BCE prepara o mercado para o fim do programa de compra de ativos

Publicado em 12/01/2018 por Valor Online

Em meio ao "sell-off" (venda generalizada) no mercado de bônus, o Banco Central Europeu (BCE) desenhou um cenário de forte recuperação da zona do euro na ata de sua última reunião em dezembro e, por conta disso, afirmou que planeja começar a mudar sua orientação futura "no início deste ano". É um prazo muito anterior ao que os investidores esperavam - portanto, a reação imediata do mercado foi uma apreciação considerável do euro e vendas generalizadas de títulos soberanos em todas as regiões, dando sequência ao movimento que vem acontecendo desde o início desta semana. A moeda única europeia avançava 0,76%, para US$ 1,2038, no fim da tarde de ontem, e o "yield" (retorno) do bund (título soberano alemão) de dez anos subia para 0,525%, renovando máximas recentes. Para o BCE, "os dados recentes e os resultados da pesquisa apontaram para uma expansão econômica sólida, ampla e cada vez mais autossustentável, apoiada por condições de financiamento muito favoráveis". Isso levou a instituição a revisar significativamente para cima as projeções de crescimento, ainda que o "mistério" da pouca reação da inflação permaneça. A aparente desconexão entre a evolução da economia real e a dinâmica dos preços teve bastante atenção do economista-chefe da autoridade monetária europeia, Peter Praet, que, entre outros pontos, disse que "as medidas de hiato do produto deveriam ser vistas com cautela", já que "os conceitos de equilíbrio - como o crescimento potencial ou a taxa de desemprego não inflacionária - estavam sujeitos a uma incerteza de medição considerável". Assim, há a possibilidade de a folga na economia ter sido (ou ser) maior do que se supunha no pós-crise e "o ciclo de feedback positivo entre crescimento econômico e aumento de preços poderia, uma vez mais firmemente estabelecido, operar mais rapidamente do que o esperado". Esse conjunto de informações foi traduzido como um sinal de que o BCE está já preparando os mercados para o fim da era de estímulos. Apesar disso, foram mantidas sem quaisquer alterações as frases chave perseguidas pelos analistas, como "as compras líquidas de ativos vão até o final de setembro de 2018, ou além, se necessário" e "o Conselho está pronto para aumentar o APP [programa de compras] em termos de tamanho e/ou duração, se necessário". Aparentemente, a visão de que a comunicação precisa evoluir gradualmente em função do cenário atual foi amplamente compartilhada dentro do BCE. Portanto, é bastante razoável supor que as compras de ativos soberanos e privados termine de fato em setembro, para apenas depois as taxas de juros começarem a subir. Por ora, a expectativa mediana do mercado financeiro é que isso ocorra somente no segundo semestre de 2019. De toda forma, os reinvestimentos dos títulos adquiridos devem ser mantidos por um bom tempo após o término das compras.