Crise com os EUA já causa divergências na liderança chinesa

Publicado em 10/08/2018 por Valor Online

Crise com os EUA já causa divergências na liderança chinesa

A escalada da guerra comercial com os EUA está causando fissuras no Partido Comunista da China. A postura exageradamente nacionalista do país pode ter endurecido a posição dos EUA, segundo fontes próximas ao governo.

O presidente Xi Jinping ainda tem firme controle do poder, mas uma intensificação pouco habitual das críticas à política econômica e a forma como o governo tem administrado a guerra comercial expôs fendas raras no PCC.

Uma reação adversa está sendo sentida nos mais altos escalões do governo e atinge, possivelmente, um assessor próximo de Xi, seu assessor ideológico e estrategista Wang Huning, segundo duas fontes próximas da cúpula partidária.

Wang, que foi o mentor do "Sonho Chinês", a visão de Xi de tornar a China um potência forte e próspera, vem sendo criticado por criar uma imagem nacionalista demais para o país, que apenas provocou os EUA, disseram as fontes.

"Ele [Wang] está em apuros por ter manejado equivocadamente a propaganda e por ter empolgado a China demais", disse uma das fontes. O porta-voz do PCC não atendeu os pedidos de comentário sobre Wang ou sobre se a China teria cometido erros nas mensagens emitidas sobre a guerra comercial.

Há uma crescente percepção no governo chinês de que as perspectivas para a China "se tornaram sombrias", segundo um assessor do governo, após a deterioração das relações com os EUA.

Essa percepção é compartilhada por outras vozes influentes. "Muitos economistas e intelectuais estão descontentes com as políticas da China para a guerra comercial", disse à Reuters um acadêmico de um instituto chinês de análise e pesquisa em política pública que pediu para não ter seu nome divulgado. "A visão dominante é que a posição atual da China é linha-dura demais e que a liderança claramente avaliou mal a situação."

Essa opinião contrasta com o pensamento dominante no início do ano entre muitos acadêmicos chineses, que enalteciam a capacidade da China de encarar o conflito comercial diante da percebida fragilidade política de Donald Trump em seu país.

A China achou que tinha fechado um acordo com Washington em maio para evitar uma guerra comercial, mas ficou chocada quando Trump, aos olhos de Pequim, recuou desse acordo. "A evolução de um conflito para uma guerra comercial fez as pessoas repensarem as coisas", disse o assessor político. "Isso é visto como tendo relações com o superdimensionamento da força da China promovido por algumas instituições e acadêmicos chineses, o que influenciou as percepções nos EUA."

Uma autoridade familiarizada com a propaganda chinesa disse que as mensagens tomaram rumo equivocado. "Na guerra comercial, a linha de pensamento na propaganda foi a de que Trump é louco", disse. "Na verdade, o que o assusta é o nosso fortalecimento."

No governo de Xi, as autoridades ficaram cada vez mais confiantes em proclamar o que encaram como o legítimo lugar de líder mundial do país, abandonando a máxima defendida por Deng Xiaoping, de que o país tinha de "esperar o momento propício e esconder a sua força". Essa confiança é visível num momento em que o governo implementa sua "Iniciativa do Cinturão e da Rota", destinada a desenvolver rotas comerciais entre Oriente e Ocidente, e assume uma postura dura em questões territoriais marítimas e com Taiwan.

Hu Angang, professor de economia da Universidade Tsinghua e especialista no campo da "excepcionalidade chinesa", é um destacado defensor do ponto de vista de que a China conquistou "poder nacional abrangente". Nas últimas semanas, Hu sofreu uma reprimenda pública, ao ser responsabilizado por cultivar a desconfiança dos EUA em relação à China por ter alardeado e exagerado o poder econômico, técnico e militar do país. Essa crítica é compartilhada por algumas pessoas que compõem os círculos oficiais, segundo o assessor do governo. Contatado, Hu preferiu não comentar o caso.

As fissuras no interior do partido ocorrem num momento de queda das bolsas e da moeda da China, e em que o governo enfrenta dificuldades em sustentar a economia de modo a amortecer os efeitos da guerra comercial. Nas últimas semanas a China estimulou maior concessão de crédito e prometeu usar a política fiscal - inclusive cortes de impostos e mais financiamento para os governos locais - para combater a desaceleração da economia e a crescente incerteza, puxada, em parte, pela escalada da guerra comercial.

Xi tem tido outros incêndios para apagar, entre os quais a fúria da opinião pública com um caso de fraude na fabricação de vacinas e protestos em Pequim nesta semana de investidores em plataformas de empréstimos on-line falidas.

Acredita-se que os altos dirigentes estejam reunidos nestes dias para conversas anuais confidenciais, no resort à beira-mar de Beidaihe, já que Xi e outras autoridades praticamente sumiram da mídia estatal. Com base em anos anteriores, isso pode se estender por nada menos que duas semanas.

Embora a mídia oficial chinesa esteja coalhada, nestes dias, de comentários críticos aos EUA e à guerra comercial, houve sinais de mudança nos recados emitidos. Pequim começou a reduzir a ênfase no programa Made in China 2025, a política industrial apoiada pelo governo, que está no centro das reclamações americanas sobre as ambições tecnológicas do país.

Mas a visão no círculo do governo chinês é que o mal já foi causado e que a China aprendeu, a duras penas, que sua propaganda interna é agora acompanhada de perto no exterior. "É impossível para a China 'esconder sua força', mas, pelo menos, podemos controlar o volume da nossa própria propaganda e informar sobre a China da maneira certa", disse o assessor.