Como a mídia russa construiu o mito da seleção heroica

Publicado em 11/07/2018 por O Globo

O goleiro Akinfeev é celebrado pelos companheiros após a Rússia eliminar a Espanha nos pênaltis - MLADEN ANTONOV / AFP

MOSCOU — Num país cuja apatia diante da Copa do Mundo e do futebol parecia inabalável antes da abertura do campeonato, a mídia russa construiu e desconstruiu o mito de uma seleção heroica nacional em pouco mais de um mês. Desde a campanha para que todos deixassem o bigode em homenagem à marca registrada do técnico Stanislav Cherchetsov — quando o descrédito em relação do time dominava a população — até a ampla promoção do "jogo do contente", iniciada após a eliminação para a Croácia e que tenta vender o resultado final como uma grande vitória, apesar dos pesares.

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No longo programa de auditório do "Canal 1" que sucedeu a derrota na disputa de pênaltis, os repórteres que estampavam as bochechas pintadas com a bandeira da Rússia já entravam no ar anunciando que o resultado era, sim, uma grande vitória.

— Foi mágica. Não tem tragédia nenhuma aí. Os meninos foram heroicos — disse o comentarista sem voz ao final da partida.

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Quando as imagens passam para o estúdio, a plateia está aos gritos de "Malatsi!" ("estão de parabéns", em tradução livre). O canal organizou entrevistas com algumas mulheres de jogadores para mostrar a vida dura das famílias, que enfrentam a distância e os compromissos dos pais em campo. Foi uma espécie de rede de proteção para conter o desânimo pós-excitação que tomou as ruas de Moscou e ainda obrigou a prefeitura a anunciar uma segunda área exclusiva para os torcedores, porque a Fan Fest criada pela FIFA não deu conta do movimento, embora tivesse 25 mil lugares.

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A euforia cresceu com o primeiro placar surpreendente contra a Arábia Saudita. As matérias da TV foram ganhando fôlego e ares mais heroicos, com histórias de superação. Queriam o envolvimento da população. As vinhetas mostravam a união do povo pelo futebol, um esporte pelo qual os russos nunca tiveram tanto apresso. Mas a vontade de vencer (estimulada em todas os setores desde a economia até o esporte), foi ganhando forma. Babushkas (as "vovós" russas) foram mostradas coladas à TV.

O jogo contra a Espanha, que levou a Rússia às quartas, está em os três mais assistidos pelos russos em 20 anos. Foram 18,6% da população, ou 58% de todo mundo que estava com a televisão ligada naquele momento. Ainda não foram divulgados os dados da partida contra a Croácia. Os dados da empresa especializada Mediascope foram citados pelo canal "RBC". As duas partidas com maior audiência foram a semifinal, contra a Espanha também, na Eurocopa de 2008 (21%) e a partida contra o Japão na Copa de 2002 (21,5%).

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Como o GLOBO publicou às vésperas do mundial, pesquisa de opinião realizada pelo Centro Iuri Levada pouco antes do início da Copa mostra que apenas 40% da população pretendia assistir aos jogos "em algum momento". Deste total, somente 15% admitiam que acompanhariam toda a programação nas 11 cidades do país de maneira sistemática. Os outros 25% dizem só veriam um ou outro jogo. O percentual não era muito diferente das Copas anteriores.

A partir de agora, por mais que a ideia da vitória tenha ganho ares de propaganda, os russos devem voltar à rotina normal. Vão deixar o futebol para uma outra ocasião. Era isso o que se lia no choro dos jogadores depois da derrota contra o croatas.

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