Como combater demagogos populistas

Publicado em 14/11/2017 por Valor Online

Em recente simpósio em que estive, sentei-me ao lado de um destacado especialista americano em política de comércio exterior. Começamos a conversar sobre o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), responsabilizado pelo presidente Donald Trump pelos infortúnios dos trabalhadores americanos e que ele está tentando renegociar. "Nunca achei que o Nafta fosse coisa muito relevante", disse o economista. Fiquei estupefato. O especialista tinha sido um dos defensores mais importantes e ruidosos do Nafta quando o acordo foi concluído, 25 anos atrás. Ele e outros economistas de comércio exterior tinham exercido grande papel em convencer a opinião pública americana da relevância do acordo. "Apoiei o Nafta porque achei que ele abriria caminho para novos acordos comerciais", explicou meu interlocutor. Algumas semanas depois, eu estava em um jantar na Europa, no qual o palestrante era um ex-ministro das Finanças de um país da zona do euro. O ponto em discussão era a ascensão do populismo. O ex-ministro tinha deixado a política e tinha fortes críticas aos erros, segundo ele cometidos pela elite política europeia. "Acusamos os populistas de fazer promessas que não conseguem cumprir, mas deveríamos redirecionar essas críticas a nós mesmos", disse-nos. Pouco antes, no jantar, eu falara sobre o que descrevo como um trilema, pelo qual é impossível ter soberania nacional, democracia e hiperglobalização ao mesmo tempo. Temos de escolher duas dentre essas três opções. O ex-político disse, ardorosamente: "Os populistas, pelo menos, são honestos. São claros sobre a opção que estão fazendo; querem o Estado Nação, e não a hiperglobalização ou o mercado único europeu. Mas dissemos à nossa população que ela poderia ter todas as três opções simultaneamente. Fizemos promessas que não pudemos cumprir". Nunca saberemos se uma sinceridade maior dos políticos tradicionais e dos tecnocratas teria nos poupado da ascensão de demagogos nativistas como Trump nos EUA ou Marine Le Pen na França. O que está claro é que a falta de sinceridade cobrou seu preço no passado. Custou a credibilidade aos movimentos políticos de centro. E dificultou para as elites fechar o fosso que as separava das pessoas comuns que se sentem abandonadas pelo "establishment". Muitas pessoas das elites estão estarrecidas com o motivo que os pobres ou os trabalhadores teriam para votar em uma pessoa como Trump. Afinal, as políticas econômicas declaradas de Hillary Clinton teriam, quase certamente, se mostrado mais favoráveis a eles. Para explicar esse aparente paradoxo, eles citam a ignorância, a irracionalidade ou o racismo desses eleitores. Mas existe outra explicação, que é plenamente coerente com a racionalidade e a capacidade de defender seus próprios interesses. Quando os políticos tradicionais perdem a credibilidade, é natural que os eleitores passem a desconsiderar as promessas que eles fazem. Os eleitores tendem mais a ser atraídos por candidatos dotados de credenciais anti-"establishment" e que julgam, com segurança, capazes de se afastar das políticas dominantes. Na linguagem dos economistas, os políticos de centro enfrentam o problema da informação assimétrica. Eles dizem ser reformistas, mas por que os eleitores deveriam acreditar em líderes que não parecem se diferenciar da safra anterior de políticos que superdimensionaram diante deles as vantagens decorrentes da globalização e que fizeram pouco das suas agruras? Há que ter a disposição de atacar muitos dos dogmas do 'establishment', em especial a liberdade dada aos bancos, a propensão por políticas de austeridade, o movimento desimpedido do capital por todo o mundo e a fetichização do comércio internacional No caso de Hillary, sua estreita ligação com a ala tradicional pró-globalização do Partido Democrata e seus fortes laços com o setor financeiro certamente agravaram o problema. Sua campanha prometeu acordos comerciais justos e afirmou não apoiar a Parceria Transpacífico (TPP), mas será que ela realmente abraçava essa ideia em seu íntimo? Afinal, quando era secretária de Estado dos EUA, tinha apoiado vigorosamente o TPP. Isso é o que os economistas chamam de equilíbrio de agrupamento. Os políticos convencionais e reformadores têm aparência semelhante e obtêm, portanto, a mesma reação de boa parte do eleitorado. Eles perdem votos em favor dos populistas e dos demagogos cujas promessas de sacudir o sistema são mais confiáveis. Enquadrar o desafio como problema de informação assimétrica também aponta para uma solução. Um equilíbrio de agrupamento pode ser rompido se os políticos reformistas conseguirem "sinalizar" para os eleitores seu "tipo verdadeiro". Essa sinalização tem um significado específico nesse contexto. Significa incorrer num comportamento custoso, suficientemente radical para que um político convencional nunca queira imitá-lo, mas não tão radical a ponto de transformar o reformador em um populista e pôr o objetivo a perder. Para alguém como Hillary Clinton, supondo-se que a conversão dela foi genuína, isso poderia ter significado anunciar que ela deixaria de receber um centavo sequer de Wall Street e que não assinaria outro acordo comercial, caso eleita. Em outras palavras, os políticos de centro que querem desautorizar os demagogos têm de trilhar um caminho muito estreito. Se criar um caminho como esse soa difícil, isso é um bom indicador da magnitude do desafio enfrentado por esses políticos. Vencê-lo provavelmente exigirá novas caras e políticos mais jovens, não maculados pelos pontos de vista globalizantes, caracterizados pelo fundamentalismo de mercado, de seus antecessores. Exigirá também um reconhecimento direto que é para defender os interesses nacionais que os políticos são eleitos. E que isso implica a disposição de atacar muitos dos dogmas inamovíveis do "establishment" - especialmente a liberdade dada às instituições financeiras, a propensão pelas políticas de austeridade, a opinião preconceituosa sobre o papel do governo na economia, a movimentação desimpedida do capital por todo o mundo e a fetichização do comércio internacional. Para ouvidos tradicionais, a retórica desses líderes soa muitas vezes chocante e radical. Mas reconquistar os eleitores aos demagogos populistas poderá não exigir nada menos do que isso. Esses políticos têm de oferecer uma concepção inclusiva, e não nativista, da identidade nacional, e sua política precisa permanecer rigorosamente dentro dos ditames da democracia liberal. Tudo o mais é passível de discussão. (Tradução de Rachel Warszawski) Dani Rodrik é professor de economia política internacional na Faculdade de Governo John F. Kennedy, de Harvard. Copyright: Project Syndicate, 2017. www.project-syndicate.org