Exportadores são os que mais perdem com tarifas dos EUA às importações

Publicado em 10/07/2018 por Valor Online

Exportadores são os que mais perdem com tarifas dos EUA às importações

Quem mais perde quando se impõem tarifas sobre as importações? A surpreendente resposta: os exportadores. Embora isso seja totalmente anti-intuitivo, a teoria e evidências práticas mostram que impostos sobre as importações funcionam como se fossem um imposto sobre as exportações.

Apesar do pouco tempo, a recente rodada de tarifas aplicadas pelo governo de Donald Trump já começa a reverberar entre os exportadores: os produtores de soja se deparam com preços em queda, uma vez que a China elevou as tarifas; a Harley-Davidson vai transferir para fora dos EUA a produção de motos destinadas à União Europeia; e a BMW teme que retaliações possam atingir as exportações da fábrica na Carolina do Sul.

Economistas creditam a Abba Lerner, quando era um estudante da London School of Economics em 1936, a prova teórica de que Tarifa de importação é equivalente a um imposto sobre as exportações.

A ligação prática já era óbvia no século XVII, tanto para protecionistas quanto defensores do livre comércio, segundo Douglas A. Irwin, economista e historiador do comércio exterior no Darmouth College. Ambos concluíram que um país que se fecha às importações priva os parceiros comerciais de recursos para comprar as exportações desse próprio país.

É por isso, nota Irwin em seu livro "Clashing Over Commerce: A History of U.S. Trade Policy" ("embates no comércio exterior: uma história da política comercial dos EUA", em inglês), que os americanos estavam tão divididos quanto às políticas comerciais no século XIX. Quando os Estados nortistas conseguiram elevar as tarifas para proteger sua indústria, irritaram os Estados sulistas que pagavam mais por bens manufaturados e passaram ver o valor de suas exportações, como tabaco e algodão, cair. Os dados de Irwin mostram que embora as exportações e importações tenham variado entre 3% e 25% do PIB desde 1790, ambas tendem a se mover juntas.

Essa ligação foi profunda durante a era do padrão-ouro, porque os desequilíbrios comerciais eram financiados pelo fluxo de ouro. Se os EUA tinham superávit comercial, entrava mais ouro no país, privando os estrangeiros dos meios para comprar bens americanos. Agora, com taxas de câmbio flutuantes, o efeito é menos direto, e um país pode pagar pelas importações captando nos mercados de capitais, como os EUA têm feito desde o fim dos anos 1970.

Mesmo assim, ainda hoje, exportações e importações tendem a aumentar e diminuir em sincronia, prova de que a ligação básica ainda se mantém. Se os EUA, seja por qual for o motivo, reduzem suas importações de algum parceiro comercial, tanto a economia quanto a moeda desse país se enfraquecem e, portanto, esse país passa a comprar menos dos EUA.

Se uma tarifa gera uma nova demanda significativa para o setor americano protegido, o impulso resultante nos preços e empregos vai exercer pressão de alta sobre a inflação, juros e no dólar, prejudicando ainda mais as exportações.

Em recente estudo do National Bureau of Economic Research, Alessandro Barattieri, Matteo Cacciatore e Fabio Ghironi examinaram os efeitos das mudanças nas tarifas de 21 países (mas não os EUA) e concluíram que elas tendem a reduzir as importações e as exportações. No resultado líquido, as importações caíram mais, então a balança comercial melhorou, mas o crescimento da economia como um todo foi prejudicado, porque o aumento nos preços reduziu o poder de compra dos consumidores e o aumento no custo de bens de capital importados afetou os investimentos.

Com o tempo, as tarifas também remodelam a economia. Os setores protegidos tiram trabalhadores e investimentos de segmentos exportadores, cujos insumos passam a ficar mais caros. Esse efeito é amplificado quando as exportações também são alvos de tarifas retaliatórias de outros países. Segmentos excessivamente protegidos, como o dos produtores de açúcar nos EUA, não exportam muito porque os preços no exterior são muito mais baixos do que os internos. Países protecionistas, como a Índia e o Brasil, têm importações e exportações mais baixas em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) do que economias abertas como a Coreia do Sul e o Chile, destaca Irwin.

Ainda é cedo para avaliar o impacto uma vez que os EUA começaram a elevar as tarifas há poucos meses. As exportações cresceram em ritmo relativamente forte em abril e maio, em grande parte graças às vendas de aeronaves e de soja, segundo Ian Shepherdson, da Pantheon Macroeconomics. O aumento nas exportações de soja pode ter sido temporário, com os compradores antecipando as compras antes das tarifas chinesas entrarem em vigor.

Há outros sinais de problemas para os exportadores. O dólar tem se valorizado bastante neste ano, em grande parte influenciado pela elevação das taxas de juros dos EUA, mas também porque as tarifas de importação americanas afetaram as moedas do Canadá, México e China. Isso tende a afetar as compras de produtos americanos por esses países, mesmo as que não são alvos de tarifas. A associação setorial Aliança dos Produtores de Energia do Texas diz que o aumento dos custos e a falta de aço tubular decorrentes das tarifas vão afetar a exploração e a produção de petróleo, setor que se tornou um grande exportador dos EUA.

Da mesma forma que a Harley-Davidson, muitas fábricas que exportam a partir dos EUA vão ter que transferir atividades ao exterior. "Exportamos a mais de cem países", disse um industrial da área de alimentos, bebidas e tabaco ao Instituto para Gestão de Oferta (ISM, na sigla em inglês) em sua mensal mais recente. "Estamos nos preparando para transferir o atendimento a alguns clientes entre fábricas de produção e unidades de negócios por motivos comerciais [por exemplo, vamos transferir produção, destinada ao mercado da China, de nossas fábricas nos EUA para as do Canadá como forma de evitar tarifas mais altas]."

O resultado final dos esforços de Trump para fazer com que os americanos gastem mais em produtos fabricados nos EUA é que os estrangeiros vão passar a gastar menos com bens americanos.