Ativos do Brasil se destacam e são opção entre emergentes

Publicado em 11/10/2017 por Valor Online

Num momento em que investidores acirram o debate sobre redução de fluxos a emergentes caso os Estados Unidos restrinjam mais rapidamente a oferta de dinheiro barato, o Brasil tem se destacado entre pares como um mercado com potencial de ganhos ainda relevante. O real, por exemplo, tomou o lugar do peso mexicano como recomendação de grandes instituições financeiras, que miram a história idiossincrática brasileira, amparada pela agenda de reformas. Isso não significa que o mercado doméstico ficará imune a solavancos provocados pela escalada das preocupações com o ritmo de aperto monetário no mundo desenvolvido. Prova é que, da reunião do Fed (BC dos EUA) de 20 de setembro até o fim daquele mês, o real perdeu 0,93% ante o dólar. Mas essa queda foi apenas a nona mais intensa de uma lista de 11 divisas emergentes. No acumulado de outubro, a taxa de câmbio recua 0,58%. A título de comparação, a lira turca cai quase 4%, enquanto o peso mexicano retrocede 3%. Ontem o dólar comercial terminou o dia a R$ 3,1846, com pequena baixa de 0,02%. A diferença a favor do Brasil hoje é a percepção de que o país caminha para resolver desequilíbrios econômicos. Apesar de ruídos do lado político e da demora no retorno das negociações sobre a reforma da Previdência, o país já aprovou medidas importantes - como o teto de gastos e a Taxa de Longo Prazo (TLP). Além disso, o país tem dado sinais consistentes de que está deixando para trás a recessão, ajudada pela queda dos custos de financiamento. A taxa básica de juros da economia, a Selic, está em 8,25% ao ano, mas poderá cair abaixo de 7% no ano que vem, segundo previsões mais otimistas do mercado. O déficit em conta corrente - uma medida da dependência de capital externo - é o menor de um grupo que inclui ainda Argentina, Turquia, México e Indonésia. E o patamar de reservas internacionais é o quarto mais elevado numa lista mais abrangente de países emergentes, perdendo apenas para China, Rússia e Coreia. Uma comparação que tem voltado a ganhar espaço nas estratégias de investidores é entre México e Brasil. No ano passado, os ativos brasileiros despontaram como os preferidos, ao mesmo tempo que os mercados mexicanos sentiram o baque da eleição de Donald Trump à Presidência dos EUA. Em 2016, o real se apreciou cerca de 20%, mesma magnitude da queda do peso. Mas no começo de 2017 a relação se inverteu, com o peso chegando a liderar a alta global no mercado de moedas. Mais recentemente, porém, o vento tornou a se mostrar favorável ao real, à medida que a moeda mexicana perdeu atratividade e a brasileira ganhou suporte extra da trégua nas tensões políticas locais. Para além do câmbio, a diferença do custo de proteção contra calote da dívida soberana de Brasil e México está hoje em 77 pontos-base, menor spread desde fevereiro. Na esteira da performance melhor dos ativos brasileiros, o Morgan Stanley iniciou dias atrás recomendação "comprada" em reais contra pesos mexicanos. Os estrategistas não ignoram o fato de que a divisa brasileira poderá ser afetada pela volatilidade oriunda das eleições presidenciais do próximo ano. Mas ponderam que "não só a régua está mais alta para a vitória de um candidato da esquerda, como também o pleito ocorrerá apenas mais para o fim do ano", e a eleição mexicana deve ocorrer em julho. Na mesma linha, o BofA se diz "neutro" em real, ao passo que está "pessimista" com o peso mexicano. E para o BNP Paribas, o real é a moeda com maior potencial de apreciação na América Latina. A taxa de câmbio nominal teórica que manteria o déficit em conta corrente em patamares sustentáveis no longo prazo é de R$ 2,89 por dólar na atualização do modelo de câmbio do banco francês. Em relação aos preços de mercado (R$ 3,1753 por dólar), a apreciação nominal seria de 10,2%. "O risco/retorno de se investir em pesos hoje não é tão bom quanto o de se aplicar em reais", diz Gustavo Mendonça, estrategista de câmbio, juros e crédito para América Latina do BNP Paribas Brasil. Num plano mais geral, o chefe de pesquisa global da Ashmore, Jan Dehn, não descarta o efeito de curto prazo trazido por preocupações com o aperto monetário. No entanto, o ambiente global dos juros ainda permanecerá benigno. Isso porque o Fed não deve elevar muito os juros enquanto reverte o relaxamento quantitativo, sob o risco de gerar turbulência nos mercados e na economia. "O Fed sabe que, se uma recessão vier, tem poucas ferramentas para garantir que a economia se recuperará. Por isso, tem forte viés dovish", diz.