.

Analistas buscam correlação entre Copa e indicadores econômicos, ambiente político. Ano de Mundial é também tempo de escolher presidente da República. Compreendo o desânimo com Rússia 2018 — eu mesma não me sinto bem. Contudo, problema não é o que deixamos de fazer nas quatro semanas de torneio, mas o que não fazemos no intervalo. A pouca empolgação se justifica pela ferida mal cicatrizada do vexame de quatro anos atrás, mas também pelo melancólico fim de governo do Impopular. A quatro dias da Copa, relatório do Banco Central mostrou que a projeção para o PIB rompeu (para baixo) a barreira dos 2%. Foi a sexta semana seguida de queda na estimativa, agora em 1,94%. Tudo a ver com os indicadores vacilantes do início do ano e, de maio para cá, os efeitos da greve dos caminhoneiros. A paralisação custará ao país 0,2% do PIB (ou R$ 15 bilhões), previu a Fazenda. A Confederação Nacional do Comércio apurou que só 24% dos consumidores brasileiros vão às compras para o Mundial. É menos da metade da proporção (50,1%) de 2014. Torcerei pela virada. Dentro e fora de campo.

Três meses sem Marielle. E nenhuma explicação.