Gilson Cavalcantti Ricci: Reflexões sobre o carnaval

Publicado em 12/02/2018 por Correio do Estado

Mais um tríduo carnavalesco. Desde sua existência como nação independente, o Brasil nesses três dias se agita de norte a sul, num reboliço geral. As fontes produtivas param de trabalhar, e o governo dá ponto facultativo a seus funcionários. Escolas, bancos, fábricas, comércio - tudo deixa de funcionar -. A única fonte de renda da economia nacional nesses dias agitados, além do produto da lavoura, é a arrecadação deixada pelos turistas. Nos dias atuais, temos o privilégio de assistir pela TV a quase totalidade dos movimentos carnavalescos Brasil afora: o belo colorido do desfile das escolas de samba na Avenida Marquês do Sapucaí, no Rio de Janeiro, a poética exibição das graciosas escolas de samba no sambódromo paulista; o frevo frenético de Recife e Olinda; e a frescura dos trios elétricos baianos. 

Particularmente, vejo o frenesi dos "foliões" um achincalhe de cada um deles diante da triste situação de penúria de milhões de desempregados brasileiros. Trata-se de sórdida insensibilidade de um povo perante a corrupção a minar a economia de seu próprio país. Nenhum intelectual se encoraja a dizer ao povo brasileiro a verdade sobre a nocividade do carnaval nos aspectos social e econômico. Nem mesmo os clérigos - tão tementes a Deus - até hoje não se posicionaram numa cruzada nacional contra a libertinagem carnavalesca! O que fazem é atacar de longe o folguedo, todavia sem jogar na cara dos foliões a maldade do Rei Momo num país que tem tudo para ser grande potência mundial econômica e militar, mas seu próprio povo o impede com a indolência do crucifixo no peito e samba no pé.

Por oportuno, cito aqui o procedimento maldoso dos portugueses contra o povo brasileiro, ao saírem do Brasil depois da independência sem deixar para nós progresso humano e material, com que pudessem demonstrar o espírito cívico português aos habitantes da terra tupiniquim. Contrariamente a isto, deixaram aqui muitos maus costumes, como o jogo do bicho, a idolatria, as entidades pagãs como o carnaval por exemplo, a cartomancia, a corrupção, etc. Também, nos legaram uma língua boa de se  falar, mas que ainda não se firmou definitivamente como um idioma, mas sim como um dialeto muito vulgar - ou uma pobre colcha de retalhos de um vernáculo atualmente falado por mais de 300 milhões de pessoas -. Explico: várias reformas ortográficas impostas por Portugal modificaram a estrutura básica da língua falada no Brasil: 1909, 1911, 1931, 1943, 1945, 1973 e, atualmente, a partir de 2009, a mais recente e confusa reforma ortográfica. A todas essas desnecessárias reformas, o governo brasileiro disse amém, sem sopesar o fato de que elas são responsáveis diretas pela grande evasão escolar no Brasil. 

Portanto, o português Zé Pereira, morador do Rio  Antigo, quando saía pelas ruas batendo tambor anunciando o carnaval, não tinha em mente o desvario de grande parcela da população brasileira, a jogar-se de corpo e alma na folia. Não fazia ele ideia da temeridade que o carnaval representa para milhões de jovens a se perderem na voracidade das drogas e do sexo. Por outro ângulo, quão nefasto é o carnaval para a economia nacional! Basta atentar aos índices publicados por entidades idôneas, como a FECOMÉRCIO de São Paulo: os feriados geram à economia um prejuízo estimado em mais 60 bilhões de reais. Dividindo-se esse valor por doze feriados havidos em média por ano, demonstra-se que em apenas num único dia de feriado o prejuízo atinge a 5 bilhões de reais, o que demonstra que em três dias de feriado o baque na economia pode chegar a mais de 15 bilhões de reais. Segundo a mesma fonte, no carnaval do ano passado o Brasil faturou com o turismo em torno de cinco bilhões de reais. Subtraindo-se esse valor do prejuízo total dos feriados carnavalescos, a economia brasileira sofreu um tombo de dez bilhões de reais somente em 2016! 

Pense nisto, eleitor amigo.