Delenda Amazônia

Publicado em 05/10/2017 por LÚCIO FLÁVIO PINTO

Cabanos.jpgEm 7 de janeiro de 1835 irrompeu uma revolta popular em Belém do Pará. A revolta de índios, negros e caboclos rompeu sangrentamente a dominação portuguesa na Amazônia, que se mantinha quase intacta na Amazônia, 13 anos depois da independência do Brasil.

Era tão monolítica que, para rompê-la, que o motim durou cinco anos e nele morreram 20% da população da província, que era então de 150 mil habitantes. Se acontecesse hoje, considerada apenas a população do Pará e do Amazonas, de pouco mais de 12 milhões de pessoas, teriam sido 2,4 milhões de mortos.

No entanto, o padre paulista Antonio Diogo Feijó, que comandava o Brasil em nome do imperador Pedro II, ainda menor, interpretou a insurreição como uma manobra dos portugueses para separar a província do Grão Pará e Rio Negro do restante do país.

Era este o projeto do último representante do iluminismo no já decadente império português, o marquês de Pombal, na segunda metade do século XVIII: o Brasil poderia romper as amarras com a metrópole, mas a Amazônia (que hoje ocupa dois terços do território brasileiro) continuaria a ser a joia lusitana na América. A aposta de futuro na sobrevivência do império.

Os governantes do Rio de Janeiro conheciam bem essa geopolítica, mas desconheciam os confins da nova nação no extremo norte. Enquanto eram muito frágeis com o Brasil, os elos da Amazônia com Lisboa continuavam fortes. Tão sólidos que a adesão da região à emancipação nacional foi uma farsa armada à última hora pelos comerciantes portugueses.

O novo império se deixou enganar por essa filiação artificial e voltou a ignorar a sua parte mais extensa e misteriosa, vista pela ótima da mitologia. A Amazônia era tarefa para um além.

Por isso, em negociação secreta e ilegal, Feijó autorizou a Inglaterra, maior potência mundial da época, a invadir militarmente o Pará e reprimir os revoltosos nativos. A mesma proposta foi apresentada aos representantes diplomáticos da França e – por incrível que pareça – de Portugal. Podiam utilizar uma tropa de até mil homens, cada país, e agir livremente, sob a proteção do silêncio do governo central.

O Brasil ia cuidar de reprimir a revolta dos farroupilhas do Rio Grande do Sul. Mesmo querendo realmente se libertar do Brasil, os gaúchos eram brancos, “mais iguais” do que os nortistas, nada mais do que bugres manipulados pelos colonizadores portugueses.

Felizmente, as nações estrangeiras foram mais prudentes e cautelosas. Preferiram ignorar a autorização de Feijó e se manter à distância. A Inglaterra chegou a mandar uma frota de guerra para observar a cena no local, a pretexto de cobrar satisfações pela destruição de um brigue comercial britânico pelos rebeldes.

O comandante Strong disse aos seus superiores que com 150 fuzileiros navais acabaria com a tropa dos cabanos, mas que era melhor não se meter na confusão. A Inglaterra percebeu que era mais rentável explorar a Amazônia através de um governo nacional do que repetir a experiência do vice-reinado na Índia, com um governo metropolitano.

Os ingleses acertaram. Foram eles que financiaram o início da exploração da borracha, beneficiando-se do pioneirismo, como fizeram no ciclo do ouro das Minas Gerais. O Banco do Brasil só se instalou na Amazônia um século depois de ser criado, no Rio, em 1808.

Com o recuo dos três países, o governo brasileiro recorreu a mercenários estrangeiros, comandados por Andrea, um marechal de origem portuguesa, nacionalizado para inglês ver. Morreu mais gente na “pacificação” do norte do que durante os combates da insurreição. Milhares morreram de inanição nos porões dos navios de guerra. Outros foram simplesmente executados.

O que se tornou uma das mais sangrentas tentativas de libertação de um povo colonizado em todos os tempos mal é referida nos manuais de história do Brasil. Contada como realmente aconteceu, ela enodoaria ainda mais a crônica dos acontecimentos e levaria a algumas conclusões nada edificantes para a retórica da unidade nacional.

A Amazônia foi e continua a ser a mais internacionalizada das regiões brasileiras. Foi também a que mais tardiamente se integrou ao território nacional. E quando o Brasil a anexou de vez, rasgando suas enormes florestas para a abertura das fontes mais poderosas de agressão, as estradas de rodagem, alegou que precisava integrá-la para que ela não acabasse nas mãos de estrangeiros, sob o lema da ditadura: “integrar para não entregar”.

A despeito desse discurso nacionalista e da doutrina de segurança nacional, a Amazônia se globalizou ainda mais e o Brasil continua a ignorar o que realmente é a Amazônia. Por isso, a transforma em sua imagem e semelhança, a de um povo que se expandiu destruindo a população nativa e o seu ambiente natural, um povo especializado em derrubar florestas, impondo o sinete do valor de troca sobre o valor de uso.

Internacionalizada, a Amazônia continuou a ser brasileira manu militari. Nacionalizada, entrou no circuito internacional do capital. Não há uma terceira via para a maior fronteira dos trópicos no planeta?

(Publicado no site Amazônia Real)