FMI: Há muitos capitais concentrados em ativos de baixo rendimento

Publicado em 11/10/2017 por Valor Online

WASHINGTON - Há capital demais para pouquíssimos ativos com bom rendimento, constatou o Fundo Monetário Internacional (FMI). Atualmente, menos de 5% do estoque atual de ativos de renda fixa com grau de investimento no mundo rende mais de 4%. Esses 5% correspondem a US$ 1,8 trilhão. Mas, antes da crise financeira global de 2008, eram 80%, ou US$ 15,8 trilhões. As conclusões estão no relatório "Estabilidade Financeira Global", que foi divulgado nesta quarta-feira, em Washington. De acordo com o documento, as avaliações de ativos estão sob pressão em alguns mercados, pois os investidores estão sendo forçados a abandonar suas posições naturais de risco e aceitar níveis mais altos de risco de crédito e de liquidez para obter maior retorno. "Ao mesmo tempo, o endividamento entre as principais economias mundiais está crescendo", alertou o FMI. A alavancagem no setor não financeiro é hoje superior ao que era antes da crise financeira mundial no conjunto das economias do G-20. Embora isso tenha facilitado a retomada da economia, deixou o setor não financeiro mais vulnerável a variações nas taxas de juros. O FMI verificou que o crescimento da alavancagem levou a um aumento dos indicadores do serviço da dívida do setor privado em várias das principais economias, a despeito das taxas de juros baixas. Isso está pressionando a capacidade de pagamento do serviço da dívida dos tomadores mais fracos em alguns países e setores. Essas pressões sobre o serviço da dívida e os níveis de endividamento no setor privado não financeiro já são elevadas em várias economias importantes, como Austrália, Canadá, China e Coreia do Sul. Essa situação aumenta a sensibilidade a condições financeiras mais restritivas e ao enfraquecimento da atividade econômica. "O principal desafio com que se defrontam as autoridades é assegurar a contenção do acúmulo de vulnerabilidades financeiras enquanto a política monetária continuar a apoiar a retomada da economia mundial", ressaltou o Fundo. "Do contrário, o peso crescente das dívidas e os excessos na avaliação dos ativos poderiam minar a confiança dos mercados no futuro, com repercussões que poderiam pôr em risco o crescimento da economia mundial." O Fundo tratou essa hipótese como pessimista, pois ela leva em conta que a reprecificação dos riscos resulta em fortes aumentos dos custos de crédito, queda dos preços dos ativos e saída dos mercados emergentes. "O impacto econômico desse aperto das condições financeiras mundiais seria significativo", alertou o FMI, acrescentando que equivaleria a quase um terço do impacto da crise financeira mundial. Ainda segundo o Fundo, essa hipótese pessimista levaria a uma reversão na normalização da política monetária pelo Federal Reserve (Fed, banco central americano) e a choques desproporcionais nos países emergentes, que deveriam sofrer uma redução nos fluxos de suas carteiras de investimentos, que são estimadas em US$ 100 bilhões. O organismo apontou ainda que os riscos para a estabilidade financeira estão migrando do sistema bancário para os setores não bancário e de mercado. Para a entidade, sistema financeiro mundial continua a se fortalecer graças ao "apoio extraordinário de políticas monetárias, ao aperfeiçoamento do quadro regulatório e à retomada cíclica do crescimento global". No entanto, observa, cerca de um terço dos bancos com capacidade de repercussões sistêmicas estão em situações frágeis e eles administram US$ 17 trilhões em ativos. De maneira geral, o FMI verificou que a maioria das instituições de importância sistêmica está ajustando seus modelos de negócios e recuperando a lucratividade. A saúde dos bancos em muitas economias avançadas continua a melhorar e houve avanços mesmo em casos de instituições financeiras mais frágeis. O Fundo identificou que os balanços dos bancos globais de importância sistêmica estão mais sólidos devido à melhoria das reservas de capital e liquidez em meio à regulação mais rigorosa e à maior vigilância do mercado. Houve, portanto, um avanço na resolução do legado da crise financeira de 2008. Mas, ao mesmo tempo, alguns bancos continuam a enfrentar dificuldades e eles respondem por US$ 17 trilhões em ativos. O valor equivale a um terço do total de bancos com importância sistêmica. Essas instituições "podem continuar a gerar retornos insustentáveis, até mesmo em 2019". Agora, de acordo com a instituição, é preciso "buscar um equilíbrio entre normalizar as políticas monetárias em algum momento e, ao mesmo tempo, evitar um acúmulo maior de riscos financeiros fora do setor bancário e resolver o legado da crise". O relatório "Estabilidade Financeira Global" contém alertas sobre eventuais riscos à economia global. Ele é divulgado duas vezes por ano: em abril e em outubro. O FMI e o Banco Mundial realizam nessa semana a sua reunião anual, em Washington.