Empresas brasileiras renegociam US$ 5,9 bi em bônus no exterior

Publicado em 03/12/2018 por Valor Online

Empresas brasileiras renegociam US$ 5,9 bi em bônus no exterior

Passados mais de quatro anos do início da operação Lava-Jato, os investidores de bônus brasileiros continuam tendo problemas com os papéis de empresas envolvidas na investigação. Há, no momento, cerca de US$ 5,885 bilhões em bônus dessas empresas sendo renegociados, principalmente das construtoras, que têm mostrado dificuldade em retomar a carteira de projetos.

Depois da primeira leva de default em papéis de empresas envolvidas na Lava-Jato, como do grupo Schahin, que teve a falência decretada, e da OAS, em recuperação judicial desde 2015, há uma nova onda de reestruturação de títulos de companhias cujos acionistas estavam envolvidos nas investigações. No mês passado, Odebrecht Engenharia e Construção (OEC) e Queiroz Galvão Óleo e Gás (QGOG) Constellation - que mudou o nome para Constellation Oil Services Holding e é controlada pela família Queiroz Galvão, também implicada na Lava-Jato - deixaram de pagar os vencimentos relativos aos papéis emitidos no exterior e anunciaram renegociação de suas dívidas.

Em agosto, a Andrade Gutierrez Engenharia renegociou US$ 345 milhões em bônus, cujo pagamento tinha vencido em abril. Os papéis em default, que pagavam um cupom de juros de 4%, foram trocados por títulos com vencimento em 2021 e cupom de 11% com garantia em ações da CCR. A reestruturação resultará em pagamento de US$ 37 milhões de juros por ano. Mas a primeira parcela será paga apenas no ano que vem, o que trouxe um fôlego no curto prazo para o caixa da companhia.

A Odebrecht Engenharia e Construção (OEC) informou que vai renegociar US$ 3 bilhões em bônus no exterior. A iniciativa faz parte de um processo maior que envolve a renegociação da dívida de todo o grupo, que soma R$ 40 bilhões. A companhia não pagou em novembro, após o período de 30 dias de carência, US$ 11,4 milhões em juros dos bônus para 2025.

Quatro grandes fundos - das gestoras Alliance Bernstein, Fidelity, BlackRock e Gramercy -, que representam mais de 40% do total dos bônus da Odebrecht, já estão se organizando e contrataram o Rothschild para renegociar a dívida. Outros detentores de bônus estão aderindo a esse grupo.

Segundo o Valor apurou, a companhia deve tentar negociar uma troca dos títulos em default por novos papéis, além de um prazo de carência para pagamento de juros. Esse processo, contudo, deve ser concluído apenas em 2019.

A QGOG Constellation, prestadora de serviços de perfuração de poços terrestres e marítimos e de operações de plataformas, está conversando com os credores sobre uma possível recuperação extrajudicial. Isso depende, no entanto, de um acordo com os detentores dos bônus, que têm dificultado essa saída. Se não chegarem a um entendimento com esses investidores, o processo deverá caminhar para uma recuperação judicial.

A solução deve sair nos próximos dias, já que no dia 10 de dezembro vence o período de carência de 30 dias para pagar os US$ 27 milhões em juros dos bônus para 2024 e também US$ 3 milhões em juros dos papéis para 2019, que venceram em 9 de novembro. Segundo o Valor apurou, a companhia não tem caixa para esse pagamento, por isso, precisa negociar com os credores.

A QGOG Constellation tinha dívida de US$ 1,7 bilhão, sendo US$ 700 milhões em bônus. A dificuldade na negociação estava na resistência dos detentores desses papéis em aceitar compartilhar garantias dadas nesses títulos com os demais credores.

Já a OAS está tentando finalizar a troca da dívida com os detentores de bônus pela participação de 24,4% que a empresa detém na Invepar. Para isso, será constituído um fundo de investimento em participação (FIP) para receber as ações da Invepar pertencentes à OAS, cujos direitos serão detidos pelo FI-FGTS e pelos credores estrangeiros.

Os detentores dos bônus em inadimplência da OAS ainda vão receber títulos de dívida em dólar com vencimento em 2026, que pagarão cupom de juros de 13%.

A transferência das ações da Invepar para os detentores dos bônus era para ter acontecido em 2016 e a expectativa era que isso ocorresse ainda neste ano. Mas essa operação tem de ser autorizada pela Justiça, mediante o cumprimento de algumas obrigações.

Ocorre que a OAS não pagou, no mês passado, a quinta parcela do plano de recuperação judicial que venceu no dia 5 de novembro, no valor de R$ 25 milhões, e o juiz pode não autorizar a conversão da dívida do detentores dos bônus por causa desse descumprimento.

Nesse caso, se a empresa não pagar, há três opções: o juiz pode dar mais prazo para a OAS cumprir o plano, decretar a falência da companhia ou pedir para ela convocar uma assembleia para conseguir o perdão dos credores pelo descumprimento do pagamento.

A expectativa é que uma solução seja alcançada antes da assembleia geral de credores, prevista para 7 de dezembro com objetivo de avaliar o cumprimento do plano. Essa reunião vem sendo adiada há mais de dois anos.

A dívida da empresa a ser reestruturada soma cerca de R$ 10 bilhões. O valor do principal dos bônus era de US$ 1,84 bilhão, o que representa R$ 6,45 bilhões considerando a taxa de câmbio de maio de 2016.

A dificuldade em recompor a carteira de projetos, com perdas de contratos no Brasil e no exterior, a redução do número de operações de concessões e a recuperação lenta da economia têm criado dificuldade para a geração de caixa dessas companhias. "A carteira de projetos dessas empresas tem encolhido. A chance dessas empresas voltarem a operar existe, mas não é algo trivial. Pode haver mais solavancos", diz Alexandre Garcia, analista sênior da Fitch Ratings.

Esses bônus já eram negociados no mercado secundário com preços próximos ao nível de calote. Os papéis da Odebrecht negociam a 15% do valor de face. "O não pagamento de juros pela Odebrecht já era esperado e já estava refletido no rating 'C' pela Moody's ", diz Marcos Schmidt, analista da agência de classificação de risco.

A empresa preferiu esperar fechar os acordos de leniência para reestruturar a parte financeira. Embora tenha liquidez suficiente para pagar os juros da dívida, a Odebrecht decidiu preservar suas operações. A companhia tinha, em agosto, um caixa de US$ 450 milhões e uma dívida de curto prazo de US$ 578,88 milhões que vence até junho de 2019. A Odebrecht espera fechar o ano com uma receita de US$ 2,5 bilhões, queda de US$ 1 bilhão em relação ao ano passado.

Algumas companhias, no entanto, terão mais dificuldade para retomar a carteira de projetos. É o caso da QGOG Constellation. Em relatório de junho, a Fitch destacou a dificuldade da empresa de recontratar suas plataformas de perfuração, cujos contratos com a Petrobras expiram em 2018.

Outras empresas têm conseguido reduzir a dependência dos investimentos do poder público. A Andrade, por exemplo, fechou alguns contratos com o setor privado como o firmado com a Equatorial Energia de mais de R$ 3 bilhões para a construção de linhas de transmissão. A empresa fechou R$ 7 bilhões em novos contratos nos últimos 18 meses, devendo encerrar 2018 com alta de 25% no faturamento. "Ainda enxergamos grandes riscos para a empresa, que ainda precisa monetizar o contrato com a Equatorial ", diz Garcia, da Fitch.

A empresa tinha um caixa de cerca de R$ 620 milhões para um total de R$ 370 milhões de obrigações financeiras com vencimento até setembro de 2019.

Para Schmidt, da Moody's, a retomada dos projetos dessas empresas vai depender do que ocorrer no setor de infraestrutura, além do crescimento da economia em 2019.