2018 chegou chegando e já vale retrospectiva

Publicado em 10/02/2018 por O Globo

Quentin Tarantino, Marieta Severo, Rose McGowan, Donald Trump, Kim Jong-un, Elton John, Catherine Deneuve, Marcelo Bretas, Bruna Marquezine, Neymar, folha de maconha; Fernando Collor, Uma Thurman, Roger Federer, Chico Buarque, Lula, Luciano Huck, Anitta, Marcelo Crivella, Woody Allen, Jair Bolsonaro, Guida Vianna, Pabllo Vittar, Cristiane Brasil, Sérgio Moro, Pezão e Jojo Todynho - Agência O Globo

Se o ano só começa depois do carnaval, este fugiu à regra. Em 40 dias, já há notícia para um calendário inteiro: o julgamento de Lula, o auxílio-moradia dos juízes, a 'campanha difamatória' contra Cristiane Brasil - isso para não falar de febre amarela, violência, assédio. O que analistas, astrólogos e outros estudiosos da nossa vida acham deste 2018 que parece ter queimado a largada?

Mesmo sendo o auge do verão, o início do ano na política brasileira costuma ser frio. Janeiro e fevereiro são, tradicionalmente, meses marcados por começo de mandatos, discretas trocas de ministros e recesso parlamentar. Vem daí a máxima de que, no Brasil, o ano só começa depois do carnaval. Mas aí 2018 chegou e... o ditado foi pro espaço. Em apenas 40 dias já aconteceu tanta coisa que a gente custa a acreditar que o carnaval esteja só começando.

Muito disso vem, claro, da política. Foi neste janeiro atípico, afinal, que Lula recebeu a condenação em segunda instância por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do tríplex no Guarujá. E a incerteza sobre sua candidatura antecipou movimentos que normalmente ficariam para bem depois da folia. Com a disputa à Presidência ainda aberta, partidos grandes sem candidatos definidos e muita chance de um elemento-surpresa, não há um assessor parlamentar em Brasília com o celular desligado.

- O ano político já começou e só deve terminar mesmo em 31 de dezembro, um dia antes da posse do novo presidente - diz Rubens Figueiredo, cientista político e diretor do Centro de Pesquisas e Análises de Comunicação. - É um cenário tão peculiar que, mesmo com a economia melhorando, o governo não tem candidato. Esse vácuo antecipa a campanha e gera uma ebulição de conversas, análises, incertezas. A mais recente é a incógnita sobre Luciano Huck.

QUARTA DE CINZAS, JÁ?

Carlos Pereira, cientista político da Fundação Getulio Vargas, concorda que o julgamento de Lula antecipou o xadrez eleitoral:

- O jogo foi precipitado pela ameaça de saída do principal jogador.

Houve alvoroço também na economia, com altas e baixas no mercado financeiro. Veja o caso do Bitcoin. A moeda-sensação de 2017 chegou a valer US$ 20 mil no início do ano. Mas já caiu para menos de US$ 9 mil. Entre tantos sacodes políticos e econômicos, até mesmo o cenário cultural ganhou ares de hard news com ainda mais denúncias de assédio contra poderosos de Hollywood, acompanhadas de réplicas e tréplicas made in France. E, assim, até a temporada de prêmios que antecede o Oscar passou de tediosa a engajada.

- Vivemos um momento de questionamento incessante das autoridades em todas as áreas, seja no cenário nacional seja no internacional, com esse conflito infértil entre Trump e Kim Jong-un - afirma Figueiredo.

Quando muita coisa acontece rapidamente, a sensação de queimar etapas extrapola o campo da própria sensação - e isso não tem a ver com a legalização da maconha na Califórnia (que, aliás, também foi neste ano). Ontem, no Twitter, falou-se de tudo, claro, mas o trending topic foi #QuartaDeCinzas. Sim, antes mesmo de o carnaval começar, a gente já falava do fim dele.

ASSUNTOS ABUNDAM

O ano está mesmo tão fora de padrão que, depois de prometer que combateria com firmeza as fake news, o Facebook decidiu, em janeiro, reduzir o alcance das páginas de jornais e revistas em sua rede. Virou, ele próprio, assunto entre seus usuários. Em janeiro, aliás, 122 milhões de brasileiros deram as caras por lá. E não faltaram memes sobre o fato de 2018 ter queimado a largada (veja na página 3).

Para quem trabalha extraindo piadas do noticiário, sobrou assunto. Redatora do site "Sensacionalista", Martha Mendonça lembra que o ano começou com a revelação de que juízes como Sérgio Moro e Marcelo Bretas recebem auxílio-moradia vivendo em casa própria, a novela da quase-ex-ministra Cristiane Brasil, a exposição das lucrativas transações imobiliárias da família Bolsonaro e o ex-presidente Fernando Collor "ameaçando assombrar de novo o Planalto".

- Só isso já assusta mais que a febre amarela, que também voltou. Mas ainda temos pela frente as eleições mais incertas da História, uma Copa do Mundo, e, pelo menos, mais uns dez clipes da Anitta. O Brasil provou que é capaz até de eclipsar uma rara Superlua Azul de Sangue - ela brinca, citando o fenômeno astronômico do dia 31 de janeiro.

Depois de um dezembro de lua de mel com a produtora Nataly Mega, o humorista Fábio Porchat reconhece que o fluxo de notícias está frenético.

- Acabou o início do ano como um período morto, é muita informação chegando para ignorar. Mas já me conformei que não dá para saber tudo - ele diz. - Quando o ano começa estou sempre trabalhando. Fico feliz que políticos e seus advogados também estejam (risos).

ORA (DIREIS) OUVIR ESTRELAS

Se análises políticas, métricas internéticas e achismos são insuficientes, podemos olhar o céu. Para a astróloga Claudia Lisboa, o Brasil (virginiano com ascendente em Aquário e Lua em gêmeos) está mesmo em um período complicado. Mas com boas perspectivas.

- O mapa mostra conflitos e tensões. As progressões, porém, apontam uma imensa efervescência cultural representada por uma combinação criativa entre Mercúrio, planeta da comunicação, e Urano, da inovação.

Leiloca, ex-Frenética e atual astróloga, acrescenta:

- Saturno em Capricórnio de dezembro de 2017 a 2020 pede disciplina. Vivemos um tempo megassuperficial, de distrações, precisamos de foco.

Qualquer coisa, 2019 já está logo ali.

SEMANAS QUE VALEM UM ANO

As redes sociais, que de certa forma ajudam a tornar o mundo mais frenético com sua avalanche de conteúdo, são um termômetro da "intensidade" de 2018. Entre tantos vídeos, textos, fotos de gatinhos e fake news, sobram também os memes. Para a roteirista e atriz Dadá Coelho, poderia até haver uma campanha: menos meme, mais ação.

- O brasileiro tem essa vocação para procrastinação. Se puder empurrar com a barriga que adquiriu no fim de ano, ele empurra - ela diz. - Muita coisa já aconteceu, é verdade, mas é preciso reagir aos acontecimentos. A gente não parece muito a fim de resolver os problemas. Estamos mais preocupados em fazer memes.

Há montagens com o Chapolin Colorado lamentando estas primeiras semanas e até um calendário simplificado "demonstrando" que, com a sequência de carnaval, Copa do Mundo e eleições, o ano já acabou.

No Twitter, proliferaram piadas com o impacto e a velocidade dos acontecimentos. Fez sucesso, por exemplo, a imagem de um solitário urso sentado num banco de praça acompanhada da legenda: "Não sei o que dizer, é só janeiro ainda."