Carnavais que a gente não esquece

Publicado em 10/02/2018 por O Estado do Maranhão

Carnavais que a gente não esquece

Em nenhuma outra cidade brasileira, excetuando-se São Luís, havia um tipo carnavalesco semelhante à figura do fofão, fantasia de custo baixo, portanto, acessível aos foliões de todas as classes sociais. O fofão dançava e pulava descontraidamente nas ruas e nos clubes sociais sem medo de ser feliz. Em qualquer lugar era sempre bem recebido, sobretudo porque fazia a alegria da garotada. Benedito Buzar

Benedito Buzar e a esposa Solange (Foto: Divulgação)

Herdei de meu pai, Abdala Buzar, festeiro de nascença e carnavalesco assumido, o dom de gostar das brincadeiras de Momo, ele, que, em Itapecuru, se encarregava de organizá-las.

Com esse sentimento, cheguei a São Luís, no florescer dos anos 1950, para dar continuidade aos estudos e conhecer um carnaval diferente do brincado na minha terra, a começar pela duração. Enquanto o de Itapecuru limitava-se ao tríduo momesco - domingo, segunda e terça-feira - o de São Luís demorava uma temporada, iniciada no réveillon e terminada na madrugada de quarta-feira de cinzas.

Ao longo da temporada, a capital maranhense era movida a carnaval. No meio de semana, pontificavam os "Assaltos carnavalescos," em que grupos da sociedade invadiam as residências de famílias conhecidas e as transformavam em palcos, onde "assaltados e assaltantes" brincavam alegremente até altas horas da noite. Nos finais, a cidade se incendiava com os bailes da elite, realizados no Casino Maranhense, no Grêmio Lítero Recreativo Português, no Clube Jaguarema, e nos denominados clubes populares.

Os clubes elitizados elaboravam programações para sócios e convidados se divertirem à vontade e com tranquilidade. Para tal fim, os salões recebiam decorações para estimular o comparecimento dos associados, devidamente fantasiados e munidos de confetes, serpentinas e lança-perfumes.

Cada clube esmerava-se em apresentar atrações na temporada carnavalesca. O Jaguarema costumava trazer do Rio de Janeiro cantores para animarem as festas que precediam ao tríduo momesco. No baile da segunda-feira, as atenções se voltavam para o desfile de fantasia, com prêmios às melhores classificadas. O Casino Maranhense fazia questão de o baile de domingo amanhecer, com o propósito de levar os associados à Rua Grande, para, sob o som da orquestra, reverenciarem a antiga sede do clube. O Lítero, por sua vez, organizava uma programação com festas alternativas, ora na sede social, localizada na Praça João Lisboa, ora na sede esportiva do Anil, sem esquecer as suas memoráveis vesperais, promovidas aos domingos.

1- Eu, Palmério Capos, Alim Maluf e Raimundinho Sá, com os familiares e amigos, em pleno momento de alegria na rua da cidade. (Foto: Divulgação)

Bailes de segunda ou de máscaras

Os chamados clubes populares ou de segunda salientavam-se por conta de duas singularidades. Primeira: as mulheres não pagavam para entrar, desde que portassem máscaras, para não serem identificadas e facilitar a presença das mal casadas, das balzaquianas, das prostitutas e até de homossexuais disfarçados. As máscaras funcionavam como um fetiche e atraiam homens de todas as idades e projeções sociais, para noitadas, algumas gloriosas, outras nem tanto.

Segunda, quem bancava os bailes, promovidos nas terças, quintas, sábados e domingos, era o sexo masculino, que desembolsava um bom valor monetário para fazer face ao ingresso, consumo de bebidas e comidas, e possivelmente da remuneração das mulheres conquistadas.

Esses clubes se espalhavam na parte central da cidade e instalavam-se em sobrados e casarões alugados. A maioria portava nomes sugestivos ou exóticos: Gruta do Satã, Bigorrilho, Rasga Sunga, General da Banda, Havaí, Columbina, Dragão da Folia e outros. O mais famoso era comandado por Moisés Reis, caprichoso na seleção das mulheres que frequentavam os seus bailes, geralmente recrutadas nos bairros, algumas até recebiam cachês.

Os bailes populares ou de máscaras, desde que se aproximava a temporada carnavalesca, eram insistentemente combatidos pela igreja e pela imprensa conservadora de São Luís, considerados focos de prostituição ou de desagregação familiar. Com base nessa campanha de falso moralismo, o prefeito, Epitácio Cafeteira, eleito em 1965, assinou decreto proibindo o funcionamento desses clubes na capital maranhense. Essa inesperada e descabida proibição gerou grave crise política, cujo desfecho foi o rompimento do prefeito com o governador Sarney e a extrapolação do caso para esfera do Judiciário, onde demandou recursos de toda ordem, mas só julgados depois do carnaval.

Resultado: sem os bailes de segunda, o carnaval de São Luís entrou num processo de definhamento, com reflexos no comportamento do folião, fazendo-o abandonar os clubes e a fugir das ruas. Essa situação só veio se modificar no primeiro governo de Roseana Sarney, com a execução de um plano para fazer ressurgi-lo das cinzas.

Baile do teatro

Além dos bailes tradicionais, uma festa ganhou vulto nos meados da década de 1950. Por iniciativa de mulheres da chamada alta sociedade, tendo a primeira-dama do Estado, Ada Carvalho, esposa do governador Matos Carvalho, como líder desse movimento, o Teatro Artur Azevedo serviu de palco para a realização de majestoso baile carnavalesco, em benefício de entidades filantrópicas.

De comum acordo, os principais clubes sociais, Casino, Lítero e Jaguarema, abdicaram de promover festas no domingo de carnaval, para que os seus associados pudessem participar da folia num ambiente devidamente preparado e decorado pelo artista plástico Iedo Saldanha e animado pelas melhores orquestras da cidade: o Jazz Vianense e a Orquestra Alcino Bílio.

Para ter acesso ao baile, além do pagamento do ingresso, a exigência de fantasia fina e de traje rigor. As melhores fantasias recebiam prêmios.

A folia nas ruas

Se esse era o quadro que o carnaval apresentava nos clubes elitizados e populares, não menos diferente o que acontecia nas ruas da cidade, decoradas pela prefeitura, com vistas a animar o folião, fazê-lo sair de casa e participar ou assistir à apresentação dos blocos, das batucadas, das turmas do samba, dos grupos de índios e de mascarados. Naqueles tempos, escola de samba ainda era um produto carnavalesco exclusivamente carioca. Só anos depois, por influência da televisão, elas, com seus sambas enredos, invadiram avassaladoramente o país inteiro, fazendo as brincadeiras tradicionais perderem o brilho, a autenticidade e serem imitadas, de modo caricato. Em São Luís, a carioquização do carnaval ocorreu sem dó e piedade.

Mas enquanto o nosso carnaval de rua manteve a sua originalidade, a grande maioria dos blocos, das batucadas, das turmas do samba e congêneres, procedia dos bairros e formada por gente de classes menos favorecidas, que se apresentavam em público com fantasias simples, instrumentos modestos de percussão e de sopro, que causavam alegria e vibração aos espectadores, estes, aboletados nas janelas residenciais, que os aplaudiam incessantemente.

Dessa época, ficaram famosos alguns blocos, como os Legionários, Vira-Latas, Sentenciados, Fuzileiros da Fuzarca, Pif-Paf, Coringas, Mal-Encarados e Tarados, até hoje lembrados como inigualáveis pelos saudosistas de um carnaval sem volta.

Casinha da roça

Vem, também, daqueles anos dourados, uma atração carnavalesca que até os dias correntes permanece na crista da onda e faz sucesso, tanto que leva o povo ao delírio. Trata-se da Casinha da Roça, criada para mostrar a realidade rural do Maranhão.

Conquanto brincadeira carnavalesca, a Casinha da Roça simula uma moradia rústica do interior, habitada por gente que trabalha no setor primário e vive numa economia de subsistência.

Esse cenário rural, evidentemente em pequena dimensão, é montado numa carroceria de caminhão, que, adaptada para tal fim, revela o modo de vida das famílias rurais, bem como os instrumentos culturais e os utensílios que fazem parte do cotidiano e do labor de homens e mulheres do nosso interior.

Os maiores foliões

Mas o carnaval de São Luís, que eu e outras pessoas ainda guardamos na memória e sentimos infinitas recordações, não dependia apenas dos blocos, das batucadas, dos grupos de sambas, dos mascarados, dos corsos e de outros folguedos.

Na cena carnavalesca urbana, eram notórias as presenças de figuras humanas bem representativas da sociedade, que procuravam mostrar de maneira alegre, simples e divertida, como sabiam animar os ambientes festivos.

Nesse particular, não podem ser esquecidas pessoas da categoria de Aldemir Silva, Jesus e Elir Gomes, Antônio Carlos Saldanha, Inácio Braga, Bichat Caldas, Raul Guterres, Antônio Maria Carvalho, Pedro Mendes e Cléon Furtado, que não deixavam a tristeza reinar no período carnavalesco.

Rei Momo

Não devem, também, se olvidar, como foram atores importantes do carnaval maranhense, de duas extraordinárias personalidades, que contribuíram bastante para tornar as festas carnavalescas descontraídas e animadas: Haroldo Rego e Eurípedes Bezerra.

O primeiro, sócio da Companhia Telefônica do Maranhão; o segundo, oficial de alta patente da Polícia Militar do Estado. Ambos, na fase carnavalesca, no exercício da função de Rei Momo, esqueciam o que eram na vida real e se transformavam em autênticos representantes da folia, em nome da qual ditavam as regras e as normas para que, no carnaval, tudo ocorresse sem anormalidades.

Os Fofões

Em nenhuma outra cidade brasileira, excetuando-se São Luís, havia um tipo carnavalesco semelhante à figura do fofão, fantasia de custo baixo, portanto, acessível aos foliões de todas as classes sociais.

O fofão dançava e pulava descontraidamente nas ruas e nos clubes sociais sem medo de ser feliz. Em qualquer lugar era sempre bem recebido, sobretudo porque fazia a alegria da garotada.

Para ser fofão, o folião usava um modelo de roupa larga e feita com tecido estampado, colorido e vistoso, com guizos nas extremidades, para chamar a atenção dos adeptos ou não do carnaval. Além dessa chamativa indumentária, carregava uma boneca, um cajado ou uma vareta, para se proteger dos cães de rua ou da molecada.

Para o fofão ter acesso aos clubes e às festas carnavalescas só havia uma exigência: mostrar a cara.

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