Decisões de BCs favorecem moedas de emergentes

Publicado em 14/09/2018 por Valor Online

Decisões de BCs favorecem moedas de emergentes

A alta da taxa de juros na Turquia foi mais forte do que o esperado e a surpresa favoreceu as moedas de países emergentes - não apenas a lira turca. Os juros passaram ontem de 17,75% para 24% ao ano (elevação de 6,25 pontos percentuais), face a um consenso de que subiria 5 pontos.

Diferentemente da Argentina, o TCMB (BC turco) fez um ajuste mais forte, mas sem dar um choque monetário, algo que pouco funciona em um ambiente de muita desconfiança com os fundamentos econômicos de um país. O juro argentino, por exemplo, subiu de 45% para 60%, o que implica uma piora substancial no serviço da dívida pública sem necessariamente conter a inflação, que atingiu 32% em julho e pode chegar a 50% até o fim do ano, segundo estimativas do próprio governo.

No caso da Turquia, a última leitura marcou uma elevação dos preços ao consumidor para 17,90% (maior alta em 15 anos), o que, ante o juro de 17,75% até então, implicava uma taxa real negativa, pondo ainda mais fogo na inflação.

O comportamento da moeda turca vem preocupando os mercados. O dólar subiu 60,5% contra a lira no ano até ontem e 76,8% nos últimos 12 meses, um quadro típico de crise cambial. Contra o peso argentino, a moeda americana sobe incríveis 110,3% neste ano e 132,3% em 12 meses. A situação destes dois países contaminou outros emergentes, levando, por exemplo, o rand sul-africano a perder 16,3% e 10,4% nestes dois períodos. O real brasileiro tem performance pior ainda, caindo 21,3% e 24,4%, respectivamente, seguido do rublo russo, com quedas de 15,6% e 12,6%.

Essas desvalorizações acontecem sem que haja uma diferenciação entre os países emergentes. O Brasil, por exemplo, tem uma situação confortável em termos de financiamento externo e uma inflação controlada, mas, como sempre, impera o comportamento de manada dos investidores.

Na Turquia, a desconfiança dos agentes passa pela atitude questionável do governo de Recep Tayyip Erdogan quanto à independência do banco central, conduzido curiosamente por seu cunhado Berat Albayrak, o ministro das Finanças. Críticas contínuas de Erdogan ao "juro alto", como as feitas ontem antes da reunião do BC, minaram a confiança numa condução responsável da política monetária propiciando ataques diários à moeda turca.

O BC não tinha outra saída após a divulgação do último dado de inflação a não ser surpreender no conservadorismo. Por ora, parece ter dado certo. A lira subia 4,5% no fim do dia, empurrando as moedas emergentes para cima, com exceções notórias do peso argentino e do real, este influenciado pelo quadro eleitoral confuso no Brasil.

As reações dos analistas à decisão da Turquia foram em geral positivas. Segundo Brett Diment, da Aberdeen, a decisão faz parte de um caminho lento de recuperação da credibilidade da política monetária e, se isso não tivesse acontecido, haveria um risco real de que o país se dirigisse a uma crise no balanço de pagamentos e até a uma crise bancária.

Para Inan Demir, do Nomura, "na ausência de um movimento tão ousado, os desafios de rolagem da dívida externa para os bancos iriam piorar, os danos nos balanços das empresas se intensificariam e a confiança dos detentores de títulos teria se enfraquecido ainda mais". O analista pondera, contudo, que a decisão do BC turco deveria ter chegado mais cedo e não se trata de "panaceia para todos os problemas econômicos da Turquia". De todo modo, diz Demir, "melhor tarde do que nunca".

O efeito negativo da depreciação da lira sobre os balanços das empresas altamente alavancadas em dólar não vai se desfazer rapidamente com o aperto monetário. Além disso, não há garantias de que a política econômica siga a boa vontade do BC, já que o governo vem promovendo expansão fiscal e de crédito a despeito de a economia estar aquecida e a inflação estar em rota de deterioração contínua. Portanto, é impossível dizer que a partir de agora as coisas vão melhorar na Turquia. O que o BC fez foi impedir resultados ainda mais adversos para a economia, mas não eliminou a miríade de problemas do país.

No caso do euro, a maior confiança demonstrada pelo presidente do BCE, Mario Draghi, no cenário de inflação e crescimento na união monetária deu impulso à moeda da região. O mesmo aconteceu com a libra esterlina, após a sinalização do Banco da Inglaterra (BoE) de que mais altas de juros serão necessárias no Reino Unido apesar dos riscos à perspectiva para a economia global e o risco específico relacionado ao Brexit.

No mercado acionário da Europa, o FTSE 100, de Londres, cedeu 0,43%, o DAX, de Frankfurt, avançou 0,19% e o CAC 40, de Paris, teve recuou de 0,08%.

Em Wall Street, as ações da Apple e de outras empresas de tecnologia contribuíram para que o S&P 500 ganhasse 0,53%, indo para os 2.904,18 pontos. O Nasdaq fechou com valorização de 0,75% o pregão de quinta-feira, a 8.013,71 pontos, e o Dow Jones ganhou 0,57%, para 26.145,99 pontos. (Com agências internacionais)