Governo Bolsonaro terá o desafio de acelerar a retomada do crescimento

Publicado em 01/12/2018 por Folha de S. Paulo Online

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A atividade econômica cresceu 0,8% no terceiro trimestre em relação aos três meses anteriores, o que leva o PIB (Produto Interno Bruto) de volta ao nível do primeiro semestre de 2012 e reafirma o ritmo de recuperação mais lento da história.

É esse cenário desafiador que será herdado pelo futuro governo de Jair Bolsonaro e, para ser revertido, exigirá do superministro Paulo Guedes mais do que uma organização diferenciada de ministérios.

Conhecidos os números do terceiro trimestre, a atividade econômica se mantém 5% abaixo do pico, registrado no primeiro trimestre de 2014.

Em relação ao fundo do poço alcançado no fim de 2016, a economia avançou apenas 3,3% --velocidade bem inferior à registrada nas saídas de outras recessões quando, passados os mesmos sete trimestres do pior momento para a atividade econômica, o PIB, a essa altura, já havia crescido quase o triplo se comparado ao piso.

00 Presidente eleito, Jair Bolsonaro participa da formatura de oficiais em Guaratingueta, no interior de São Paulo, nesta sexta-feira (30) -

Zanone Fraissat/Folhapress

Analistas ouvidos pela Folha dizem que a futura equipe econômica pode tomar uma série de medidas para destravar o PIB, como o uso dos recursos de privatização para abater a dívida pública, a simplificação tributária ou uma abertura comercial gradual.

Mas sem o comprometimento do governo com a agenda de controle fiscal --dentro da qual a reforma da Previdência é tida como indispensável-- a retomada econômica deve seguir num ritmo bastante gradual.

Segundo dados divulgados pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) nesta sexta-feira (30), o PIB avançou 1,3% em relação a igual trimestre do ano passado.

Segundo Juan Jensen, sócio da 4E Consultoria, a reforma da Previdência é um degrau indispensável para consertar o desequilíbrio fiscal do governo e, dessa forma, impedir a deterioração dos principais indicadores econômicos --além do próprio PIB, os juros, o câmbio e a inflação.

Jensen lembra que, atualmente, os desembolsos com a Previdência representam 45% do gasto primário do governo (que excluem o pagamento de juros) e vêm crescendo 6% acima da inflação todos os anos.

"A reforma tributária, a independência do Banco Central ou a abertura comercial negociada são muito bem-vindas, mas, sem a reforma da Previdência, entramos numa nova crise e aí nada mais vai adiantar", diz Jensen.

O economista prevê alta de 2,3% para o PIB de 2019, cenário que incorpora os sinais dados pelo futuro presidente de que a reforma deve sair menos rigorosa do que o desenho apresentado pelo Michel Temer. "Não podemos querer salvar o Brasil matando idoso", disse Bolsonaro na sexta (30), em São Paulo.

"O que mais pressiona o governo hoje é a parte fiscal. E no cenário base para chegar a um crescimento de 3,2%, que é a nossa previsão para o ano que vem, é preciso que haja a aprovação de alguma reforma", disse o economista do Santander Lucas Nóbrega.

"Conforme o passar de 2019, a capacidade de articulação, as condições de aprovação da reforma, isso tudo vai desenhando cenários favoráveis ou desfavoráveis ao governo. Eu entendo que a reforma é algo que precisa ser endereçado logo no primeiro semestre", disse ele.

Nobrega explica que, por ora, o que o mercado espera de Guedes é que ele atenda a expectativa de que serão criadas as bases para um controle fiscal de longo prazo no país. "Tem muita água para rolar debaixo dessa ponte, mas a expectativa por enquanto é essa."

O economista do Itaú-Unibanco Artur Passos projeta crescimento de 2,5% para a economia brasileira em 2019.

"O principal desafio, sem dúvida, é a consolidação fiscal. Difícil avaliar o tempo que os agentes econômicos vão levar para definir esse debate, mas o mais importante é que haja a expectativa que a reforma será aprovada", disse.

Segundo Jensen, o ideal é que proposta seja apresentada até março e aprovada ao menos na Câmara até julho. "Passando a Previdência, o resto fica fácil", diz.

Por enquanto, a retomada segue bastante influenciada por algumas travas, como o emprego ainda em recuperação, que afeta o consumo, e um alto nível de ociosidade da indústria que segue afetando o investimento.

"Nós observamos o crescimento contínuo do PIB, mas com taxas que não consideramos expressivas", disse Rebeca Palis, coordenadora responsável pela áreas de Contas Nacionais do IBGE.

Mesmo em ritmo fraco, todos os itens do PIB do terceiro trimestre apresentaram alta disseminada, com exceção de eletricidade e gás, água e esgoto (parte do PIB industrial), com queda de 1,1% em relação ao trimestre anterior.

Segundo analistas, isso pode ser explicado pela fraca base de comparação do segundo trimestre, período afetado pela paralisação dos caminhoneiros, em maio.

A previsão do governo é que a economia brasileira termine o ano com uma expansão de 1,4%, em linha com a expectativa de analistas do mercado. No início do ano, antes da paralisação dos caminhoneiros, a previsão era alta perto de 3%."