Dólar tem nova alta e passa de R$ 3,66

Publicado em 16/05/2018 por Valor Online

SÃO PAULO  -  (Atualizada às 18h20) O dólar até saiu das máximas do dia, mas nada que tenha impedido a moeda de cravar a terceira alta consecutiva, que levou a cotação ao maior patamar em 25 meses, perto de R$ 3,70. Para se ter ideia, R$ 3,70 era, até pouco tempo atrás, a taxa máxima prevista para o ano por economistas consultados pelo Banco Central na Pesquisa Focus.

No fechamento, o dólar comercial subiu 0,94%, a R$ 3,6617. É o maior patamar de encerramento desde 7 de abril de 2016 (R$ 3,6918).

No pico, a moeda foi a R$ 3,6932, nível mais alto para um pregão desde também 7 de abril de 2016 (R$ 3,7189).

Como nas últimas semanas, o movimento do dólar hoje no Brasil esteve ligado fortemente à dinâmica da moeda no exterior. A divisa americana ganhou terreno de forma generalizada, se apreciando 0,7% ante o euro e 2% contra o rand sul-africano, apenas para citar alguns exemplos. De 33 divisas, apenas o peso argentino, ironicamente, escapava da força do dólar hoje.

Uma cesta de 12 moedas emergentes, incluindo o real, caía às mínimas desde janeiro do ano passado.

O fortalecimento do dólar se deu em meio à disparada dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano, referência para a renda fixa global. O “yield” do Treasury de dez anos bateu 3,095% na máxima, maior patamar desde julho de 2011. Com juros mais altos por lá, mais investidores se sentem estimulados a tirar recursos de mercados de risco (como emergentes) e aplicar na segurança dos ativos americanos.

O mercado se ressente ainda de incertezas geopolíticas, do embate comercial entre China e EUA e da desaceleração da economia europeia, onde até a potência Alemanha fraquejou.

Tudo isso intensifica o destaque dos EUA como grande economia com maior impulso relativo nos últimos meses. E esse cenário joga a favor de mais elevações de taxas de juros pelo Federal Reserve (Fed, BC americano), movimento que, historicamente, potencializa saída de recursos de mercados emergentes.

Para David Beker, chefe de economia e estratégia do Bank of America Merrill Lynch no Brasil, o dólar ainda tem mais espaço para ganhar força no exterior, uma vez que se espera repatriação de recursos de empresas multinacionais americanas.

Beker ressalta que a taxa de câmbio ainda pode sofrer influência das eleições no Brasil, uma vez que hoje o cenário incerto limita apostas ligadas ao evento. Mas o economista alerta que, se mais perto das eleições, crescerem as chances de vitória de um candidato que não leve adiante a agenda de ajustes, “provavelmente” o patamar da taxa de câmbio será “outro”, mais depreciado. “O doméstico se sobreporá ao externo”, diz.

Nesse contexto, pelo menos até as eleições, um dólar acima de R$ 3,50 “veio para ficar”, diz Alberto Ramos, diretor de pesquisas econômicas do Goldman Sachs para a América Latina.

Ele destaca que, apesar de condições macro melhores que em 2013 (período do Taper Tantrum), por exemplo, o Brasil preferiu trabalhar com uma estratégia “gradualista” na resolução do problema fiscal. E isso se combina à incerteza eleitoral como fator a pressionar a taxa de câmbio.

“Não acho que há um ‘overshooting’ no dólar. A taxa perto de R$ 3,70 é condizente com os riscos”, afirma.