General quer acabar Angra 3 e reavaliar usinas na Amazônia

Publicado em 11/10/2018 por Valor Online

Ruy Baron/Valor

Ferreira: redução do Estado deve se dar em uma dinâmica que atenda tanto a Paulo Guedes quanto a Bolsonaro

O general da reserva Oswaldo Ferreira, encarregado de cuidar das discussões sobre infraestrutura na campanha de Jair Bolsonaro (PSL), defende a retomada das obras de Angra 3 e a reabertura de estudos para a megausina de São Luiz do Tapajós, no Pará, cujo processo de licenciamento ambiental foi arquivado pelo Ibama. Ele também acredita que é preciso resgatar, independentemente de decisão, a análise de hidrelétricas com grandes reservatórios na Amazônia. "Não pode já ir sepultando as coisas. Por que não estudar?", questiona o general, que tem se reunido todas as quartas-feiras com especialistas de várias áreas, todos colaboradores voluntários, como faz questão de dizer, no subsolo de um hotel de padrão econômico na região central de Brasília.

Em entrevista ontem ao Valor, interrompida por uma ligação de Bolsonaro, enquanto o médico oncologista e empresário Nelson Teich apresentava um diagnóstica sobre a área da saúde em uma sala reservada do hotel, o oficial do Exército evitou falar sobre o futuro de empresas estatais problemáticas, como a Infraero e a Eletrobras. "A ideia é reduzir o tamanho do Estado, mas dentro de uma dinâmica que atenda tanto o doutor Paulo Guedes quanto o próprio Bolsonaro", afirmou Ferreira. "Não me compete nenhuma ânsia. Aquilo que é estratégico terá tratamento [diferenciado]. Tudo depende dos estudos que estão sendo feitos."

Ex-diretor do departamento de engenharia e construção do Exército, onde ficou até passar para a reserva em abril de 2017, Ferreira recebeu uma ligação do deputado há pouco mais de um ano. Bolsonaro foi à casa do general. "Eu relutava em fazer qualquer coisa, estava vivendo a minha nova vidinha, cuidando da minha família e planejando minhas viagens, mas conversamos por duas horas. Ele me chamou para mudar o Brasil", comenta, deixando claro que não há vinculação entre participar das discussões e ocupar cargos no governo.

Especulado como provável ministro dos Transportes, em caso de vitória de Bolsonaro, Ferreira sinaliza com a continuidade do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) como núcleo de desenvolvimento de projetos para concessão à iniciativa privada. "O PPI se encaixa em uma visão de Estado."

Para o general, uma prioridade incontestável é concluir a pavimentação da BR-163, em um trecho de 65 quilômetros entre Novo Progresso e Moraes de Almeida (PA). A obra está sendo tocada pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e já passou pelos últimos três governos sem entrega no prazo prometido. "Eu fui o comandante da companhia [militar] que construiu os primeiros 13 quilômetros da rodovia. Saí de primeiro-tenente, na época, para general do Exército e ainda estamos fazendo o asfaltamento da estrada", diz Ferreira, considerando a demora inaceitável. "A prioridade é dar continuidade à BR-163 e permitir que, no próximo inverno, os [caminhões] bitrens não fiquem mais atolados."

No setor elétrico, objeto da monografia de Ferreira na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, Ferreira chama a atenção para o fato de que novos aproveitamentos hídricos estão essencialmente na Amazônia. "É um tema que precisa ser estudado. Não é que eu seja contra ou a favor [usinas na região], mas uma coisa que não podemos ter de jeito nenhum é apagão de energia, nem uma energia cara demais."

Em um desenho da máquina administrativa que está sendo feito pela equipe, cogita-se a fusão do Ibama com o Instituto Chico Mendes (ICMBio), responsável pelas unidades de conservação.

Ferreira se diz defensor de parques eólicos e da aposta em fonte solar, mas pondera que elas não são suficientes para "segurar o crescimento da economia". Ao falar sobre a necessidade de avaliar se novas hidrelétricas podem ou não ter grandes reservatórios, cita o caso da megausina de Belo Monte (PA), que tem 11.233 megawatts de potência instalada, mas geração média muito inferior durante a estiagem, por ser a fio d'água. "Da maneira como foi feita, chega a menos de 1.000 MW. Reduzimos a menos de 10% e custou mais do que uma fortuna."

O general defende ainda a retomada das obras de Angra 3, lembrando que já foram investidos em torno de R$ 10 bilhões e que ela é importante não apenas na matriz elétrica, mas por geração de conhecimento científico e para abertura de empregos na construção.