Chegou a hora de corrigir distorções, diz mais influente galerista do mundo

Publicado em 15/04/2018 por Folha de S. Paulo Online

O mais influente galerista do planeta gosta de contemplar a extensão de seus domínios. Diante do janelão de um escritório minimalista no Chelsea, a meca do mercado da arte em Nova York, ele não desgruda os olhos do terreno vazio na rua de trás onde vai construir seu quarto entreposto em Manhattan.

David Zwirner tem mais dois espaços, um em Londres e outro em Hong Kong, mas se diz extasiado com o fato de Renzo Piano, o mesmo arquiteto que construiu o Centro Georges Pompidou, em Paris, e o Whitney Museum, a uma dúzia de quadras dali, estar desenhando a maior de suas galerias até o momento.

Há um quarto de século, esse alemão trocou Colônia, onde nasceu, pelo SoHo nova-iorquino. E o que começou com uma mostra de esculturas do austríaco Franz West, que não vendeu nenhuma obra, acabou se tornando uma potência incontornável.

Zwirner não é o maior galerista do mundo. Outras casas, como a americana Gagosian, a britânica White Cube e a suíça Hauser & Wirth, cobrem mais pontos do globo do que ele, mas o time de artistas que montou, cheio de "heróis e gigantes", nas palavras dele, desperta inveja.

Ele tem nas mãos dois dos nomes mais rentáveis do mercado mundial, o americano Jeff Koons e a japonesa Yayoi Kusama, e ainda representa medalhões da história da arte, como Richard Serra, entre os vivos, e Donald Judd, Dan Flavin, Giorgio Morandi e Sigmar Polke, entre os já mortos.

Juntos, eles respondem por centenas de milhões de dólares de faturamento movimentados por um time de quase 200 vendedores a cada ano.

Uma amostra de seu poder de fogo está agora na SP-Arte, feira que se encerra neste domingo no parque Ibirapuera, onde estão obras de Mamma Andersson, uma das estrelas da próxima Bienal de São Paulo, Wolfgang Tillmans, Josef Albers, Carol Bove, entre outros descolados.

Nesta entrevista, Zwirner comenta os rumos do mercado, a transformação das galerias em quase museus, sua luta por um mercado mais afável e com menos carão e a crise que chacoalha o Brasil.

 

Folha - Sua galeria abriu as portas há 25 anos. O que mudou no mercado desde então?

David Zwirner - Quando eu comecei, o mundo da arte era pequeno e humilde. Hoje não é mais possível abrir nem uma Vogue ou uma Elle sem encontrar referências às artes plásticas. Isso penetrou de fato na maneira como as pessoas vivem suas vidas. É uma paixão internacional mesmo.

Seu pai era um galerista conhecido na Alemanha. Por que decidiu vir para Nova York?

Queria abrir uma galeria, mas achei que seria muito difícil fazer isso na Alemanha, porque não queria assumir a galeria do meu pai. E ele era tão conhecido que eu pensei que viveria na sombra dele.

Em Manhattan, sua galeria começou no SoHo e se mudou para o Chelsea, que se transformou. O mercado da arte pode influenciar o perfil dos bairros de uma cidade?

O que aconteceu no SoHo é que os aluguéis ficaram caros demais quando a indústria da moda foi para lá. Não podia competir com a Gucci ou a Prada. Essa era a realidade.

Um especulador imobiliário inteligente deve seguir os passos dos artistas. Eles são sempre os primeiros a chegar. Estavam no SoHo nos anos 1960 e 1970 e depois vieram as galerias. Lembro que artistas tinham ateliês no Chelsea antes de eu abrir minha galeria.

Eles têm uma grande sensibilidade para identificar os lugares com personalidade, prontos para uma renovação.

Você acaba de abrir uma galeria em Hong Kong, e a China é agora o terceiro maior mercado de arte do planeta. Está só seguindo o dinheiro ou o futuro da arte está na Ásia?

Galerias de arte estão sempre seguindo o dinheiro quando abrem em qualquer lugar do mundo. Eu abri em Nova York porque era onde o mercado era mais robusto. E não há vergonha nisso, porque, se ninguém compra as obras, fica difícil sustentar a galeria, e estamos fazendo isso não só para nós mesmos, mas também para os artistas.

Há uns quatros anos, pensei que se não abrisse uma galeria lá estaria cometendo um erro enorme. No futuro, vai ser uma parte muito importante do que fazemos.

O Brasil também era visto como o futuro do mercado, mas uma forte recessão econômica seguida por uma crise política fez muitas galerias e instituições fecharem as suas portas. Como avalia esse mercado?

Vi aquela loucura que foi quando meus amigos começaram a abrir várias galerias por lá, mas sei, pelo menos, que o interesse pelas artes visuais no Brasil é real e não vai desaparecer, porque há ótimas instituições, museus muito sérios, e há grandes colecionadores e grandes galerias com artistas muito bons.

Esses ciclos de grandes expansões e recessões são interessantes, porque aqueles que ficam de pé depois do estouro de uma bolha são os mais verdadeiros. O que estamos vendo surgir agora no Brasil é um cenário mais realista e muito forte, talvez mais pautado pelo conteúdo da cena artística.

Sei que parece uma crise terrível, mas o que está acontecendo é normal, as coisas acabam ficando de pé depois.

Os artistas de sua galeria têm mais diferenças do que semelhanças. Sua estratégia é representar os que custam mais caro? Como montou seu time?

Esse é o ponto em que não estou só atrás de dinheiro. Trabalho com os artistas em que acredito mesmo. Jeff Koons e Yayoi Kusama, por exemplo, têm carreiras internacionais gigantes, mas me interesso por artistas autênticos, que estejam construindo uma linguagem única, fazendo obras bem diferentes das de todos os outros.

Dizem que gosta de artistas difíceis. Como são os difíceis?

Ser artista é difícil. Contudo, se você entende os artistas, não é difícil trabalhar com eles. Eles querem apoio, às vezes querem uma editada no trabalho, mas não gostam de ser controlados e querem alguém ao lado deles não só quando as coisas vão bem mas quando elas dão errado.

Também existem colecionadores difíceis, que acusaram você de reservar obras e depois vender para outros. Como faz para vender a obra certa para o colecionador certo?

Nossa última exposição foi da Marlene Dumas e vendemos trabalhos dela para o MoMA. Quando uma obra vai para um museu, ela passa a ser vista pelo grande público. O meu argumento é sempre melhorar a carreira do artista.

Há critérios subjetivos e objetivos. Posso dizer que um quadro é lindo e você deve comprar, mas também posso dizer, diante do mesmo quadro, que o artista tem obras no MoMA e na Tate e em grandes museus do mundo. Tentamos pôr os trabalhos no lugar certo para criar mais argumentos a favor dos artistas.

Nesse sentido, acha que as galerias estejam se aproximando do modelo dos museus, com mostras mais institucionais?

Museus são museus e galerias são galerias. Esses mundos são separados. Mas, enquanto os museus se preocupam mais em atrair grandes públicos, porque vendem ingressos, as galerias não se importam com essa questão.

Temos uns certos luxos agora nas galerias que talvez os museus não tenham, porque precisam se preocupar com a bilheteria. Então talvez tenhamos mais liberdades.

É um mercado competitivo e nos esforçamos para fazer exposições à altura, então às vezes emprestamos obras que não estão à venda, operando como os museus, porque neles as obras não estão à venda. É um fenômeno novo.

Também da mesma forma que museus exibem trabalhos de artistas históricos, é comum ouvir galeristas dizerem que artista bom é artista morto. O que pensa dessa afirmação?

Não concordo com isso. É uma péssima coisa para se dizer. Os espólios são interessantes do ponto de vista do mercado, mas nada é mais emocionante do que ver novas obras de um artista vivo, testemunhar a criação deles.

O que detesta no mundo da arte e gostaria de ver mudar?

Eu gostaria de ver diversidade. Os leilões, por exemplo, são salas cheias de homens brancos. O núcleo financeiro do mundo da arte ainda não tem nenhuma diversidade.

Acho muito interessante o que está saindo dos ateliês de artistas negros agora. Então estou olhando para eles e olhando para a história deles. Há artistas fantásticos que eu nem conhecia ainda. Chegou a hora de corrigir as distorções.

Também sinto que às vezes há uma atmosfera de frieza em galerias, uma sensação que chega até a intimidar. Seria bom sermos mais abertos.


RAIO-X

DAVID ZWIRNER

VIDA

Nasceu em 1964, em Colônia, na Alemanha, filho de Rudolf Zwirner, galerista e um dos fundadores da feira Art Cologne, então uma das mais poderosas do mundo da arte. Vive e trabalha em Nova York

FORMAÇÃO

Estudou música e chegou a ser baterista de jazz quando frequentava a Universidade de Nova York, mas desde cedo colecionou obras, em especial de artistas alemães

CARREIRA

Em 1993, abriu a galeria que leva seu nome em Nova York. Quando o SoHo ficou caro demais para o mercado de arte, ele a levou para o Chelsea, que concentra agora a maioria das galerias de Manhattan. Ele tem dois espaços ali e está construindo um terceiro. Há ainda outro no Upper East Side, em Nova York, um em Londres e outro em Hong Kong