Despedir-se de um amigo

Publicado em 10/02/2018 por O Estado do Maranhão

Despedir-se de um amigo

A beleza da poesia, da música, da natureza, as delícias da boa comida e da bebida perdem o gosto e ficam meio tristes, quando não temos um amigo com quem compartilhá-las. Acho mesmo que tudo o que fazemos na vida pode se resumir nisto: a busca de um amigo, uma luta contra a solidão. Essas poéticas palavras não são minhas, são de Rubem Alves, em seu belíssimo texto "Homenagem à amizade".
Foram delas que me lembrei, ao receber a notícia da partida de alguém querido para a morada eterna, meu amigo Nestor Schor. Ele era uma dessas pessoas que, mesmo a distância e com pouca convivência física, sempre despertava boas lembranças e recordações de momentos felizes vividos. Um homem que definiria como intenso, por ter uma incrível e contagiante vontade de viver. Pessoas assim fazem tudo com maestria e paixão.
Porém, no dia 3 de fevereiro, repentinamente e surpreendentemente para mim que, como muitos outros amigos dele, fui surpreendido por sua partida, que aconteceu conforme a canção de Milton Nascimento, "Encontros e Despedidas" tradfuz: Coisa que gosto é poder partir / Sem ter planos... Tivemos que pensar o mundo sem sua presença entre nós."
Nestor Schor era um professor por excelência. Respirava o ensino e a pesquisa. Toda sua carreira foi construída no espaço do magistério. Algo que o deixava extremamente feliz era o convívio com os alunos ávidos por aprender, entusiasmados com os laboratórios. Ele disse certa vez que via "os olhinhos" de admiração dos recém-chegados na pós-graduação.
Tive a grata oportunidade de não apenas tê-lo como professor, mas por privar de sua amizade próxima. Eu o admirava pelo que fez pela Nefrologia, pela Medicina, pelo Ensino, mas particularmente por sua efusiva forma de se relacionar e viver. Era um anfitrião impecável: possuía o espírito acolhedor e hospitaleiro que nos fazia sentir instantaneamente à vontade com ele.
Perdemos um homem contagiante. Isso dá uma pena enorme, mas, ao mesmo tempo, somos gratos por sua breve passagem que em nós deixou algo de bom por sua generosidade. Chaplin escreveu que, durante nossa vida, conhecemos pessoas que vêm e que ficam. Outras que vêm e passam. Existem aquelas que vêm, ficam e, depois de algum tempo, se vão. Mas existem aquelas que vêm e se vão com uma enorme vontade de ficar. Considero Nestor Schor pertencer a esta última categoria.
Seu currículo é notável: descendente de uma longa linhagem de médicos, seguiu a senda de seus antepassados com denodo e brilhantismo. Além de ter sido aprovado em diversos concursos da área, ocupou os cargos de Presidente da Sociedade Paulista de Nefrologia, da Sociedade Brasileira de Investigação Clínica e da Sociedade Brasileira de Nefrologia. Ostentou ainda a condição de Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Nacional de Medicina. Integrou o corpo editorial de dezenas de periódicos. Foi distinguido com diversos prêmios, contribuindo para a formação de mestres e doutores Brasil afora. Em 2017, recebeu uma homenagem da América do Sul pela sua contribuição à Nefrologia.
Era meu confrade na Academia Nacional de Medicina, onde ocupava a cadeira de número 42. Atuante, dispunha de tempo para atender a seus pacientes em sua clínica particular, conciliando-a com a paixão pelas viagens de moto e os encontros com os amigos da boa mesa, da música e da literatura.
São Paulo, ao descrever a proximidade de sua partida, declara na Segunda Epístola ao jovem Timóteo: "Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fɔ . Parafraseando o Apóstolo dos Gentios, creio que Nestor Schor deixou um legado de fé e amor pela ciência, mas acima de tudo, de paixão pela vida. Vá com Deus, meu amigo.

Natalino Salgado Filho

Médico, doutor em Nefrologia, ex-reitor da UFMA, membro da ANM, da AML, da AMM, Sobrames e do IHGMA

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