Entenda: o que querem os dirigentes envolvidos nas negociações com a Coreia do Norte

Publicado em 12/03/2018 por O Globo

Donald Trump e Kim Jong Un se encontrarão em maio, em localidade ainda não definida - STR / AFP

RIO - Apesar da surpresa e das dúvidas que cercaram o anúncio de uma cúpula entre o presidente americano, Donald Trump, e o líder coreano, Kim Jong-un, as negociações para a negociação do encontro continuam, como mostra o périplo iniciado nesta segunda-feira por emissários do governo sul-coreano, que estiveram em Pequim e vão em seguida para Moscou e Tóquio. Entenda quais são as posições de cada um dos dirigentes envolvidos no xadrez que pode desembocar na redução da tensão na Península Coreana.

DONALD TRUMP

Sem procrastinação

Donald Trump: a Coreia do Norte sempre foi um de seus assuntos mais comentados - KEVIN LAMARQUE / REUTERS

Desde sua posse, em janeiro de 2017, o presidente americano se mostrou obcecado com a Coreia do Norte. Ele apertou ao máximo sanções econômicas iniciadas por Barack Obama: puniu indivíduos, empresas, organizações e navios mercantes que fizessem negócios com Pyongyang, e proibiu a entrada de cidadãos norte-coreanos nos EUA. Ameaçou "destruir totalmente" o país inimigo, chamou Kim Jong-un de "homenzinho foguete", ameaçou-o com "fogo e fúria", e disse que seu botão nuclear era maior que o dele.

O mesmo presidente concordou em encontrar Kim ao receber o convite pela boca de emissários do governo sul-coreano. A decisão foi anunciada pelo chefe do Gabinete de Segurança Nacional da Coreia do Sul, Chung Eui-yong, e confirmada por Trump pelo Twitter. Com a notícia, o presidente surpreendeu o responsável por sua diplomacia, o secretário de Estado, Rex Tillerson, que está em viagem à África. O Departamento de Estado, que tem sido esvaziado sob Trump, ficou em polvorosa: o presidente nem sequer nomeou um embaixador na Coreia do Sul.

Tal cúpula, se realmente acontecer, será inédita. Os EUA intervieram em favor do Sul na Guerra da Coreia (1950-1953), e mantêm ali 35 mil soldados. O país já participou de duas longas negociações fracassadas para o desarme nuclear norte-coreano, entre 1994 e 2009, mas Trump está certo de que vai conseguir o que ninguém obteve. Um alto funcionário do governo disse à imprensa americana que "Trump foi eleito em parte porque está disposto a experimentar abordagens muito diferentes das de outros presidentes". O presidente, um empresário que apresentou o reality show O Aprendiz, no qual os participantes competiam por uma vaga em suas empresas, "criou sua reputação fazendo acordos", disse o funcionário. "Fazia sentido aceitar um convite para encontrar a pessoa que pode realmente tomar decisões, em vez de repetir a procrastinação do passado."

KIM JONG-UN

O sonho da dinastia

Para Kim, a cúpula seria uma fonte de legitimidade. - Agência O Globo

Se o encontro com Donald Trump acontecer, Kim Jong-un, que em 2011 assumiu o poder na ditadura mais fechada do mundo, vai conseguir um feito perseguido por seu pai, Kim Jong-il, e seu avô, Kim Il-sung, desde a fundação da República Popular Democrática da Coreia, em 1948: um tratamento de igual para igual por parte daquela que ainda é a maior superpotência global.

Para o jovem Kim, tratado com menosprezo no exterior, a cúpula seria uma fonte de legitimidade. "Era isso que seu pai e avô cobiçavam: estar no mesmo nível das grandes potências. Então, ainda que relutantemente, tiro o meu chapéu para Kim", disse ao "Washington Post" Van Jackson, ex-funcionário do Pentágono e professor da Universidade Victoria, na Nova Zelândia.

A Coreia do Norte firmou a decisão de desenvolver armas atômicas nos anos 1990, com a queda da URSS, como uma forma de dissuadir inimigos. O país deixou o Tratado de Não Proliferação Nuclear em 2003, no governo de George W. Bush - que incluiu a Coreia do Norte no "eixo do mal" -, mas só em 2017 fez testes de bombas atômicas e mísseis de longo alcance considerados bem sucedidos. No meio do caminho, no chamado Diálogo dos Seis (com EUA, Rússia, China, Coreia do Sul e Japão), prometeu desmantelar suas instalações nucleares, mas recuou.

O especialista chinês Zhao Tong, do Centro Carnegie-Tsinghua para Política Global, afirma que Kim resolveu negociar quando ficou satisfeito com os últimos testes de mísseis e bombas - e decidiu que tinha cartas na manga para mostrar. Pyongyang quer se livrar das sanções que apertam sua economia, e a tornam dependente da vizinha China.

Nos jornais americanos, o anúncio da cúpula suscitou comparações entre os estilos de Trump e Kim. "São dois líderes que acreditam que são as únicas pessoas que importam", disse ao "New York Times" Wendy Sherman, ex-diplomata que fez parte da equipe que negociou o acordo nuclear com o Irã, no governo Obama. Nenhuma palavra de Kim foi divulgada desde a última terça-feira, quando a delegação sul-coreana que esteve no fim de semana em Pyongyang anunciou que ele estava disposto a retomar negociações de desarme. A mesma delegação foi a Washington, na quinta, e obteve de Trump a concordância para o encontro com Kim.

MOON JAE-IN

O santo do 'milagre'

Moon Jae-In durante discurso em data comemorativa - KIM HONG-JI / AFP

Se o milagre da aproximação entre EUA e Coreia do Norte se concretizar, o papel de santo caberá ao presidente sul-coreano, Moon Jae-in, de 65 anos - um advogado atuante na área dos direitos humanos que teve sua formação política marcada pela luta contra a ditadura militar que dominou a República da Coreia de sua fundação, em 1948, a 1993.

Ainda antes de tomar posse, em maio do ano passado, Moon disse que seu país deveria "assumir a liderança das questões na península, sem ficar no banco de trás". Sua Presidência sucedeu dez anos de governos conservadores que interromperam a Política Raio de Sol de reaproximação com o vizinho do Norte.

Neste ano, ele concretizou a virada que prometera. Durante os Jogos Olímpicos de Inverno em seu país, em fevereiro, recebeu a visita da irmã de Kim Jong-un, Kim Yo-jong, a primeira dos Kim a visitar o Sul. O encontro foi seguido da visita da delegação sul-coreana a Pyongyang. Na volta, a novidade: Moon e Kim realizarão em abril a primeira cúpula entre as duas Coreias desde 2007, e estabelecerão entre si uma linha telefônica direta. Os líderes da equipe enviada por Moon ao Norte - o chefe do Gabinete de Segurança Nacional, Chung Eui-Yong, e o chefe do Serviço de Inteligência Nacional, Su Hoon - são os mesmos que estiveram com Trump na Casa Branca.

Moon tem sido chamado de "ingênuo" pela oposição conservadora, e por isso procura mostrar pragmatismo, insistindo na preservação das relações com os EUA, militares inclusive. "Vamos lidar com cuidado com essa oportunidade que veio como um milagre", disse. Não se sabe, porém, se Moon tem um acordo em mente que possa satisfazer tanto Washington quanto Pyongyang. Os EUA dificilmente concordarão com o reconhecimento da Coreia do Norte como um Estado armado nuclearmente, o que parece ser, em curto prazo, o que Kim tem em mente. Tampouco se discute no horizonte visível a reunificação da Península Coreana - separada ao fim da Segunda Guerra em áreas de influência americana e soviética, depois da expulsão dos japoneses, que a ocupavam desde 1912.

XI JINPING

O aliado ansioso

Xi Jinping mostrou aprovação à iniciativa que promete mais diálogo - KENZABURO FUKUHARA / AFP

O presidente chinês Xi Jinping foi um dos primeiros líderes estrangeiros a telefonar para Trump para parabenizá-lo pelo possível encontro com Kim Jong-un. "Espero que os Estados Unidos e a Coreia do Norte entrem em contato e dialoguem o quanto antes", declarou Xi, de 64 anos.

No tuíte em que falou da cúpula, Trump aludiu à "enorme ajuda" da China para levar Kim a negociar. De fato, em 2017, Pequim, aliada da Coreia do Norte, aderiu como nunca às sanções da ONU contra Pyongyang, que vigoram desde 2006. As importações de produtos norte-coreanos caíram em um terço. Se a cúpula ocorrer, os chineses veem uma luz no fim do túnel, mas ainda não a solução. Pequim defende a proposta de "suspensão por suspensão", em que os dois lados recuariam de suas posições. A China investe nessa proposta também por interesse próprio. Não quer uma Coreia do Norte turbinada por um arsenal nuclear de proporções desconhecidas nem que EUA e Coreia do Sul brinquem no seu quintal.

No entanto, na China há quem tema que Washington e Pyongyang alcancem um acordo que ponha a Coreia do Norte mais próxima dos EUA, em troca do reconhecimento de sua "realidade militar". O país também ficaria melindrado se for excluído do diálogo. Ontem, o porta-voz da Chancelaria chinesa disse que Pequim tem um papel "indispensável" para reduzir a tensão na Península.

SHINZO ABE

Outro aliado ansioso

Primeiro-ministro japonês durante coletiva de imprensa - STR / AFP

Toda a arquitetura de segurança dos EUA na Leste da Ásia, herdada da Guerra Fria, foi pensada como parte da aliança militar com o Japão - que, potência derrotada na Segunda Guerra e o único país atacado com bombas atômicas, se comprometeu a não adquiri-las. Os EUA mantêm 40 mil militares em bases no país, que também sedia a Sétima Frota da Marinha americana.

O premier japonês Shinzo Abe, de 64 anos, é próximo de Trump. Em público, ele elogiou a "mudança da Coreia do Norte", mas disse que continuará impondo "pressão máxima" até que Pyongyang adote ações para a desnuclearização "completa e verificável" - dois mísseis testados no ano passado pelos norte-coreanos sobrevoaram o Japão. Analistas disseram à Reuters que Tóquio teme que os EUA permitam a Pyongyang manter seu programa nuclear militar, embora congelado.