Consumidor quer ser saudável, mas não abre mão do salgadinho

Publicado em 11/07/2018 por Valor Online

Consumidor quer ser saudável, mas não abre mão do salgadinho

Michael Nagle / Bloomberg

Nooyi, da PepsiCo, sobre a área de bebidas: “Estamos loucamente dedicados a botar esse negócio novamente nos trilhos”

A PepsiCo está dando aos investidores um vislumbre da mente imprevisível dos consumidores dos Estados Unidos, que dizem buscar hábitos mais saudáveis, mas não dispensam seus salgadinhos favoritos. Os resultados mais recentes da companhia mostram esse paradoxo.

De um lado, os consumidores demandam bebidas mais saudáveis, tentando reduzir o consumo de açúcar. Esse movimento derrubou o consumo de refrigerantes ao nível mais baixo em mais de 30 anos e alimenta uma cara batalha pelo mercado de bebidas gaseificadas entre a Pepsi e a arquirrival Coca-Cola. Mas ao mesmo tempo os americanos continuam mastigando batatas fritas e outros salgadinhos altamente calóricos sem demonstrar perda de apetite.

Essa dicotomia tem impulsionado a Pepsi, que vem dependendo de sua unidade Frito-Lay para crescer, enquanto enfrenta a queda das vendas dos refrigerantes. A companhia superou as estimativas dos analistas em relação ao lucro do trimestre mais recente, em grande parte graças à força da Frito-Lay, que produz marcas conhecidas como Cheetos e Doritos.

Os resultados levaram à alta de 4,76% no preço da ação da Pepsi - a maior em mais de cinco anos -, mas colocam a companhia sob uma pressão cada vez maior para arrumar suas operações com bebidas, especialmente o refrigerante que leva seu nome.

"A Frito-Lay tem sido uma potência, mas a companhia terá um problema se ela desacelerar", diz Ken Shea, analista da Bloomberg Intelligence. "Nenhum negócio é à prova de balas."

As preferências instáveis dos consumidores americanos vêm desnorteando as gigantes dos alimentos industrializados nos últimos anos, provocando uma queda das vendas no setor como um todo que evaporou bilhões de dólares em receitas.

Potências de longa data perderam vendas para empresas iniciantes e lutam para ganhar tração quando lançam produtos concorrentes. Nesse cenário em transformação, um iogurte açucarado de uma nova companhia pode ser um sucesso, enquanto o velho equivalente de uma gigante de um século de existência perde a preferência.

Para a PepsiCo, as tendências transparecem nos dois lados de seu portfólio de alimentos e bebidas. A companhia gera mais da metade de suas receitas com os alimentos, e sua unidade Frito-Lay continua dominando as prateleiras dos salgadinhos com velhos favoritos como Ruffles e Doritos.

O lucro desta unidade cresceu 5% no trimestre mais recente. Isso ajudou a Pepsi a superar as estimativas de lucro por ação em 9 centavos de dólar no segundo trimestre. Enquanto isso, o lucro da unidade americana de bebidas da companhia caiu 16%.

Os resultados foram afetados pelos maiores custos do transporte e os preços mais altos do alumínio, resultantes de tarifas, segundo o diretor financeiro Hugh Johnston.

Um orçamento de propaganda maior também foi parte da equação, na tentativa de competir com a Coca-Cola, que lidera o mercado de refrigerantes e continua investindo em marketing.

A Coca-Cola, que não tem salgadinhos em seu portfólio, vem aumentando seus esforços em marketing e ganhando força na guerra das colas. A Diet Coke e a Coca-Cola Zero Sugar ajudaram a impulsionar o crescimento no começo do ano, apesar de serem produzidas com adoçantes artificiais, um ingrediente tido como em descompasso com as preferências modernas.

Depois que a Diet Coke sofreu uma queda de 4,3% no volume de vendas nos Estados Unidos no ano passado, a Coca-Cola lançou em janeiro a maior remodelagem já feita em sua marca original de caloria zero, lançando sua Diet Coke clássica e quatro novos sabores em latas mais altas e mais finas, estimulando a reação americana. Os novos sabores responderam por cerca de um terço do crescimento da marca, segundo a companhia. A reforma gerou crescimento na América do Norte pela primeira vez desde o quarto trimestre de 2010.

A PepsiCo, que também fabrica o isotônico Gatorade e vem trabalhando para produzir mais bebidas com baixo teores de açúcar, admitiu ontem que está tendo problemas com o seu principal refrigerante. E restabelecer o desempenho da unidade de bebidas é a prioridade máxima da executiva-chefe Indra Nooyi. "Estamos loucamente dedicados a botar esse negócio novamente nos trilhos", disse ela em uma conferência telefônica em que falou a analistas de mercado sobre os resultados. "Sabemos exatamente o que precisa ser feito e estamos fazendo."