Combate à poluição na China puxa cotação do minério

Publicado em 08/08/2018 por Valor Online

Uma mobilização do governo chinês contra a poluição e o excesso de capacidade de produção de aço levou o preço o minério de ferro para perto de US$ 70 pela primeira vez em quase seis meses.

O ingrediente usado na fabricação do aço vem se mostrando em grande parte imune às tensões macroeconômicas que vêm desencadeando vendas pesadas e persistentes de metais industriais. Embora o preço do cobre tenha caído 15% desde o começo de junho, em razão dos temores de que as escaramuças comerciais entre os Estados Unidos e a China venham a afetar o crescimento global, o preço do minério de ferro aumentou 9%.

Ontem, a matéria-prima subiu US$ 1,95, ou 2,9%, para US$ 69,50 a toneladas, segundo a S&P Global Platts. O minério de ferro é uma fonte de rende importante para as mineradoras como a Vale, Rio Tinto e BHP Billiton.

Analistas afirmam que outros fatores também estão ajudando a dar suporte, tanto na oferta como na demanda

Com o governo chinês se mostrando severo com o excesso de capacidade de produção e se preparando para decretar medidas mais duras para conter a poluição no inverno, as usinas siderúrgicas estão se mexendo para tirar vantagem dos preços mais altos. O vergalhão - um produto siderúrgico bastante usado na construção - atingiu seu maior nível em seis anos ontem, no momento em que episódios de falta de energia atingem Hebei, a principal província produtora de aço da China.

Uma maneira de produzir aço mais eficientemente é usar minério de ferro de alta qualidade, que as siderúrgicas chinesas estão comprando da Austrália e do Brasil. Esse tipo de minério produz mais aço para cada tonelada usada da commodity e também pode reduzir as emissões.

A China já é o maior consumidor de minério de ferro do mundo. Do total consumido, cerca de dois terços do fornecimento ocorrem por via marítima.

"Não há dúvidas de que a reestruturação da indústria siderúrgica chinesa chegou para ficar", afirmou na semana passada a analistas Jean-Sébastien Jacques, executivo-chefe da Rio Tinto, depois que a mineradora anunciou os resultados do primeiro semestre. "Isso não significa que eles irão reduzir a produção... mas eles precisarão de qualidades melhores."

De fato, a produção de aço da China se mostra relativamente robusta, apresentando um crescimento de 7,5% em junho sobre o mesmo período do ano passado, para o recorde de 80,2 milhões de toneladas, segundo a ANZ.

"Está absolutamente claro que nossos clientes na China estão se aproximando dos clientes que temos no Japão... bastante preocupados em como otimizar seus altos-fornos", disse Jacques.

A agência de avaliação de crédito Fitch estima que desde março de 2016 a China eliminou 260 milhões de toneladas de capacidade de produção de aço, ajudando a apertar o mercado e colocar um piso nos preços. Ela avalia que a utilização de capacidade aumentou, de 70 a 75% para mais de 85%.

Analistas afirmam que outros fatores também estão ajudando a dar suporte ao minério de ferro. O governo chinês recentemente sinalizou uma mudança em direção ao apoio ao crescimento econômico no curto prazo, enquanto se prepara para uma guerra comercial com os EUA potencialmente danosa.

"A China continua com a retórica de que deseja rebalancear sua economia, fazendo com que ela deixe de ser liderada pelos investimentos, mas quando o crescimento se tornar uma preocupação, o impulso natural é retornar ao método testado e comprovado de investimentos em ativos fixos patrocinados pelo governo", disse a BMO Capital Markets em um relatório. "Desta vez, os financiamentos deverão vir da redução das exigências de reservas de capital para o setor bancário."

No lado da oferta, Daniel Hynes, analista da ANZ, disse que as exportações australianas devem crescer apenas 16 milhões de toneladas este ano, o menor nível desde 2006. Ao mesmo tempo, a produção do Brasil estará em baixa no restante do ano por causa do fechamento da Minas Rio, uma mina controlada e operada pela Anglo American.

Além disso, a produção doméstica chinesa de minério de ferro caiu de cerca de 400 milhões de toneladas há poucos anos, para estimados 240 milhões de toneladas atualmente, por causa de reformas no lado da oferta e foco maior na segurança.