Governo do Estado recua na venda de ações do Banrisul

Publicado em 07/12/2017 por Jornal do Comércio - RS

Foi com pompa que o governo do Estado anunciou, em outubro, que faria a venda de ações do Banrisul. Mas foi com discrição que noticiou, ontem, que o negócio foi adiado. Antes de o governo assumir que estava voltando atrás, porém, o mercado financeiro já o havia feito.
Na segunda-feira, um relatório do banco BTG Pactual já previa que a oferta seria cancelada. O fato que teria culminado com a desistência seria a queda da ações do banco a um limite insustentável: R$ 12,80 (encerrando o dia em pouco mais de R$ 13,00), ante mais de R$ 17,00 na véspera do anúncio. Se vendesse as ações com a cotação nestes patamares, o governo do Estado estaria vendendo o banco por um valor que, na soma final, equivaleria a apenas 0,8 vezes o seu valor patrimonial (20% a menos do que vale). Ontem, a ação BRSR6 do Banrisul, a mais negociada, fechou estável na Bolsa a R$ 14,25 (mesmo valor da abertura dos negócios). 
Analistas de mercado que acompanham as movimentações do banco já alertavam para problemas no negócio e para os danos da venda com as cotações em queda. "Se vendessem o banco pelos valores posteriores ao anuncio, o governo estaria se desfazendo de patrimônio público por um valor abaixo do que vale e poderia ser processado por improbidade administrativa", esclarece Débora Morsh, uma das gestoras da Zenith Asset, que antevia o problema já em outubro.
O analista-chefe da Geral Investimentos, Carlos Müller, também concorda que a venda no momento se tornou inviável. "Com esta desvalorização, a arrecadação seria muito menor (com a venda). Por essa ótica, ficou bem mais complicado fazer a venda agora", concluiu Müller.
Outro profissional do mercado, que prefere não se identificar, também cita o relatório do BTG Pactual divulgado na segunda-feira e avalia que pode ter ocorrido inclusive vazamento de informações privilegiadas. O especialista em ações do mercado financeiro também critica o fato de o governo ter publicado em seu site o comunicado sem antes ter informado Fato Relevante ao mercado, via CVM, acredita que o órgão aplicará multa ao banco. "Mesmo que o governo seja acionista, é o banco que está coordenado a venda e não divulgar fato relevante sobre a desistências é irregular", opina o analista.
No mercado financeiro, várias dúvidas foram levantadas ontem sobre a forma como o governo conduziu o negócio, o anúncio e sobre o futuro do negócio. A condução da venda pode determinar multa da Comissão de Valores Imobiliários (CVM), que recentemente já havia pedido esclarecimentos sobre declaração do vice-governador, José Paulo Cairolli, de que o processo seria concluído até dia 14 de dezembro. Na contramão das afirmações de Cairolli, de que estava tudo bem encaminhado, a falta de informações sobre o andamento do processo já poderia ser considerado um prenúncio de algo não andava de acordo com o previsto. Até o início deste mês nem governo nem Banrisul informavam sobre o andamento da agenda do road show para investidores estrangeiros, por exemplo.
Procurado ontem pelo Jornal do Comércio para falar sobre o caso, o governo do Estado afirmou que não se pronunciaria além da nota divulgada no portal. O comunicado se resume a dizer que o governo decidiu adiar a venda de ações do Banrisul "em virtude das condições desfavoráveis de mercado que a decisão final sobre a realização da oferta dependerá de novas avaliações técnicas que estão sendo feitas e todos os passos serão pautados pelo interesse público, sempre observando as regras em vigor". No início da noite, o banco divulgou fato relevante onde afirma que "a possibilidade de venda permanece em andamento e continuarão sendo observadas, conjuntamente pela companhia, acionista vendedor e assessores financeiros".