Fabricantes europeias começam a dar sinais de melhora

Publicado em 12/01/2018 por Valor Online

Depois de anos na enfermaria, as siderúrgicas europeias começam a dar sinais de melhora. Algumas produtoras de aço do continente mostraram seus melhores desempenhos desde a crise financeira mundial de 2007/2008, sinal de que a profunda ferida que deixou o setor por tanto tempo de cama enfim começa a cicatrizar. A demanda por aço na Europa desabou durante a recessão econômica que se seguiu à crise financeira, o que levou a um período doloroso de fechamento de fábricas e de demissões de dezenas de milhares de funcionários, enquanto empresas como a ArcelorMittal, Tata Steel e ThyssenKrupp buscavam reduzir custos. Os problemas foram agravados pela situação na China, onde se produz metade do aço mundial. O arrefecimento da onda de expansão do setor de construção civil no país inundou os mercados internacionais de aço barato em 2015 e derrubou o valor da commodity. A China exerce influência central na dinâmica de um mercado de aço altamente globalizado Além disso, as empresas europeias reclamavam que encargos financeiros decorrentes das políticas de defesa ambiental da União Europeia as deixavam em desvantagem ainda maior. Agora, a combinação de aumento nos preços internacionais, fortalecimento da demanda na Europa e medidas protecionistas de Bruxelas vem alimentando o renascimento do setor. As perspectivas das siderúrgicas também parecem bem mais brilhantes graças a medidas internas e investimentos das empresas para melhorar a eficiência e oferecer produtos e tipos de aço de melhor qualidade. "Em termos financeiros, a situação definitivamente está melhorando", disse Andrew Zoryk, da firma de consultoria Accenture. "Há uma mudança nos fundamentos ou é apenas cíclico?", acrescenta. "Essa é a pergunta do milhão". As evidências da recuperação vieram na temporada de balanços mais recente. O grupo de engenharia e siderurgia austríaco Voestalpine descreveu seus resultados semestrais em novembro como os melhores "desde o Lehman [Brothers]", referindo-se à quebra do banco de investimento em setembro de 2008 que prenunciou o aprofundamento da crise financeira. A ArcelorMittal, maior produtora mundial de aço em volume, divulgou que teve na Europa seu maior lucro das operações básicas em um terceiro trimestre desde que começou a contabilizá-los de forma consolidada, em 2014. O resultado da Salzgitter, segunda maior siderúrgica da Alemanha, nos nove primeiros meses do ano também foi o melhor desde 2008. O setor siderúrgico europeu teve um lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (ebitda) de US$ 100 por tonelada no terceiro trimestre, segundo a corretora Jefferies. A marca é bem superior à média de US$ 75 por tonelada verificada após a crise financeira mundial e próxima à média de longo prazo, de US$ 105 por tonelada. "Acreditamos que as margens [de lucro] vão se expandir ainda mais no primeiro semestre de 2018, pela razão de que ainda não se sentiu o impacto pleno das fortes tendências do mercado à vista por causa do efeito retardado", diz Seth Rosenfeld, da Jefferies. Os investidores parecem concordar, como se viu na onda de alta de várias ações de siderúrgicas europeias em 2017. As ações da ArcelorMittal valorizaram-se mais de 25%, enquanto as da Voestalpine subiram cerca de 30% e as da Salzgitter, 40%. "Acreditamos que a perspectiva para as ações siderúrgicas europeias em 2018 talvez seja a mais positiva que vimos em um longo tempo", escreveu Michael Shillaker, do banco Credit Suisse, na semana passada. A confiança das siderúrgicas europeias ficou à mostra com a recente série de investimentos anunciados, como a decisão da Voestalpine de construir a primeira fundição para produzir aços especiais na Europa Ocidental desde pelo menos a década de 80, a um custo de até ? 300 milhões. Uma boa ajuda para a recuperação da indústria veio da União Europeia. Bruxelas impôs tarifas de importação a vários tipos de aço de fora do bloco econômico que julgou beneficiados por subsídios ilegais ou por dumping - vendidos abaixo dos preços do mercado doméstico ou dos custos de produção. Houve sinais de reversão nas importações e também se credita às medidas da UE influência na elevação dos preços de venda na região. Para as siderúrgicas, ainda mais importante do que os preços, está a questão da diferença entre o custo das matérias-primas e os valores que elas conseguem cobrar por seus produtos. A Moody's calcula que a recuperação desse "spread" deve continuar e impulsionar os lucros, permanecendo acima da média de 2016, embora abaixo do patamar de 2017. "Nossas perspectivas para o setor siderúrgico em 2018 são estáveis, sustentadas pelo crescimento na demanda por aço das indústrias automotiva e de construção civil", segundo Gianmarco Migliavacca, executivo sênior de crédito da agência avaliadora de risco de crédito. Shillaker também destacou a demanda. "O equilíbrio mundial de oferta e demanda está saudável, com a forte demanda e a produção limitada mantendo altos os spreads do aço." Como a China, no entanto, exerce influência central na dinâmica de um mercado de aço altamente globalizado, em última análise os eventos no país vão ter forte papel no destino das siderúrgicas europeias, segundo especialistas. A iniciativa de Pequim de fechar fábricas desnecessárias, o chamado "excesso de capacidade", somada a uma maior demanda doméstica, resultou em uma forte queda das exportações chinesas de aço. Alguns questionam, contudo, se o ritmo e o alcance desses fechamentos é suficiente para restaurar o equilíbrio entre oferta e demanda no longo prazo. A peça final do quebra-cabeça vai ser o desdobramento da tão aguardada onda de fusões e aquisições na indústria siderúrgica no Continente Europeu. Na teoria, um mercado com um número menor de participantes resultaria em uma oferta menor, sustentando os preços. Nenhum dos nomes envolvidos nos negócios aventados, no entanto, indicou intenção de fechar usinas, de forma que alguns analistas acreditam que os benefícios para o setor como um todo podem não ser muito grandes. A Tata Steel, da Índia, e a ThyssenKrupp, da Alemanha, pretendem combinar suas atividades siderúrgicas na Europa em um empreendimento conjunto, mas as negociações se arrastam há mais de um ano e meio. Já o acordo da ArcelorMittal para comprar a usina de Ilva, no sul da Itália, a maior do continente, está em meio a uma tempestade política e depende do sinal verde de uma investigação detalhada do órgão de concorrência da UE. "A consolidação é importante", diz Zoryk, da Accenture. "Avanços precisam acontecer para continuar a estabilizar a indústria e fortalecer a posição na negociação de preços com as empresas automotivas e de construção."