Ações caem e dólar sobe com piora no exterior

Publicado em 09/02/2018 por Valor Online

Instabilidade é a palavra da vez. O exterior, por mais um dia, foi responsável por dar o tom dos negócios nas praças locais e impulsionar a baixa na bolsa e a alta no dólar, no momento em que os investidores buscam evitar perdas depois do susto com os mercados globais no começo da semana. No entanto, analistas avaliam que os ativos locais ainda mostram certa força, já que a dimensão do ajuste por aqui não é tão intensa quanto lá fora, embora mercados por aqui já estivessem fechados no pico de piora em Nova York. O movimento bastante negativo das bolsas americanas ontem impôs mais uma vez uma onda de vendas no mercado acionário brasileiro. O Ibovespa caiu 1,49%, aos 81.533 pontos, depois de renovar a mínima quase abaixo dos 81 mil pontos. O giro foi de R$ 9,5 bilhões. A volatilidade, que dificulta o reposicionamento dos investidores neste momento, pôde ser vista nas máximas e mínimas do dia, quando o índice oscilou mais de dois mil pontos. Nos seis pregões de fevereiro, a variação já é de quase 5 mil pontos. Já o dólar, espelhando a volatilidade externa, chegou a superar a resistência técnica de R$ 3,30, mas desacelerou e fechou em alta de 0,22%, a R$ 3,2829 - a uma distância, portanto, da valorização de 0,83% da máxima do dia (R$ 3,3029). Mesmo reduzindo os ganhos, a moeda ainda alcançou o maior patamar de encerramento desde 28 de dezembro do ano passado (R$ 3,3135). Em 2018, a divisa ainda cede 0,92%, mas essa queda parece moderada comparada com a de 5,49% registrada no acumulado do ano até o dia 25 de janeiro. Os analistas Kamakshya Trivedi e Lorenzo Incoronato, do Goldman Sachs, comparam o cenário atual com a correção de alta no dólar entre maio e junho de 2006, no meio de um ciclo de baixa da moeda americana. "Mas, como em meados de 2006, vemos isso como oportunidade para reposicionar portfólios, com a tendência de queda do dólar encontrando espaço para prosseguir", dizem, em nota a clientes. Não há consenso sobre até onde a correção local pode ir, mas a opinião unânime é que o movimento ainda é de ajuste, e não de mudança de tendência, ao menos por hora. O receio, no entanto, cresceu desde segunda-feira porque o pânico que tomou conta do mercado levou os investidores a serem mais seletivos. Esse movimento é comprovado, por exemplo, pela forte retirada de recursos estrangeiros da bolsa de valores nos últimos dias - nos dias 5 e 6, as saídas somaram quase R$ 2 bilhões. Para o estrategista da Rosenberg Investimentos, Marcos Mollica, a alavancagem do sistema financeiro americano havia crescido durante os últimos meses, período em que se apostou na manutenção da volatilidade em níveis baixos. Agora, com a ruptura dessa dinâmica, o mercado leva um tempo para digerir os ajustes nessas posições. "O que está acontecendo é que o mercado caiu na real sobre o rumo dos juros dos Estados Unidos, o que tem impacto sobre o 'valuation' das bolsas e muda a dinâmica dos negócios", explica. "E há um período para que isso seja digerido pelo mercado." A turbulência foi apenas um "soluço" na avaliação de Roberto Rocha, diretor do Citi Brasil, para quem o Ibovespa ainda deve marcar 90 mil pontos este ano. "[Ajuste] é algo natural quando, de repente, surge algo que faz o investidor acordar e perceberem um risco que pode ser maior. O consenso de mercado vê três aumentos de juros americanos neste ano, mas muitos começaram a rever a expectativa de que pode ser além disso", diz. Na avaliação de Rocha, o pânico "já chacoalhou o mercado" e está sendo absorvido agora. "Não vimos mudança de cenário. Ainda não vemos grande aumento da inflação americana. Estamos positivos com a retomada no Brasil e a economia vai expandir mais." Para a renda variável, analistas ainda citam que o risco é que a queda das bolsas prossiga por mais alguns dias e que ordens de "stop loss" sejam acionadas, situação em que se criaria uma espiral negativa no mercado.