ANÁLISE: Morde e assopra na diplomacia de Trump

Publicado em 12/03/2018 por O Globo

Presidente Donald Trump participa de evento na Pensilvânia. Foto: Joshua Roberts/Reuters

WASHINGTON - A sobretaxa para o aço e para o alumínio assustou o mundo corporativo e financeiro, que viu toda a força do populismo de Donald Trump na economia. Importantes assessores desistiram de continuar na Casa Branca e republicanos tradicionais, avessos historicamente ao protecionismo, mais uma vez torceram o nariz ao presidente, ao ponto de mais de cem congressistas da legenda terem assinado uma carta contra o aumento de tarifa.

Mas o que ocorreu agora no campo comercial é uma repetição da estratégia de Trump em outras áreas: ameaçar para forçar uma negociação, tensionar para depois obter "bons acordos", apostar alto, com blefe, para assustar a contraparte. Foi assim com a Coreia do Norte - com a impensável retórica do uso de bombas atômicas - com os jovens imigrantes sem documentos (ele acabou com o programa de proteção de 700 mil pessoas para forçar uma solução, que ainda não surgiu) e na negociação com o orçamento. Trump falou grosso com China, mas depois elogia o país e a liderança de Xi Jinping. Ameaçou abandonar o Nafta (Tratado Norte-Americano de Livre Comércio) para conseguir uma posição mais favorável de México e Canadá na revisão do tratado comercial da América do Norte.

O problema é que esta diplomacia do porrete é muito arriscada. E potencialmente fragiliza seus principais aliados. Cada vez mais a Europa não conta com Washington, desde que Trump sugeriu alterar o equilíbrio da OTAN, rasgou o acordo climático de Paris e, unilateralmente, reconheceu Jerusalém como capital de Israel, jogando no lixo anos de posicionamento conjunto e esforços para um acordo de paz. Provocando Trump, comunicou ao americano que guerras comerciais são fáceis de se perder, duvidando da eficácia da estratégia trumpista.

Muito menos autônomo que o velho continente, o Brasil ensaia, timidamente, este discurso de ruptura, ao afirmar que a sobretaxa do aço é um incentivo para outros acordos comerciais. Mas, na prática, tenta negociar de todas as maneiras com o governo Trump, que abriu um balcão depois de assinar a sobretaxa. Para tentar se safar, lembra que os EUA possuem um raro superávit comercial com o Brasil, que o aço brasileiro vai semiacabado ao país e que ele é processado nas siderúrgicas brasileiras com carvão americano, que o produto faz parte de uma cadeia produtiva interligada. Até agora estes argumentos não surtiram efeito. Os próximos passos da diplomacia nacional serão cruciais para ver se Trump, que tem ignorado o Brasil em reuniões bilaterais e nas viagens diplomáticas pela América Latina, vai ceder ou usará o maior país da região como "exemplo" de sua força, que tanto agrada sua base radical. Há o risco real do aço brasileiro virar o grande bode expiatório desta batalha comercial e da diplomacia do morde e assopra.