Comandantes da economia

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Comandantes da economia

Ruy Baron/Valor

Assessor de ministros e porta-voz da Presidência no governo Dilma, Traumann fornece pílulas de leis não escritas de Brasília

"No Brasil, não é só o futuro que é incerto. O passado também é imprevisível." A frase, repetida pelo ex-ministro da Fazenda Pedro Malan sempre que um esqueleto saltava do armário para assombrar as contas públicas, se aplica bem a "O Pior Emprego do Mundo" (Planeta, 344 págs.), de Thomas Traumann. O livro é construído a partir dos relatos de 14 ocupantes do posto sobre como exerceram seu poder e lidaram com as inúmeras tormentas que assolaram o Brasil ao longo dos últimos 50 anos.

Por mais "spoilers" que a história contada tenha, esse passado surpreenderá até aquele leitor que sentiu muitos desses solavancos econômicos na pele. Tal qual descrito no aforismo de Malan, um dos mais longevos protagonista desse enredo, com oito anos no comando da pasta mais complexa da já exótica Esplanada dos Ministérios, em Brasília.

Para os mais jovens, será como ler o diário de bordo de um navio que quase afundou diversas vezes, após atravessar tempestades de proporções que, na história recente, o mundo desenvolvido só veio a conhecer há dez anos, na crise que levou à quebra do Lehman Brothers, então o quarto maior banco de investimento dos EUA. A bancarrota desencadeou a maior crise vivida no centro do sistema capitalista desde a Grande Depressão e foi a primeira do governo Lula, até ali favorecido por um cenário externo benigno.

Disposto a transformar o maremoto que o abalo sísmico normalmente causaria em uma "marolinha", o então presidente manejou o antagonismo ideológico entre os dois nomes que encabeçavam a equipe econômica - o desenvolvimentista Guido Mantega, na Fazenda, e o ortodoxo Henrique Meirelles, no Banco Central. O primeiro promovia estímulo fiscal e aumento da renda. O segundo, o controle das contas públicas e a segurança bancária.

"Chamei toda a diretoria do BC para uma reunião no domingo. Ficamos até duas da manhã para aprontar as medidas antes de o mercado reabrir na segunda", lembra Meirelles em uma passagem do livro. Montado em reservas internacionais da ordem de US$ 200 bilhões, o governo pôs seus bancos a emprestar, aliviou impostos sobre o consumo e injetou liquidez no mercado financeiro. Somente com swaps cambiais, inundou o sistema com US$ 33 bilhões.

"O Brasil estava em condições privilegiadas. O Estado podia gastar, podia investir", recorda Mantega. Se não a transformou numa marola, ao menos o país conseguiu surfar a onda gigante melhor que qualquer outro.

Sobre os acontecimentos mais remotos, o leitor conhecerá o passo a passo - e os tropeços - que levaram ao confisco que bloqueou 30% do Produto Interno Bruto (PIB), bem como o clima que deu sustentação a uma medida tão radical perante a opinião pública, para seis meses depois fracassar, como tantas outras tentativas de debelar a inflação nas décadas anteriores no governo Collor.

Assessor do ex-ministro Antonio Palocci e de Henrique Meirelles, além de porta-voz da Presidência no governo Dilma, Traumann se vale de sua experiência para retratar em cores os bastidores de decisões que definiram os rumos tomados pelo país. Também para fornecer ao leitor pílulas de leis não escritas de Brasília, que contribuem para compreensão dos fatos que se desencadeiam ao longo da trama. Que o leitor não espere por informações de coxia, no entanto. Já no prefácio ele alerta: "Nada do que consta neste livro é fruto de informações privilegiadas".

Trata-se de "documento jornalístico", como prefere o autor, jornalista com vivência em algumas das principais redações do país. Foi de uma conversa com um editor que a ideia de "O Pior Emprego do Mundo" brotou. E tomou corpo por meio de entrevistas com 15 ex-ministros, conduzidas entre o fim de 2016 e o início deste ano - um dos entrevistados, João Sayad, não ocupou especificamente a Fazenda, daí o débito na soma indicada no subtítulo ("14 Ministros da Fazenda Revelam Como Tomaram as Decisões que Mudaram o Brasil e Mexeram no Seu Bolso"). Malan, retratado como tímido, não foi um desses 15, mas lá está relato do período pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O texto é o resultado de uma narrativa dos acontecimentos que à sua época mereceram as manchetes dos jornais, mas a partir da perspectiva de quem os viveu de dentro da cabine de comando. Traumann os contextualiza e tece o pano de fundo a partir de pesquisa e captura de informações que, em muitos dos casos, só vieram à tona em relatos produzidos bem depois dos fatos ocorridos, em depoimentos, livros, reportagens, artigos ou mesmo entrevistas concedidas pelos protagonistas. Ainda que a cronologia se imponha, o autor confere leveza ao texto permitindo que a ordem dos fatos seja regida pela fluidez da trama. O apelo dramático fica por conta do desenrolar dos acontecimentos, tão palpitantes que soariam inverossímeis, se compusessem um romance.

À medida que o tempo avança, são inseridos pequenos perfis de cada ministro, contanto sua ascensão ao posto. O ocaso de cada um é tratado em capítulo específico, como um terceiro ato, ao qual se soma ainda um arrazoado sobre "como caem e como sobrevivem os presidentes".

Apesar do foco centrado nas figuras dos ministros da Fazenda, é o exercício desses com o poder que lhes foi conferido que mais importa, e essa história não poderia ser contada sem que fosse analisada todo o tempo a relação entre esses ministros e aqueles que lhes delegaram tal poder.

No epílogo, Traumann procura apontar sua lanterna para a frente e arrisca dicas a quem estiver na incumbência de indicar um nome para assumir "o pior emprego do mundo". Para FHC, o essencial "é ser crível ao presidente", além de capaz de influir no governo e conhecer o Congresso.

O ex-presidente gozou dessa confiança e em seguida a emprestou a Malan, titular da pasta de ponta a ponta nos seus dois mandatos. Para ampará-lo, FHC não se furtou a derrubar pelo caminho um punhado de amigos pessoais e colaboradores de longa data que tentaram obstruir o caminho de Malan.

Mas nenhum presidente foi tão generoso com seu ministro da Fazenda do que Itamar Franco. Para lançar o Plano Real, Itamar montou uma equipe econômica composta por diversas das cabeças que vinham atuando na esfera pública desde o fim do regime militar. Algumas das ideias que fundamentaram o pacote, como a criação de uma moeda indexada, haviam sido demonstradas dez anos antes por André Lara Resende e Pérsio Arida, em um estudo batizado informalmente como Larida, em homenagem à dupla.

Itamar os endossou até o nascimento do plano, mal contendo sua desconfiança mineira ao longo do processo. "Sem tabelamento não vai dar certo", disse, ao se despedir do então ocupante da pasta, Rubens Ricupero, após uma das últimas reuniões antes da edição da Medida Provisória que lançaria o Real.

Assim como remonta o papel desses personagens decisivos na história recente do país, "O Pior Emprego do Mundo" mostra a influência que muitos deles continuam a ter sobre a economia. Tal qual em um filme baseado em fatos reais, o livro é encerrado com breves relatos sobre a vida pós-governo dos 18 ocupantes do cargo retratados.