Greve de caminhoneiros faz banda larga fixa desacelerar

Publicado em 10/07/2018 por Valor Online

Greve de caminhoneiros faz banda larga fixa desacelerar

Os dez dias de greve dos transportes rodoviários no Brasil, no fim de maio, deixaram marcas no transporte de dados das operadoras de telecomunicações. Com suas frotas paralisadas e orientadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e pelo governo a dar prioridade ao atendimento de serviços públicos e essenciais, as teles viram as instalações de banda larga fixa em novos clientes descer ladeira abaixo. E esse é o único serviço de telecomunicações que mantém o crescimento no país. A telefonia fixa e móvel e a TV por assinatura estão em ritmo de queda.

Embora o número de 30,1 milhões de assinantes de banda larga fixa tenha sido cerca de 9% maior que um ano antes, as 26 mil adições líquidas em maio foram as menores nos últimos 12 meses - em abril atingiram 218 mil. Esse indicador é o resultado da diferença entre a entrada de novos clientes e os desligamentos. Desde junho do ano passado, o menor ganho de clientes, 86 mil, ocorreu em agosto. O pico foi em janeiro de 2018, com 511 mil.

A greve dos transportes rodoviários de fato deixou as teles em um beco sem saída. Sem combustível, os serviços de manutenção e reparo ficaria comprometido, o que poderia prejudicar não só o consumidor individual, mas os serviços essenciais, como hospitais, bombeiros e segurança pública. Havia risco de suspensão de serviços de telefonia, SMS e internet por eventuais falhas.

O setor procurou a Anatel para informar que o estoque de combustível da frota estava praticamente zerado e pediu prioridade no abastecimento. Foi atendido, mas os piqueteiros passaram a barrar os carros identificados como de serviços de telecomunicações. A frota do setor é estimada em 100 mil carros, pertencentes a aproximadamente 18 mil empresas de todos os portes, que são terceirizadas para serviços de instalação e manutenção em telefonia fixa e móvel, internet e TV paga.

"As adições líquidas em maio foram provavelmente afetadas pela greve dos caminhoneiros", opinaram em relatório Susana Salaru e Vitor Tomita, analistas do Itaú BBA. Eles destacaram, no texto, a extensão do impacto nas redes das companhias. Houve desaceleração em número de clientes de fibra óptica até a residência (FTTH, na sigla em inglês) na Vivo, marca da Telefônica, enquanto a TIM Brasil e o Grupo Claro (inclui Net e Embratel) reportaram menos assinantes que em abril. Na Oi, a perda de usuários se aprofundou.

A Vivo relatou um saldo de 45 mil novos clientes em maio ante 57 mil em abril, ainda muito acima das médias históricas e consistente com seu foco na expansão da operação de FTTH, escreveram os analistas. Por outro lado, foram desligadas 36 mil conexões xDSL - tecnologia que transmite banda larga por linha telefônica. Isso pode indicar que parte dos usuários está saindo dessa tecnologia, mais defasada, para a fibra. Ainda assim, a xDSL se mantém como a tecnologia mais adotada, com 12,9 milhões de contratos, seguida por cabo (9,2 milhões) e fibra óptica (3,8 milhões), relata a Anatel.

O destaque para a Oi foi o saldo negativo de 55 mil contas em maio, comparado com 14 mil desligamentos em abril. Desde agosto do ano passado, a Oi, que está em recuperação judicial, é a operadora que mais perde usuários em banda larga fixa. A Claro manteve saldo positivo por 12 meses.

De acordo com o relatório da Anatel, frisado pelos analistas do Itaú BBA, o crescimento do mercado continua concentrado nas conexões de velocidades mais altas. Na Vivo e no Grupo Claro, os planos acima de 34 megabits por segundo mantiveram o ritmo de alta, enquanto os de velocidades inferiores declinaram. A vasta oferta de vídeo sob demanda, imagens e grandes volumes de dados seduzem os consumidores que buscam internet cada vez mais rápida.

Mas ainda são poucos os consumidores que conseguem navegar seja em qual for a velocidade, principalmente por falta de conexão. Apenas 14,4 brasileiros em cada 100 possuem acesso. A falta de infraestrutura para provedores de internet em regiões remotas ou pouco povoadas consta no relatório Índice Global de Conectividade (GCI, na sigla em inglês), da fabricante chinesa Huawei.

Em um ranking de 79 países, o Brasil ficou em 44º lugar em 2018. No ano passado, era o 30º entre 50 países. O índice avalia o desempenho em 40 indicadores que acompanham o impacto das tecnologias da informação e de comunicações na economia nacional, competitividade digital e crescimento.

Na análise por regiões geográficas da Anatel, só a Vivo registrou avanço na cidade de São Paulo e ganho de clientes em maio.