O Brasil na mira do setor criativo global

Publicado em 09/02/2018 por Valor Online

Rio Creative Conference trará criador de "The Handmaid's Tale", diz Rafael Lazarini Estudos e números que colocam o Brasil como um dos principais "players" mundiais da indústria do entretenimento são citados pelo entrevistado na ponta da língua: o país é o terceiro mercado global mais relevante do Netflix, o segundo do Facebook e YouTube e o quinto do Spotify, em franca ascensão. Um estudo da PriceWaterhouseCoopers aponta um crescimento de 5,4% do setor criativo na América Latina para os próximos anos, acima da média mundial. O Departamento de Comércio americano apontou o Brasil, em 2016, como um dos cinco melhores destinos para exportação nesse ramo. Na área de games, a expansão na região só perde para o Sudoeste Asiático. É esse o cenário que levou a Live Nation a convidar, em meados de 2016, Rafael Lazarini, de 45 anos, a planejar o início das operações da líder mundial de entretenimento na América Latina. E também o motivou a lançar um novo evento no calendário carioca, uma expansão do pré-existente Rio Content Market, que se tornou Rio Creative Conference, o Rio2C. Agora também aberta ao público, a iniciativa passará a abarcar, além das rodadas de negócio no audiovisual, os segmentos de música e inovação. Morando no Rio, onde nasceu, Lazarini tem a função de implementar os quatro pilares fundamentais da empresa mundo afora: produzir shows, empresariar artistas, além de publicidade e venda de ingressos (com a chegada iminente da Ticketmaster, da Live Nation). A empresa está presente em 29 países, com mais de 3,2 mil artistas agenciados, 28 mil shows e 500 milhões de ingressos processados por ano. Em breve deverá anunciar o resultado de 2017, com mais um crescimento em volumes na casa de dois dígitos, pelo sétimo balanço seguido. No ano anterior, as receitas fecharam em US$ 8,4 bilhões. Para conduzir a área de shows e aquisição de talentos, Alexandre Faria (ex-Time For Fun) chegou em agosto. Em janeiro, Lulu Santos foi anunciado como primeiro artista brasileiro a integrar uma turnê da Live Nation no país. "Sinalizamos ao mercado que estamos olhando também para artistas nacionais", afirma. Se ao longo do ano passado apresentações de U2, Coldplay e Bruno Mars foram realizadas em coprodução com outras empresas, a intenção é assumir inteiramente a realização desses eventos ainda neste ano, possivelmente nas operações de Foo Fighters e Phil Collins. Até abril, no entanto, sua agenda estará focada no fechamento da programação do Rio2C, criado a partir do licenciamento de dez anos sobre a marca do Rio Content Market. As atrações confirmadas incluem Bruce Miller, criador da série "The Handmaid's Tale"; Geoffrey Emerick, engenheiro de som de discos dos Beatles como "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", e Yelena Rachitsky, produtora da Oculus, empresa de realidade virtual do Facebook. Também foram recentemente fechados Bob Lefsetz, comentarista da indústria fonográfica, e Kari Puli, especializado em novas tecnologias. Nesta área, Lazarini promete trazer "a maior instalação de experiência de realidade virtual já montada no Brasil". Carla Esmeralda foi alçada ao posto de curadora-geral. "Mesmo com todos esses números relevantes do país, não existia um evento capaz de levar o CEO do Netflix a pensar: preciso estar no Brasil para entender o que está acontecendo nesse mercado tão relevante", diz. "E esse desempenho tem se mantido positivo mesmo durante uma das piores crises que o país já atravessou, o que mostra a força de um segmento que possui 250 mil empresas, gera mais de um milhão de empregos qualificados, com uma faixa salarial bem acima da média nacional e que fornece alto retorno para economia." Lazarini repete uma estratégia que começou a adotar quando deu o passo mais ousado de sua carreira. Após passagens na Petrobras e na agência de talentos americana Rogers and Cowan, na época em que morou em Los Angeles para cursar o mestrado em comunicação pela Universidade do Sul da Califórnia, Lazarini procurou, por meio de amigos em comum, o então bem-sucedido empresário Eike Batista. O dono da EBX gostou da proposta e concordou em aportar recursos na criação de uma empresa do ramo de entretenimento e de esportes focada em desenvolver ativos. Como contraponto, Lazarini tinha a Time For Fun, principal concorrente, que concentrava a sua atividade na promoção de shows: "A minha visão é que, nessa indústria, o importante é ser dono da marca e não simplesmente um produtor de eventos que amanhã podem estar sendo produzidos por outra empresa." Sob essa filosofia, passo a passo a IMX firmou joint ventures para exploração de ativos como Rio Open, Cirque du Soleil, IMG Worldwide e Rock in Rio. Para gerenciar o festival de música, foi criada a Rock World, em 2012, 50% pertencente ao fundador do evento, Roberto Medina, e a outra metade comprada pela IMX. Com a crise dos negócios de Eike Batista, Medina recomprou a sua parte e convenceu Lazarini a assumir o desafio de produzir o primeiro Rock in Rio em solo americano, em Las Vegas, em 2015. Apesar do público abaixo da expectativa, a captação de recursos chegou a US$ 10 milhões, acima dos patamares do Coachella, o principal concorrente. Enquanto os festivais locais eram custeados pela bilheteria, o modelo brasileiro incluía a captação de patrocínios e o conforto do público. "Festival nos Estados Unidos ainda era quase o mesmo de Woodstock: lama, palquinho e uma tendinha vendendo cerveja", afirma. Depois da empreitada, a nova sócia de Medina, a americana SFX, entrou em recuperação judicial, abrindo caminho para o retorno de Lazarini ao Brasil, como vice-presidente e líder de desenvolvimento de negócios na América Latina da Live Nation Entertainment.