Como a ascensão da China deve ser vista

Publicado em 16/05/2018 por Valor Online

Como a ascensão da China deve ser vista

Aos atuais países avançados, dominados pelos EUA e pela Europa, corresponde uma participação preponderante na economia mundial. Os 14% da humanidade que vivem em países avançados geram 60% da produção mundial a preços de mercado e 41% em paridade do poder de compra.

Isso não vai perdurar: em 1990, os países avançados geraram 78% da produção mundial a preços de mercado e 64% em paridade de poder de compra. O Ocidente precisa aceitar seu declínio relativo ou envolver-se numa luta extremamente imoral e provavelmente ruinosa para evitá-lo. Essa é a verdade mais importante de nossa era.

Por essa razão, em primeiríssimo lugar, os ocidentais precisam considerar como as pessoas nas potências em ascensão veem o mundo. É provável que a China, em especial, assumirá a condição de maior economia do mundo. Precisamos ponderar e avaliar as opiniões de seus governantes. Há duas semanas, apresentei o que ouvi em reuniões de alto nível em Pequim. Agora, vou avaliar o que ouvi, sob os mesmos quesitos.

A China necessita um governo central forte.

Um fato digno de nota é a crença de meus interlocutores de que a estabilidade política chinesa é frágil. A história sugere que eles têm razão. Os últimos dois séculos testemunharam muitos desastres provocados pelo homem, da Rebelião Taiping, no século XIX, ao Grande Salto para Frente e a Revolução Cultural.

É muito fácil, portanto, entender por que os membros da elite parecem convencidos de que a renovação do Partido Comunista, sob o controle de Xi Jinping, é essencial. Devemos lembrar que a turbulência da modernização e urbanização, pela qual a China está passando agora, desestabilizou a Europa nos séculos XIX e XX.

No entanto, esse aperto de controle poderá desandar a economia ou produzir uma explosão política num país onde vive um povo cada vez mais alfabetizado, interconectado e próspero. A China deseja ser uma grande Cingapura. Será capaz disso?

Os modelos ocidentais estão desacreditados.

A elite chinesa está certa: esses modelos estão, infelizmente, desacreditados. Anteriormente, a visão dominante entre os demais era de que o Ocidente é intervencionista, egoísta e hipócrita, mas competente. Após a crise financeira e a ascensão do populismo, a capacidade do Ocidente de administrar bem seus sistemas econômico e político tornou-se questionável. Para as pessoas que acreditam na democracia e na economia de mercado como expressões das liberdades individuais, esses insucessos são angustiantes. Eles só podem ser enfrentados com reformas. Infelizmente, o Ocidente está sendo alvo de uma ira improdutiva.

A China não quer governar o mundo.

Sobre esse ponto, podemos expressar dúvidas. Pela primeira vez, a China vai se tornar uma grande potência no seio de uma civilização mundial. Como todas as grandes potências anteriores, a China certamente desejará organizar a ordem mundial e o comportamento de outros Estados (e também de organizações privadas) a seu gosto. A China também tem muitos vizinhos, muitos deles historicamente aliados aos EUA. Os chineses estão tentando expandir sua influência, principalmente no Mar do Sul da China. Eles também estão tentando influenciar o comportamento, inclusive de estudantes chineses no exterior. Tudo isso representa a extensão inevitável do poder chinês no exterior.

A China está sob ataque dos Estados Unidos.

É essencial que o Ocidente perceba que seu maior inimigo passou a ser sua incapacidade de administrar bem seus próprios países. Estamos nos movendo de um passado dominado pelo Ocidente para um futuro pós-ocidental

A elite chinesa está certa ao avaliar que os americanos consideram cada vez mais seu país como um rival e, de fato, como uma ameaça. Os americanos, por sua vez, argumentam que a China os está atacando, estendendo seu poderio militar e minando aliados, especialmente o Japão. A verdade é que o poder é inevitavelmente um jogo de soma zero. A ascensão do poder chinês será vista como uma ameaça pelos EUA, sejam quais forem as intenções da China. Além disso, muitos americanos e, com efeito, muitos ocidentais, não aceitam realmente as posições chinesas no Tibete e em Taiwan, desconfiam das intenções chinesas e ressentem-se de seu sucesso. Tal desconfiança mútua engatilha a chamada "armadilha de Tucídides", entre potências correntes e emergentes.

Os objetivos americanos nas negociações comerciais são incompreensíveis.

A China tem razão: eles são ridículos. Mas entre eles há questões genuinamente importantes, especialmente envolvendo propriedade intelectual.

A China sobreviverá a esses ataques.

Isso é quase certamente verdadeiro. A menos que os EUA rompam todos os seus compromissos e busquem impor um embargo econômico à China, o atrito atual não deterá o progresso chinês, embora possa retardá-lo. Uma ameaça maior à China estaria na reação doméstica a um ambiente externo bem mais hostil. A resposta provável seria controle político e econômico ainda mais rígido, em vez das mudanças necessárias rumo a uma economia mais voltada para o mercado, mais a cargo do setor privado e mais voltada para o consumo.

Este será um ano de provações.

Será. Na verdade, será um século difícil. A visão correta que o Ocidente deveria assumir é de que a China é de fato um concorrente significativo. Sua ascensão criará muitos dilemas para o Ocidente, e especialmente para os EUA. Mas a China também é um parceiro essencial para garantir um mundo razoavelmente cooperativo, estável, próspero e pacífico. O Ocidente precisa considerar muito mais seriamente como esse mundo deveria funcionar.

A visão do governo dos EUA - de que o exercício unilateral do poder americano é tudo o que é necessário - fracassará. Os americanos não administrarão o espaço mundial comum dessa maneira; não que o governo Trump preocupe-se em alguma medida com isso. Também não conseguirá estabilidade - se duvida disso, deveria olhar o caldeirão em que se transformou o Oriente Médio após intermináveis intervenções.

É essencial que os ocidentais percebam que nosso maior inimigo passou a ser nossa incapacidade de administrar bem nossos próprios países. Entrementes, o único futuro para um mundo interdependente deve basear-se em respeito mútuo e cooperação multilateral. Isso não significa aceitar todas as demandas chinesas como legítimas. Longe disso. Resistência baseada em princípios é essencial. Mas estamos nos movendo de um passado dominado pelo Ocidente para um futuro pós-ocidental. Precisamos extrair disso o melhor possível. (Tradução de Sergio Blum)

Martin Wolf é editor e principal analista econômico do FT