Ancorar expectativas de 2021 ficou mais difícil para o BC

Publicado em 10/07/2018 por Valor Online

Ancorar expectativas de 2021 ficou mais difícil para o BC

O Banco Central está tendo um pouco mais de dificuldade para ancorar as expectativas na nova meta de inflação, definida em 3,75% para 2021, do que teve em 2017. A mediana das projeções do mercado financeiro para o índice de inflação de 2021 seguia em 4% até sexta-feira, oito dias úteis depois de o Conselho Monetário Nacional (CMN) definir um objetivo mais ambicioso para o ano.

No ano passado, quando o governo adotou meta de inflação de 4% para 2020, abaixo dos 4,25% vigentes para 2019, as expectativas de inflação se ajustaram mais rapidamente. As projeções de inflação para 2020 caíram de 4,25% para 4% no dia 30 de junho, um dia depois de o CMN divulgar o novo alvo.

A capacidade de o Banco Central ancorar as expectativas na meta é um dos termômetros mais importantes da credibilidade da política monetária. Em geral, quanto mais rápido a ancoragem, menor o custo - em termos de juros elevados - para desinflacionar a economia.

Dados divulgados pelo Banco Central no boletim Focus de expectativas de mercado sugerem que poderá levar ainda algum tempo para as projeções caminharem para as metas. A mediana das expectativas de inflação dos 35 analistas econômicos que atualizaram suas projeções nos últimos cinco dias segue em 4% para 2021.

No ano passado, esse conjunto de analistas que atualizou as projeções nos cinco dias anteriores passou a acreditar na meta menor para 2020, de 4%, no mesmo dia em que ela foi definida pelo CMN. Em parte, a ancoragem das expectativas foi favorecida pela edição de um decreto presidencial, em 28 de junho de 2017, que determinou que as metas seriam definidas com dois anos e meio de antecedência, em vez da antecedência de um ano e meio como era a prática desde 1999.

A maior dificuldade do BC em ancorar as expectativas de inflação ocorre em um cenário mais difícil, com aceleração dos índices de preços no curto prazo, forte alta da taxa de câmbio e incertezas sobre o regime monetário e fiscal que vai vigorar no governo a ser eleito neste ano.

Alguns economistas também vinham defendendo que, dada a fragilidade nas contas públicas, o país não estaria preparado para adotar metas de inflação abaixo de 4%. O governo Temer fixou como objetivo a convergência da inflação aos níveis dos demais países emergentes, com metas em torno de 3%.

A meta de inflação de 2021 é um sinalizador importante da credibilidade da política monetária porque, ao se situar num horizonte tão distante, ela praticamente não é afetada pelas decisões tomadas pelo BC agora. Ela é afetada mais pela reputação da política econômica do que pelo manejo de juros ou flutuações da economia no curto prazo.

As projeções de inflação para 2021 representam a opinião do mercado financeiro não só sobre a equipe atual do BC, chefiada por Ilan Goldfajn, mas sobre a liderança que estará à frente da instituição a partir do ano que vem e a qualidade mais geral da política econômica.

Apesar das dificuldades maiores do que as enfrentadas em 2017, é possível que o BC atual consiga ancorar as expectativas na meta nas próximas semanas. As projeções dos chamados Top 5 de longo prazo, formado pelos cinco analistas econômicos que mais acertam as suas estimativas, já caíram a 3,75%.

Os indicadores Top 5 não tem sido um termômetro muito preciso, já que o índice de erros na projeções é relativamente alto e os membros do pelotão de elite costumam mudar com alguma frequência - mas não deixa de ser um alento que o fato de que o BC conseguiu ancorar as expectativas de inflação pelo menos desse grupo.

A média das expectativas de inflação para 2021 sofreu um pequeno recuo desde que o CMN definiu a meta para o ano, passando de 3,95% para 3,93%. Ainda assim, segue mais próxima da meta de 4% definida para 2020 do que do alvo de 3,75% estabelecido para 2021.