Em Bruxelas, chanceler iraniano pede a europeus proteção para acordo nuclear

Publicado em 15/05/2018 por O Globo

O ministro iraniano Mohammad Javad Zarif se reúne com a chefe da diplomacia da União Europeia, Federica Mogherini - THIERRY MONASSE / AFP

BRUXELAS - Após visitar Pequim e Moscou, o ministro do Exterior do Irã, Mohammad Javad Zarif, dá continuidade ao giro diplomático numa tentativa de salvar o acordo nuclear fechado em 2015. Nesta terça-feira, ele procurou a ajuda da União Europeia em uma reunião em Bruxelas para salvar o pacto sobre o programa nuclear do Irã, do qual os Estados Unidos decidiu sair após o presidente Donald Trump apresentar divergências com o tratado fechado por seu antecessor.

Zarif se reuniu com a chefe da diplomacia do bloco, Federica Mogherini, indicou o Serviço Europeu de Ação Exterior. Em seguida, ele deve se reunir com os representantes diplomáticos de França, Reino Unido e Alemanha. Os europeus buscam evitar que Teerã saia do acordo e retome sua produção nuclear:

- O acordo com o Irã funciona. Temos que fazer o máximo possível para preservá-lo - disse Maja Kocijancic, porta-voz de Mogherini, na véspera.

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A etapa na capital europeia é a terceira na série de encontros de Zarif, seguida de China e Rússia. Após Bruxelas, Zarif terá conversado com os chanceleres de cinco das seis potências que firmaram o acordo em 2015 para conter o desenvolvimento nuclear iraniano em troca de alívio de sanções econômicas.

- O objetivo final de todos esse encontros é obter garantias de que os interesses do povo iraniano, endossado pelo acordo, serão defendidos - disse Zarif em Moscou.

Ele destacou que, ao fim do giro diplomáticos, "veremos como podemos organizar um grupo de trabalho comum para que este receba apoio da comunidade internacional", explicou depois da reunião com o chanceler russo Sergei Lavrov, citado pela agência iraniana Isna.

A Rússia advertiu que tanto os russos como os europeis deveriam "defender seus interesses neste assunto", segundo palavras de Lavrov.

APROXIMAÇÃO INCOMUM

A saída dos Estados Unidos gerou uma aproximação incomum entre Moscou e os europeus, diante da tensão elevada nos últimos anos, atiçada pelas crises em Síria e Ucrânia e reacendidas recentemente pelo caso do envenenamento do ex-espião russo Sergei Skripal na Inglaterra.

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Por sua vez, o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, também falou nos últimos dias com seus homólogos dos países europeus que são signatários do acordo, para pedir que continuem com "sua forte cooperação" com Washington, indicou na segunda-feira o Departamento de Estado americano em comunicado.

Pompeo considerou que os Estados Unidos e seus aliados europeus tinham interesses similares: agir para que o Irã não adote nunca armamento nuclear" e "conter atividades desestabilizadoras do regime iraniano na região", disse o comunicado.

A Marinha americana afirmou na segunda-feira que esperava um "período de incerteza" a respeito da atitude do Irã no Golfo, após Washington abandonar o acordo.

- Evidentemente, devemos nos manter vigilantes, ainda mais do que o habitual, para estarmos preparados para qualquer tipo de reação ou novo desenvolvimento - comentou o chefe de operações navais americanas, o almirante John Richardson, à imprensa durante uma visita ao porta-aviões "USS George H.W. Bush".

O RISCO IRANIANO

O acordo nuclear foi concluído em julho de 2015 após vários anos de negociações entre Irã, Alemanha, China, Estados Unidos, Rússia, França e Reino Unido. Em virtude do pacto, Teerã aceitou congelar seu programa de produção de urânio até 2025. O presidente americano, Donald Trump, critica a falta de limites ao arsenal bélico e militar do Irã, bem como sustenta que o país voltará a se capacitar nuclearmente após o fim do prazo.

Os iranianos esperam poder "ser capazes de estabelecer um marco futuro claro para o acordo", indicou Zarif em Pequim, ao mesmo tempo que advertiu que o Irã estava "preparado para todas as opções se não tiver seus interesses.

Na sexta-feira, Zarif foi além e disse que Teerã estava se preparando para retomar "o enriquecimento industrial" de urânio "sem nenhuma restrição", a menos que a Europe dê provas sólidas de que manterá suas relações comerciais com o Irã.