Argentina e Brasil frustram expectativa com a América Latina

Publicado em 07/11/2018 por Valor Online

Argentina e Brasil frustram expectativa com a América Latina

No início de 2018 o clima era de otimismo e projeções apontavam para uma recuperação econômica da America Latina, após o fraco crescimento de 1,1% em 2017. Mas a perspectiva positiva foi minada pela crise na Argentina e pela lenta recuperação do Brasil. O ambiente externo, com aumento das taxas de juros nos Estados Unidos, também contribuiu para reduzir as expectativas, afirmam economistas.

Em janeiro, as expectativas de crescimento da América Latina iam de 2%, segundo a Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), a 2,5%, segundo a Oxford Economics. Mas as projeções foram sendo revistas para baixo. A Cepal agora espera expansão de 1,3% na região, e a Oxford Economics, de apenas 0,8%.

"As perspectivas de crescimento da região foram rebaixadas mês a mês, principalmente pelo desempenho pior do que o esperado da Argentina e do Brasil", diz Angela Bouzanis, economista da FocusEconomics. "Choques no processo de recuperação desses países azedaram as perspectivas da região."

Bouzanis lembra que, na Argentina, a pior seca nos últimos 50 anos e a crise de confiança que derrubou o peso levaram o país a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Com inflação acima de 40%, condições monetárias restritivas e austeridade, o PIB argentino deve contrair-se 2,3%.

No Brasil, observa, a greve dos caminhoneiros no segundo trimestre prejudicou a atividade econômica, enquanto incertezas políticas antes da eleição fizeram o setor privado brasileiro postergar decisões sobre contratar e investir.

Além da crise na Argentina e da lenta recuperação do Brasil - cujas previsões de crescimento foram de 2% para 1,4% -, a deterioração mais acelerada da Venezuela contribui para reduzir as projeções da região, diz Marcos Casarin, economista da Oxford Economics.

"A Venezuela teve queda mais acentuada da produção petroleira e hiperinflação a níveis insustentáveis. Foi um dos 'drivers' do rebaixamento para a região", diz. A Oxford Economics estima que o PIB se contraia 9,9%, enquanto o FMI prevê inflação acima de 1.000.000%. A produção petroleira deve cair de 1,5 milhão de barris diários para 950 mil b/d no próximo ano.

O economista ressalta ainda um ambiente externo desfavorável que acabou impactando as grandes economias da região. "Começamos o ano com investidores super otimistas com emergentes, mas em abril tudo mudou. Não sabíamos se era algo temporário, mas já dura mais de seis meses", afirma sobre a aceleração da economia americana, que levou o mercado a temer uma alta dos juros extra nos EUA e investidores a vender bônus de emergentes.

"A perspectiva é de continuidade. Com a economia dos EUA mais forte, o medo de mais inflação levará o Fed [o banco central americano] a subir os juros", acrescenta.

O impacto externo fica mais claro no caso do México, afirma Casarin. "Achávamos que, uma vez passadas as eleições no México e o fim renegociação do Acordo Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta), viria forte recuperação. Mas o momento externo era péssimo, e isso não aconteceu. Esperávamos, por exemplo, que o câmbio responderia bem ao novo Nafta, mas praticamente não se moveu."

William Jackson, da Capital Economics, afirma que o Acordo EUA-México-Canadá (USMCA) diminui o nervosismo em relação ao México, mas investidores ainda se preocupam com o governo do presidente eleito, Andrés Manuel López Obrador. "A política fiscal expansionista ainda é vista como um risco para o México", diz, ao prever que o país cresça 2,5% neste ano.

Em meio à revisão das projeções de crescimento, o Chile é a exceção à regra na região. Neste ano, o país deve crescer por volta de 4%.

O Chile, afirma Casarin, tinha uma demanda reprimida à espera do resultado eleitoral, no ano passado. "Desde que Sebastián Piñera foi reeleito, o Chile está recuperando o tempo perdido", diz.

Segundo ele, o Chile mostra que crescerão na América Latina os países que foram mais disciplinados. "No momento em que o ambiente externo está mais difícil, sofre mais quem não fez o dever de casa, como Argentina e Brasil."

Para Carlos Mussi, da Cepal no Brasil, o crescimento do Chile se deve também pelo alto grau de abertura comercial. "Há países cujo crescimento pode ser explicado por características particulares. O Chile tem uma economia muito voltada para o comércio exterior. A Bolívia, por sua vez, tem uma política de investimento público muito agressiva", afirma, ao lembrar que a Bolívia deve crescer 4,3%.

A Cepal estima que o Peru cresça 3,9% em 2018, quando a Colômbia deve crescer 2,7%. O Equador pode crescer 1%, e o Paraguai, 4,6%.

Para 2019, diz Mussi, o crescimento da região dependerá de como as grandes economias se comportarão num ambiente ainda adverso, com perspectiva de aumentos dos juros nos EUA e guerra comercial. "Essas dificuldades têm impacto em decisões de investimentos, e isso pode ter efeitos imediatos nas economias locais", diz.