Criptomoeda atrai perfil especulador

Publicado em 14/11/2017 por Valor Online

Se no início da década a demanda por bitcoins era restrita e vinha basicamente de "geeks" e "nerds", além de criminosos, atraídos pelos aspectos anárquicos da moeda, o que mais estimula a compra de criptomoedas hoje é a aposta de que a alta de mais de 110.000% do bitcoin desde 2011 vai se repetir - a moeda foi negociada a US$ 5 no fim daquele ano e ontem valia mais de US$ 6,5 mil. No Brasil, o preço superava R$ 23 mil. Qualquer um com o mínimo contato com o mundo de investimentos financeiros, contudo, já deve ter lido ou ouvido que desempenho passado não é garantia de rentabilidade futura. No mês passado, o presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, alertou para o risco de se comprar um ativo sem lastro só com a expectativa de que ele vai se valorizar. "Isso é a típica bolha ou pirâmide, que existem na economia há centenas de anos." Mas a ganância faz o público ignorar esse e outros tipos de alerta. Ou no mínimo se adaptar a eles, alocando para criptomoedas um valor pouco significativo do patrimônio, como 1%, de modo que, se for perdido, não vai fazer tanta falta. Dados do bitValor apontam que o valor médio negociado por transação este ano varia entre R$ 1 mil e R$ 2 mil. Com base em dados históricos do mercado brasileiro fornecidos pela MercadoBitcoin, o Valor calculou que mesmo com a gigantesca alta registrada pelo bitcoin nos últimos anos, a volatilidade foi grande. Considerando períodos sucessivos de 30 dias desde julho de 2011, por exemplo, a criptomoeda perdeu valor em 40% dos casos. Em períodos de seis meses, houve baixa em 24% dos períodos. Considerando os anos-calendário, apenas em 2014 ela se desvalorizou, com baixa de 52%. O maior ganho anual ocorreu em 2013, quando subiu 6.000%. Neste ano, a alta em reais é de quase 600%. Além do próprio efeito do fluxo especulativo sobre o preço - em um mercado com poucos vendedores -, as notícias sobre regulamentação influenciam as cotações. Em maio, mês em que o Japão regulou o bitcoin como moeda estrangeira, o preço deu um salto de 112%. Já em setembro, depois que a China informou que proibiria a atividade de corretoras de bitcoin, a cotação chegou a cair 30%. Os negócios das últimas semanas replicam essa montanha-russa. Depois de uma disparada de mais de 70% desde o fim de setembro, para o pico histórico de US$ 7,4 mil, o preço do bitcoin caiu 23% em quatro dias. A alta foi atribuída à expectativa de uma mudança tecnológica que aumentaria o tamanho dos blocos de dados que reúnem as transações (o que elevaria a capacidade de processamento) e também ao anúncio de que a bolsa de Chicago (CME) vai colocar em negociação um contrato futuro de bitcoin. A baixa, dizem os mesmos sites, se deve ao cancelamento (ou adiamento) da mudança tecnológica. O presidente da corretora MercadoBitcoin, Rodrigo Batista, diz que há casos de clientes, como programadores, designers, entre outros, que recebem pagamentos, na condição de freelancers, em bitcoins e por isso negociam a moeda. Mas diz que eles são exceção. "O grande público é especulativo." Segundo Guto Schiavon, sócio e diretor de operações da FoxBit, deve haver no máximo uns 300 estabelecimentos no Brasil que aceitam o bitcoin hoje como meio de pagamento e que, por conta dos desafios tecnológicos que tornam o processamento das transações lento - em comparação com uma compra com cartão -, o maior interesse dos compradores é como investimento. Ele diz que a corretora dá cursos aos clientes e alerta sobre os riscos, especialmente para negócios de curto prazo. "Se ele comprar e o preço não subir a responsabilidade é dele. Se eu soubesse qual seria o preço no futuro, e que ele vai disparar, eu não estaria na corretora. Eu só compraria bitcoin e depois gastaria", brinca. Além desse vai e volta nos preços, a fragmentação dos negócios entre diferentes corretoras é outro fator que traz consequências para quem negocia. Do lado das oportunidades, há espaço para investidores atuarem nesse mercado não para apostar que o preço vai subir, mas arbitrar, comprando mais barato na corretora A e vendendo ao mesmo tempo na corretora B. E isso vale tanto para o mercado local como internacional. Em agosto, por exemplo, o preço médio do bitcoin em reais ficou 20% acima da cotação em dólar. "Tem muita gente fazendo arbitragem, inclusive com robôs", afirma Batista. Do lado dos riscos, como a liquidez ainda é baixa, a diferença média entre a cotação mínima e máxima a cada dia, desde julho de 2011, é de 7%. Considerando que as taxas de negociação não são baratas, existe um risco não desprezível de o comprador entrar no mercado já "fora do preço".