Eleições americanas: não é só a economia

Publicado em 08/11/2018 por Gazeta do Povo

Após dois anos tendo a maioria tanto na Câmara dos Representantes quanto no Senado, o presidente norte-americano, Donald Trump, tem motivos para comemorar e para reclamar do resultado das eleições parlamentares de meio de mandato (conhecidas como midterms) realizadas na terça-feira, dia 6. O pleito renovou todas as 435 cadeiras da Câmara e 35 dos 100 postos no Senado. Os republicanos, que até agora tinham 42 deputados a mais que a oposição democrata, perderam a vantagem e agora serão minoria - o número exato ainda depende do fim da contagem de votos em alguns distritos. Em compensação, o partido de Trump, que tinha exatamente a metade mais um dos senadores até agora, ampliou sua vantagem na casa.

Historicamente, o resultado não chega a ser surpreendente: as midterms de 2010 e 2014 viram dinâmica bastante semelhante: O democrata Barack Obama assumiu a presidência em 2009 com maioria nas duas casas. Em 2010, os republicanos infligiram aos democratas uma das maiores derrotas na história, tirando 63 cadeiras dos adversários e tomando o controle da Câmara; além disso, a maioria democrata no Senado foi reduzida. Em 2014, ainda com Obama na Casa Branca, os republicanos terminaram o trabalho e conquistaram também a maioria no Senado. Neste 2018, a "onda azul", em referência à cor tradicional dos democratas, não teve a força esperada apesar da vitória na Câmara, pois o Partido Republicano ainda conseguiu vitórias importantes em algumas eleições para governos estaduais.

Trump deu motivos suficientes para que o eleitor que votou nele em 2016 agora rejeitasse candidatos de seu partido

Mesmo assim, para um país que se acostumou com o bordão "é a economia, estúpido!", cunhado pelo estrategista de campanha de Bill Clinton, em 1992, os resultados mostram que nem sempre a economia basta para ganhar eleições. Trump tem conseguido resultados formidáveis neste campo, entregando um crescimento do PIB que dá inveja a muitos emergentes, enquanto as taxas de desemprego estão baixíssimas, inclusive entre negros e latinos, que tradicionalmente tendem a votar no Partido Democrata. Seria de se imaginar que um eleitor satisfeito tenderia a manter as maiorias parlamentares que facilitassem o trabalho de Trump nesse campo.

No entanto, Trump também deu motivos suficientes para que o eleitor que votou nele em 2016 agora rejeitasse candidatos de seu partido. Sua retórica que promove o antagonismo contra minorias e suas medidas especialmente duras contra a imigração ilegal, como a separação de pais e filhos pegos cruzando a fronteira mexicana, ajudam a explicar em parte o resultado - e dizemos "em parte" porque no Senado o trumpismo conseguiu vitórias expressivas, enquanto o eleitor rejeitou os democratas que tentaram barrar a indicação de Brett Kavanaugh para a Suprema Corte. Ampliando sua maioria nesta casa, Trump terá mais facilidade no futuro, caso mais alguma cadeira da mais alta instância do Judiciário norte-americano fique vacante.

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Com os democratas no comando da Câmara, Trump terá de deixar de lado o estilo "arrasa-quarteirão" que vinha marcando seu governo. Agora, ele precisará usar todo o talento que diz ter como negociador para conseguir apoio de pelo menos parte dos parlamentares democratas a suas propostas; se a oposição decidir atuar em bloco, conseguirá barrar muitos dos planos do presidente. E os democratas terão de avaliar se isso vale a pena: se a nova maioria bloquear bons projetos, investir no "quanto pior, melhor", atrapalhar iniciativas que promoveriam mais crescimento econômico, estará jogando a reeleição no colo de Trump. Se quiserem alguma chance em 2020, os democratas terão de fazer uma oposição responsável, mostrando-se um contraponto sensato aos arroubos trumpistas sem jogar contra o país.