Futebol ainda depende do Estado na terra da Copa

Publicado em 12/06/2018 por Valor Econômico

Jens Meyer/AP
Quatro vezes campeão da Liga Russa, o Zenit, de São Petesburgo, é controlado pelo Gazprombank, braço financeiro da petrolífera estatal Gazprom

Na terra da Copa do Mundo, um dos maiores eventos esportivos que o capitalismo tratou de conceber, o futebol é uma atividade eminentemente estatal. Três de cada quatro dos 36 clubes que disputam as duas principais divisões da Liga Russa são controlados por empresas estatais ou mesmo por governos distritais ou municipais. A economia centralizada deixou de existir com o fim da União Soviética, mas, em alguns setores, a dependência do Estado ainda é direta - e o futebol é um deles.

O dinheiro privado está mais presente na Russian Premier League, a primeira divisão do futebol local. Entram nesse grupo equipes como o CSKA, controlado por Vadim Giner - que, por sua vez, investe na bola o dinheiro que vem do bolso fundo de seu pai, o bilionário Yevgeni Giner -, e o Spartak Moscow, propriedade de Leonid Fedun, um dos homens mais ricos do país, com fortuna estimada em US$ 4,2 bilhões.

Um dos poucos exemplos de clubes privados que não têm ligação com um bilionário ou um conglomerado empresarial é o Dynamo Moscow, mantido pela Dynamo Sports Society, entidade poliesportiva criada nos primeiros anos da União Soviética e que, guardadas as proporções e idiossincrasias, funciona mais ou menos nos moldes de clubes brasileiros e argentinos.

Já o dinheiro público mantém vivos, direta ou indiretamente, clubes como o Akhmat Grozny, controlado pelo governo da Chechênia, e o Krylia Sovetov Samara, um apêndice da administração da província de Samara. O Zenit, de São Petersburgo, quatro vezes campeão da Liga Russa, é controlado pelo Gazprombank, braço financeiro da petrolífera estatal Gazprom. A dependência do dinheiro do Estado é ainda maior entre os clubes da segunda divisão, a Football National League, disputada por 20 equipes.

A forte dependência estatal, claro, tem origem nos tempos de economia centralizada. "Há, definitivamente, um paralelo entre o futebol e outras áreas da economia, que não foram totalmente privatizadas. O futebol é um negócio e opera de acordo com as regras de cada país. Daí essa forte correlação", diz o alemão Manuel Veth, autor de "Selling the peoples game: Footballs transition from communism to capitalism in the Soviet Union and its successor State" ("Vendendo o jogo do povo: a transição do futebol do comunismo para o capitalismo na União Soviética e no Estado que a sucedeu", em tradução livre), tese defendida por ele na Kings College, de Londres, em 2016.

O apoio estatal não quer dizer que os clubes controlados por governos ou empresas públicas tenham sempre um benfeitor caridoso ao qual recorrer nos momentos de aperto. Na verdade, virou quase uma tradição local que um clube ameace abandonar a competição por falta de recursos. Na mais recente temporada, o Amkar Perm chegou a dizer que poderia não retornar aos gramados na retomada do campeonato depois do recesso de inverno - a Liga Russa é interrompida por três meses, de dezembro a março, por causa do frio intenso. A ameaça não foi cumprida, e o Amkar conseguiu evitar a queda para a segunda divisão apenas nos "playoffs" de rebaixamento.

O recesso de inverno é um calcanhar de aquiles para os clubes que não têm um bilionário para chamar de seu. Nos três meses de interrupção do campeonato, os times viajam para lugares mais quentes para manter os treinos, logística que criou uma despesa que não existia até 2011, quando o campeonato era disputado de março a novembro.

Leonid Fedun, o dono do Spartak, sugeriu em dezembro que a Liga fosse reduzida, passando a contar com 14 equipes. Suas sugestões incluíram também um calendário mais maleável, que permitisse jogos no inverno em estádios mais preparados para o rigor da estação, como São Petersburgo e Moscou, em detrimento de disputas em cidades como Ufa, do clube de mesmo nome, e Kazan, terra do Rubin. Os clubes menores, mais dependentes do Estado, chiaram com a ideia de ter menos jogos em casa.

Até que se ache uma solução para o impasse da organização - e do financiamento - do futebol russo, é possível que se repitam casos como o do Rotor Volgograd: o campeão soviético de 1980 precisou deixar o futebol profissional em 2015 por não conseguir quitar uma dívida de 130 milhões de rublos, o equivalente, hoje, a R$ 7,6 milhões. No mesmo ano, refundado com uma nova personalidade jurídica, o Rotor voltou às competições e vai disputar a segunda divisão do país em 2018-2019. Um detalhe: a refundação foi feita pelo governo da província de Volgogrado, no sul do país, a mesma que controlava o clube antes da derrocada.