Análise: usado em esquema no Rio, bitcoin proporciona compensação valiosa a investigadores

Publicado em 14/03/2018 por O Globo

Policiais federais cumprem mandados durante a Operação Pão Nosso - Pablo Jacob / Agência O Globo

RIO - A revelação de que a Lava-Jato no Rio identificou pela primeira vez transações com bitcoins nos esquemas que investiga mostra que os bandidos locais seguem uma tendência, porém estão atrasados. Segundo a Operação "Pão Nosso, a quadrilha usou dinheiro desviado para comprar bitcoin no exterior e fez R$ 300 mil em transferências com a moeda virtual. A associação da criptomoeda, criada em 2009, à lavagem de dinheiro e outras práticas criminais é quase tão antiga quanto ela e, na verdade, chega a ser considerada ultrapassada por criminosos mais sofisticados. Isso porque, ao contrário do que se pensa, transações com bitcoins são muito mais fáceis de rastrear do que qualquer mala de dinheiro.

O bitcoin é uma moeda virtual que funciona com base em criptografia sofisticada, na qual é a rede de usuários que garante as transações, não um banco central ou instituição similar. Como tudo é feito online e sem a interferência de órgão intermediadores, movimentar bitcoins é tão fácil quanto enviar um e-mail, independentemente do volume ou do destino. Como não é preciso informar dados pessoais para usar a rede, os usuários permanecem anônimos.

Características como essas fizeram do bitcoin uma ferramenta comum para práticas ilícitas. Um dos casos mais emblemáticos é o do Silk Road, site onde traficantes de drogas e armas e até matadores de aluguel anunciavam seus serviços. Uma parte considerável dos negócios feitos por meio do site era paga em bitcoins.

Desde então, centenas de outros casos vieram à tona, elevando a preocupação das autoridades. Em depoimento ao Senado americano, em novembro, Matthew Allen, um dos diretores do Serviço de Controle de Imigração e Alfândega, afirmou que tem sido frequente o uso do bitcoin para lavagem de dinheiro. Ontem, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, defendeu uma regulação firme da criptomoeda para impedir que ela se consolide como um "novo veículo de lavagem e terrorismo financeiro".

Embora conceda anonimato, o bitcoin proporciona a investigadores uma compensação valiosa: rastreabilidade. Isso porque toda transação feita com a criptomoeda é gravada em um arquivo público, gerenciado coletivamente por computadores que integram a rede e que, por causa disso, não pode ser alterado. Assim, por meio de softwares especializados na análise de dados da rede bitcoin, a polícia é capaz de construir um histórico preciso das transações já realizadas por um endereço bitcoin.

O desafio é encontrar a pessoa por trás do endereço. Mas a experiência internacional mostra que isso não é impossível. Os agentes podem identificar as "exchanges" (corretoras que trocam bitcoin por dinheiro e vice-versa) usadas pelos criminosos e forçá-las a entregar seus endereços IP ou números de cartão de crédito, por exemplo. Várias prisões já aconteceram, inclusive no caso Silk Road. Em 2016, investigadores americanos prenderam um traficante seguindo o rastro de suas transações com bitcoin, avaliadas em US$ 2,5 milhões.

As corretoras são importantes elos na cadeia. É por meio delas que se consegue transformar a moeda virtual em dinheiro de verdade. Soma-se a isso o fato de eles serem empresas formais e registradas.


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