Celular chinês com preço de iPhone quer concorrer com a Apple

Publicado em 06/12/2017 por Gazeta do Povo

O celular tira fotos deslumbrantes e se aventura em inteligência artificial avançada. Sua tela se estende gloriosamente sem bordas. E custando quase US$ 1 mil nos Estados Unidos, ele chega à classe que deixa os clientes com água nos olhos na hora de pagar.

Mas o Mate 10 Pro não é o lançamento mais recente da Apple ou da Samsung. Ele vem da China - um país que, apesar de toda a sua crescente sofisticação em tecnologia, ainda não produziu marcas como Apple, Lexus, Canon ou Samsung, que consumidores de todo o mundo associam o nome a produtos de qualidade premium a preços premium.

A Huawei Technologies, criadora do novo smartphone, acha que o mundo está pronto para pagar um preço de primeiro mundo por um produto chinês. Está lançando o Mate 10 Pro na Europa, no Oriente Médio e em outros lugares da Ásia, além de mais dois aparelhos irmãos, um mais barato e com a especificação mais baixa, o outra mais caro e elegante. E está em negociações com a AT&T, empresa de telecomunicações americana, para oferecer os telefones nos Estados Unidos, de acordo com uma pessoa familiarizada que pediu para não ser identificada.

Legado 'Made in China' atrapalha

Na tecnologia, a China não é mais a terra das cópias e falsificações. Seus laboratórios estão avançando em inteligência artificial, computação quântica e outras áreas de descobertas. Suas empresas de internet estão na vanguarda quando o assunto é formas de aprimorar o varejo, as finanças, os transportes e outras indústrias usando a tecnologia móvel.

O problema é conseguir fazer com que o mundo reconheça tudo isso. A China quer atualizar sua economia vendendo os produtos de maior valor do mundo, como carros, aviões, aparelhos eletrônicos avançados e muito mais. Criar em seu país marcas famosas pode ajudar a abrir novos mercados e convencer os clientes globais de que os produtos chineses são tão confiáveis quanto os americanos, japoneses ou sul-coreanos.

A Huawei é bem conhecida em casa. A empresa vende mais que todas as outras na China, o maior mercado mundial de smartphones. E está beliscando os calcanhares da Apple para ser a fabricante número 2 de smartphones em todo o mundo. De acordo com a empresa de pesquisa Canalys, a Huawei vendeu 39,1 milhões de smartphones no último trimestre; a Apple, 46,7 milhões. Mas esses dispositivos Huawei eram principalmente de categorias intermediárias ou de entrada. A liderança é da sul-coreana Samsung, com 82,8 milhões de unidades vendidas no 3.º trimestre.

O diretor de marketing da Huawei para dispositivos para consumo, Glory Cheung, afirma que os consumidores estão percebendo que a marca está mudando de nível, fabricando smartphones mais estilosos e inovadores. "Acho que é um sinal muito bom para nós."

Ainda assim, disse Cheung, a Huawei prefere gastar mais em tecnologia e design do que em marketing, mesmo reconhecendo a importância de construir um vínculo emocional com os usuários. O desafio para a empresa nessa última frente é significativo: em comparação com a Apple ou a Samsung, a Huawei tem muito mais a fazer para criar algo indescritível que leva alguém a se comprometer com uma marca.

Mesmo na China, muitas pessoas ainda veem os dispositivos Huawei como algo que vale o dinheiro pago e não muito mais que isso. Li Haoran, um contador de 24 anos em Pequim, é uma antiga usuária da Apple. Ela mudaria para a Huawei? "Não", disse ela. "Mas eu consideraria comprar telefones Huawei para minha família, porque eles são relativamente baratos."

Empresa investiu em tecnologia e design para seus smartphones

Fundada em Shenzhen há três décadas, a Huawei era um dos maiores fornecedores mundiais de equipamentos de telecomunicações quando lançou seu primeiro smartphone Android em 2009. Os primeiros aparelhos eram medíocres em aparência e desempenho. Mas, desde então, a Huawei investiu mais em design e tecnologia, abrindo um centro de design em Londres e uma área de pesquisa e desenvolvimento (P&D) na Finlândia.

Com a série Mate 10, a Huawei estreou um dos frutos de sua pesquisa: um processador dedicado a tarefas de inteligência artificial, como identificar pessoas em fotos e traduzir texto. Christophe Coutelle, vice-presidente de marketing de software da Huawei, disse que o novo processador permite que os telefones executem essas tarefas com mais rapidez, com menos energia e - como nenhum dado precisa ser enviado para um servidor distante - com uma melhor proteção de privacidade. "Nem todos estão dispostos a compartilhar todas as suas informações, fotos e tudo com serviços baseados na nuvem", disse ele.

A ênfase na privacidade poderia ajudar a Huawei a romper seu último grande mercado inexplorado: os Estados Unidos. A experiência da empresa tem sido intensa.Seu negócio de equipamentos de rede foi efetivamente banido nos Estados Unidos depois que um relatório do Congresso dos EUA disse em 2012 que o equipamento da Huawei poderia ser usado por Pequim para espionar os americanos. O fundador da empresa, Ren Zhengfei, já foi engenheiro nas forças armadas da China. A Huawei disse que seus produtos não representam uma ameaça à segurança.

Muita tecnologia, pouca personalidade

A presença internacional e a força de trabalho diversificada tornam a Huawei uma empresa mais global do que chinesa. Mas se a Huawei é um nome global - e atraente, isso é outro assunto. "A marca ainda não possui personalidade", disse Thomas Husson, analista da empresa de pesquisa Forrester "O foco ainda é grande demais nas especificações e funcionalidades técnicas."

A Huawei tem visitado o mundo apresentando aos usuários os recursos inteligentes, mas discretos, dos seus dispositivos. Para fazer uma captura de tela, por exemplo, você bate duas vezes na tela com a junta dos dedos. Desenhar um S com a junta faz uma captura de tela de toda a página de um site ou aplicativo.

Os avanços internos podem não refletir em vendas, a menos que a Huawei os traga para outros mercados os celulares mais baratos e médios, que certamente continuarão sendo seus sucesso de vendas , afirma Francisco Jeronimo, analista da empresa de pesquisa IDC.

Jeronimo conta que riu quando ouviu uma conversa de executivos da Huawei, anos atrás, sobre se tornarem um dos três maiores fabricantes de smartphones. Hoje, afirma, "não ficaria surpreso se eles se tornassem o número 1".